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Mancha de óleo já afeta 109 pontos do litoral do Nordeste

Poluente, de origem ainda desconhecida, já foi achada em oito dos nove Estados da região; comerciantes começam a ver queda de movimento nas praias

27 set 2019
20h56
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RECIFE - A mancha de óleo que se espalha por 2 mil quilômetros da costa brasileira já atinge 109 pontos desde o Maranhão até Sergipe e afeta alguns dos destinos mais visitados do País. É o caso das praias de Pipa (Rio Grande do Norte), Maragogi (Alagoas), Tamandaré (Pernambuco) e do Futuro (Ceará), cuja economia depende da indústria turística, segundo relatório do Ministério do Turismo. Nos nove Estados da região, só a Bahia não foi contaminada pela substância viscosa.

Dono de lojas de suvenir na orla de Pipa, George Policarpo diz que não dá para calcular prejuízo com acidente. "Quando o turista percebe as manchas, ele vai ter péssima imagem do local e vai achar que é descuido da região, que depende disso. O impacto aqui será maior a médio e a longo prazo. As pessoas que vierem agora vão levar em consideração isso", pensa.

Suely Gomes trabalha em um restaurante na orla de Maragogi, outra praia atingida, e se preocupa com o proporção do vazamento no litoral. "O maior problema é para quem quer ir para as galés e a mancha pode afetar isso". Área de preservação, as piscinas naturais de Maragogi, também conhecidas como galés, são uma das maiores unidades de conservação marinha do país e carro-chefe do turismo na região.

"Apesar de não se notar tanto nas praias a mancha, isso vai afetar bastante a gente, porque o pessoal vai ficar com medo e quem fizer a reserva vai cancelar. Claro que o meio ambiente é importante, mas a situação financeira da cidade vai despencar", teme Ana Carla Silva, que trabalha em outro restaurante de Maragogi, principal cidade do litoral norte-alagoano.

Na praia de Carneiros, em Tamandaré, uma das mais visitadas em Pernambuco, Adriano Farias trabalha no comércio e espera que ocorra vigilância sobre produtos marítimos contaminados. "O acidente repercute mal para toda orla. Essa situação foi séria e só vem diminuir a nossa atividade. A gente precisa da conservação e do cuidado com o meio ambiente para não acontecer mais isso", explica.

De acordo com o Secretário de Turismo do município de Jericoacoara, Ricardo Gusso, apesar do aparecimento de algumas manchas, nenhuma atividade na Vila de Jericoacoara foi prejudicada. O impacto maior foi na fauna marinha: uma tartaruga-oliva foi encontrada coberta de óleo.

"Esta semana o movimento foi bem diferente. Bem devagar. Caiu em torno de 20%, mas não sabemos se foi por conta das manchas de óleo ou por outros fatores", relata Michelly Amaral, proprietária de uma das barracas da Praia do Futuro.

Desde 2 de setembro, registrou-se derramamento da substância em praias nordestinas, chegando a Pirambu, Barra dos Coqueiros e Ponta dos Mangues, em Sergipe, esta semana. Estudo feito pela Petrobrás indicou que o produto encontrado é petróleo cru e não foi produzido no Brasil. A companhia também nega responsabilidade sobre o acidente.

Até o momento, não se sabe a origem e o responsável pelo vazamento de petróleo no Nordeste, mas os órgãos ambientais acreditam que uma embarcação tenha despejado a substância ilegalmente em alto-mar.

O óleo traz consequências diretas para o ecossistema das praias e, até agora, atingiu dez animais (entre tartarugas marinhas e uma ave), dos quais sete morreram, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

O contato com o produto também pode levar a sérios problemas à saúde de moradores e turistas. Mônica Costa, professora do Departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco, afirmou à reportagem que locais afetadas pelo vazamento devem ser fechados para proteger a vida das pessoas.

Apesar de a pesquisadora não aconselhar o consumo de alimentos produzidos nessas áreas, até que se conheçam detalhes sobre a origem e a composição da substância, órgãos estão prevenindo banhistas sobre recolhimento do poluente.

O Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema) do Rio Grande do Norte, por exemplo, emitiu nota em que pede para população evitar contato com o petróleo e, se houver, "tentar retirar primeiro com gelo ou com óleos de cozinha, devendo, logo após, lavar a pele com água e sabonete neutro". A medida é vista como "preventiva" pelo instituto já que o piche provoca irritações e alergia no corpo.

O petróleo cru é rico em benzeno, xileno e tolueno, causando náusea, visão turva, euforia e vertigem quando em contato com mãos, olhos e boca. Além disso, as neurotoxinas do óleo podem afetar o funcionamento cerebral a longo prazo.

"Em função disso, é importante que a coleta seja feita utilizando-se ferramentas como rastelos e pás, acondicionando provisoriamente o material em recipientes plásticos, enquanto o produto não for retirado do local, procurando proteger-se do contato direto com o resíduo, não podendo ser retirado por tratores", instrui a nota do Idema.

Ibama, Corpo de Bombeiros, Marinha do Brasil e Petrobrás estão investigando a situação. Segundo o Ibama, uma equipe de 100 pessoas está trabalhando com medidas paliativas na costa durante a semana.

Sobre a fiscalização de produtos vindos de área costeira manchadas pelo poluente, entramos em contato com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, mas não obtivemos resposta até a publicação desta reportagem. A Agência Sanitária de Sergipe, por meio da gerência de alimentos e da saúde ambiental, negou responsabilidade sobre o caso. Não conseguimos resposta de outras agências de vigilância sanitária locais. /COLABOROU LORRÂNE MENDONÇA, ESPECIAL PARA O ESTADO

Estadão
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