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Jairinho nega agressões a Henry: 'nunca encostei em uma criança na vida'

O ex-vereador é acusado de matar o menino de 4 anos e insiste que delegado se negou a ouvir suas testemunhas

13 jun 2022 - 14h35
(atualizado às 20h37)
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RIO - Um dos acusados pela morte do menino Henry Borel, de apenas 4 anos, o médico e ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, negou com veemência qualquer agressão contra o menino durante audiência nesta segunda-feira, 13, no 2.º Tribunal do Júri do Rio de Janeiro.

"Eu sou inocente. Eu não fiz isso", disse em mais de uma ocasião durante a primeira parte do depoimento, que até a parada para o almoço já durava cerca de 1h30. "Em dois períodos em que me acusam de agredir, de torturar o Henry, ele estava passando por tratamento com uma psicóloga infantil. Ela é especializada nisso. Se houvesse as agressões ela iria saber", defendeu-se.

Durante sua fala, Jairinho discorreu sobre sua vida pessoal e convívio com a família. Ele disse que ao longo de sua vida sempre acolheu crianças em casa, inclusive menores do que Henry. "Eu, definitivamente, juro por Deus que nunca encostei em uma criança na minha vida", sustentou.

Ao encerrar a oitiva, às 18h55, o réu fez um apelo: "Por favor, preciso de justiça. Não aguento mais passar o que estou passando. Estou perdendo a vontade de viver."

A audiência, realizada no Fórum Central do Rio de Janeiro, foi marcada também por discussão entre a juíza Elizabeth Machado Louro e os oito advogados de defesa de Jairinho, o que atrasou a audiência em mais de uma hora. Em outro momento, às 17h40, outra discussão interrompeu o depoimento, desta vez entre os advogados de Jairinho e de Monique Medeiros, mãe de Henry e também acusada pelo crime. Monique e Jairinho começaram a namorar em setembro de 2020 e passaram a morar juntos em janeiro de 2021, quando Henry passou a dividir a casa com o padrasto. Monique cumpre prisão domiciliar e não participou da audiência desta segunda-feira.

Segundo Jairinho, na noite de domingo, 7 de março de 2021, ele e Monique viam uma série na TV, no quarto deles, enquanto Henry estava no outro quarto, e a mulher se levantou algumas vezes para ver o filho. O médico tomou remédio e dormiu por volta de 1h30 do dia 8. Durante a madrugada foi acordado por Monique, preocupada porque o filho estava passando mal. Conforme o réu, Henry estava com dificuldade para respirar. "Imaginei que ele tivesse engolido alguma coisa (que estivesse dificultando a respiração)", afirmou. Decidiram levar a criança ao hospital Barra D'Or, no mesmo bairro, "a cinco minutos de casa". Segundo os registros, o casal e a criança desceram no elevador do prédio em que moravam às 4h09 e o atendimento no hospital começou às 4h29.

Jairinho afirmou que Henry chegou ao hospital vivo e sem marcas de agressão, e teria sido morto durante os procedimentos de reanimação realizados pela equipe médica. "O Henry chegou sem machucado. Caso tivesse, teríamos sido atendidos de outra maneira. É lógico que a polícia ia nos atender, que no mínimo o Conselho Tutelar estaria lá. Tudo aconteceu como uma morte acidental. Todos os trâmites se deram, desde o apartamento até o velório, como uma morte acidental. Ninguém falou em morte violenta. Isso veio depois", afirmou. "Massagem cardiorrespiratória pode causar lesões", seguiu. A versão de que a morte foi ocasionada pelo atendimento prestado à criança foi defendida pelo assistente técnico Sami El Jundi, contratado pelo ex-parlamentar e que prestou depoimento em juízo no dia 1º de junho. Na noite desta segunda-feira, a reportagem procurou o hospital para que se pronunciasse sobre essa acusação, mas não havia obtido resposta até a publicação desta reportagem.

Jairinho também fez intensas críticas ao parecer emitido pelo perito legista Leonardo Tawil, segundo o qual Henry morreu vítima de lesões causadas por agressões. O réu alternou essas alegações técnicas a declarações emotivas de inocência: "Me escolheram de culpado, disseram 'esse rapaz é que vai ser o culpado, e pronto'. Sou vítima de uma inquisição. Pelo amor de Deus, eu estou sendo injustiçado. O que está acontecendo? Por que só estão vendo um lado?", questionou, durante o interrogatório. "Quem seria capaz de fazer mal a uma criança? Quem é o ser humano que é capaz de fazer mal a uma criança? Existe? Existe. Eu sou médico, já vi acontecer diversas vezes. Isso não é o meu perfil. Isso não cabe, essa roupa não me cabe. Eu juro por Deus que nunca encostei em nenhuma criança. Meu histórico não permite dizer isso. Sou nascido e criado em Bangu. Meus pais são casados há 50 anos. Minha família é pautada no amor. Sempre procurei fazer o que era certo", declarou.

Jairinho elogiou a ex-mulher. "Achei que ia passar a vida inteira com Monique. Todos os meus momentos com ela foram muito felizes. Não tenho nada a falar sobre ela, como mãe e como mulher". Afirmou ainda que tinha boa relação com o enteado, classificado por ele como "a criança mais linda deste mundo". "Quando me mudei para morar com a Monique, escolhi o melhor quarto para ele. Tínhamos uma vida felizes juntos", afirmou. "Em dois períodos em que me acusam de agredir, de torturar o Henry, ele estava passando por tratamento com uma psicóloga infantil. Ela é especializada nisso, se houvessem as agressões ela iria saber", defendeu-se.

A audiência começou com mais de uma hora de atraso devido a uma discussão entre a juíza e os oito advogados de defesa, entre eles Flávia Fróes e Cláudio Dalledone. A juíza solicitou que apenas aquele que estivesse explanando poderia ficar em pé, mas os demais se recusaram a se sentar, alegando que tinham prerrogativa legal para permanecer de pé. Essa discussão se estendeu por mais de 20 minutos.

Os advogados tentaram adiar a audiência, mas o pedido foi negado pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio. No início da sessão, alertado de que poderia permanecer em silêncio, Jairinho afirmou que só responderia perguntas feitas pelos próprios advogados de defesa, não aquelas da própria juíza, do Ministério Público ou do assistente de acusação. Ao longo da audiência, no entanto, o ex-vereador respondeu algumas perguntas feitas por esse grupo.

Esta foi a quinta audiência de instrução e julgamento do caso - a segunda com depoimento dos réus. As outras aconteceram em outubro e novembro do ano passado e fevereiro deste ano. A princípio, depois desse interrogatório a juíza pode decidir se leva Jairinho a julgamento pelo Tribunal do Júri.

"O conjunto probatório já foi todo produzido. Os requerimentos da defesa são meramente protelatórios, não há necessidade alguma da oitiva dessas novas testemunhas", disse o advogado Cristiano Medina da Rocha, que atua como assistente de acusação, em parceria com o Ministério Público do Rio. "Tenho plena convicção de que as provas estão totalmente uníssonas no sentido de apontar que o Jairo é, realmente, um assassino frio e calculista."

Estadão
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