Milhares de baianos caminham 8 km para saudar o Senhor do Bonfim
“Nessa Sagrada Colina, mansão da misericórdia, dai-nos a graça divina, da justiça e da concórdia.” Ao som do tradicional Hino ao Senhor do Bonfim, depois de oito quilômetros de caminhada, dezenas de milhares de fiéis foram recebidos na colina onde fica encravada a igreja que sedia a devoção baiana, onde Jesus Cristo tem nome próprio e, para muitos, é até confundido com um santo. Ali acontece todos os anos, na segunda quinta-feira após Dia de Reis, a Lavagem do Bonfim, misto de festa religiosa e profana que reúne católicos, candomblecistas e muitos adeptos do sincretismo religioso, que tomam a festa como um amuleto para um ano abençoado.
A concentração em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia começou antes das 7h, precedendo o cortejo católico que levaria a imagem do Senhor do Bonfim para seu altar de origem. Esse traslado não acontecia há anos, e foi retomado, entre outros motivos, por causa da declaração da celebração como Patrimônio Imaterial da Nacional numa cerimônia realizada na tarde de ontem com a presença da ministra da Cultura, Martha Suplicy.
Logo depois da parte cristã, partiu o cortejo das baianas, representantes das religiões de matriz africana. Apesar de não ter havido qualquer justificativa oficial, esse ano a quantidade de baianas foi visivelmente menor. “Não posso falar pelas outras, mas acho que houve uma chateação por não convidarem o ‘povo de santo’ para a cerimônia de ontem”, afirmou uma baiana que preferiu não se identificar.
Ainda assim, muitas delas mantiveram a tradição, como a técnica de enfermagem Marina Augusta de Jesus. Aos 67 anos, ela frequenta a festa desde a infância. “Eu vinha com meu pai no tempo em que os desfiles eram em carroças enfeitadas. Éramos 11 irmãos e era uma grande farra”, recorda. Há cerca de 10 anos ela, que frequenta a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, foco das devoções sincréticas na Bahia, se juntou às baianas. “Não perco um ano sequer. A diferença é que com a idade eu tento ficar mais na sombra, ser mais tranquila. Mas vou até o fim.”
Criado há alguns anos, quando a festa começou a perder as características tradicionais, o lema “quem tem fé vai a pé” parece que foi mesmo absorvido. Pela primeira vez, nenhum animal, trio ou outro tipo de veículo foi visto no cortejo, com fileiras engrossadas por gente de todas as idades. Estreante, a pequena Karoline de Jesus, que ainda não completou 3 anos, caminhou com os pais vestida de baiana, com direito a turbante, várias pulseiras e a inseparável chupeta. A mãe, a técnica de enfermagem Hildete de Jesus, 36 anos, garantiu que só iria até o fim se estivesse tudo bem com a garotinha. “Ela está animada e brincando, mas se ficar muito estressada, a gente para”, afirmou.
A Lavagem do Bonfim também é um evento tradicionalmente político para os baianos, por ser a primeira oportunidade de aparição popular dos governantes durante o ano. Por isso, intercaladas com as fanfarras, bandinhas, grupos religiosos e cortejos de baianas, saem as comitivas de governos e partidos. Este ano, o PT saiu na frente, com o governador Jaques Wagner e seu candidato à sucessão, Rui Costa, que foram vaiados em vários pontos da procissão.
Surfando na onda da popularidade, em parte herdada do avô, o prefeito Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM), veio atrás, caminhando sem pressa e parando mais do que seus correligionários gostariam para cumprimentar eleitores, ouvir agradecimentos e, claro, fazer algumas promessas.
Apesar de parecer estranho para quem não conhece a festa, a Igreja do Bonfim fica fechada durante todo o evento, só voltando a abrir amanhã. Isso porque a lavagem em si é um ritual sincrético, protagonizado pelas baianas, que lavam as escadarias do adro com água de cheiro, além de darem banhos aos fiéis que assim desejam. O motorista Jesuíno Ramos é um deles. Depois de se ajoelhar no chão para receber a bênção de uma baiana, subiu a escadaria para o ritual mais popular atualmente: amarrar fitinhas do Bonfim no gradil do templo e fazer orações. “É aqui que abro meu ano, ofereço meus projetos. Me sinto realmente renovado”, explica, sem se incomodar com o empurra-empurra de quem sobe e desce da igreja.
Após a chegada do último grupo à Colina Sagrada, composto por baianas e a comitiva do prefeito, a parte religiosa da festa vai se dissipando aos poucos, à medida que cresce o movimento nas tradicionais barracas. Lá, além de cerveja, refrigerante e água, é comum que os visitantes comam “um feijão”, como se diz na Bahia. No caso, uma feijoada. Com a oferta de clientes, quem pode se aproveita, vendendo um prato da delícia por até R$ 25 para se comer ali mesmo, no sol, e até com talher de plástico. Satisfeita a fome, a festa segue pela noite e madrugada, com muita música e cerveja.