Chuva causa mortes e destruição na Baixada Fluminense
Onze horas de um forte temporal trouxeram um rastro de tragédia e destruição ao Estado do Rio de Janeiro. O número de desalojados passa de mil. A Baixada Fluminense foi a região mais castigada. Em Nova Iguaçu, três pessoas de uma família morreram e duas ficaram feridas, após o deslizamento de uma casa, no entorno da Reserva Biológica de Tinguá. Em Belford Roxo e em Duque de Caxias, chega a 500 o número de famílias desalojadas. Em Campos Elíseos, Caxias, sede da Reduc, o Rio Sarapuí transbordou, inundou casas e levou desespero a centenas de famílias. Bombeiros tiveram de usar botes para salvar moradores, que se agarravam em árvores e móveis destruídos. A prefeitura de Duque de Caxias decretou "situação de emergência".
Em Belford Roxo, na Avenida Joaquim da Costa Lima, no bairro Lote 15, o deslizamento de uma encosta atingiu 10 casas. O técnico de áudio Sérgio Mariano, 33 anos, ficou desolado ao ver a sala de casa inundada de lama. "Foi por Deus que não morremos. Minha família ainda corre perigo, mas temos que ficar aqui. Não temos para onde ir", disse. Vizinha de Sérgio, a dona de casa Claudete Marques, 50 anos, perdeu móveis e eletrodomésticos. "Estou morando aqui há seis meses. Perdi tudo, meus armários de quarto ficaram cobertos de lama", disse, desconsolada.
Em Caxias, o cenário ontem era de casas invadidas pela água e móveis em pedaços flutuando. Em Campos Elíseos, a metalúrgica Marta Silva, que teve a casa inundada pela enchente, recorreu ao batedor de carne e a uma faca para abrir uma fenda na parede e escoar a água. Ela contou que quitou recentemente as prestações do guarda-roupa e da cama, ambos destruídos pela chuva. "Estragou tudo o que eu comprei com sacrifício", disse ela, que recebeu doações de alimentos de vizinhos.
Para resgatar moradores ilhados, grupamentos marítimos do Corpo de Bombeiros de Copacabana e Barra da Tijuca foram chamados em socorro. Noemide de Oliveira, 70 anos, foi retirada de casa após ser alertada do risco que corria ao deixar a TV ligada numa tomada submersa pela água.
Em cima de um bote, bombeiros salvaram os irmãos Vinícius Rocha dos Santos, 16 anos, e Bruno Silva Alves, 10, que sofrem de distrofia muscular e usam cadeiras de rodas. A chuva veio enquanto a família dormia. Ninguém percebeu. Em estado de choque, Flávia Maria, 37 anos, mãe de duas crianças, acompanhou com água na cintura o bote que levou os filhos até uma igreja, que serviu de base para receber desabrigados pela Prefeitura de Duque de Caxias.
O prefeito de Caxias, José Camilo Zito, responsabilizou a Petrobras pela situação de calamidade em Campos Elíseos. Segundo ele, o canal Fabor, que passa dentro da Reduc, está assoreado por falta de investimento da estatal. "Vamos exigir que a refinaria faça a limpeza", disse. A empresa respondeu que o canal fica fora de sua responsabilidade.
A secretária estadual de Ambiente, Marilene Ramos, esteve no local e disse que é necessário investir de R$ 1 bilhão na Baixada. "A região foi ocupada desordenadamente. Isso precisa ser enfrentado". Na Avenida Presidente Kennedy, em Caxias, uma queda de barreira causou caos no trânsito durante a manhã.
O temporal também trouxe transtorno nas escolas de Nova Iguaçu, Belford Roxo e Caxias, com 20.550 alunos sem aulas. Dois postos de saúde, nos bairros Boa Esperança e Lote 15, ambos em Belford Roxo, não funcionaram. A chuva também castigou a região noroeste do estado. Em Natividade, um deslizamento de terra atingiu três residências, que foram destruídas, mas não deixou vítimas. Oito casas foram interditadas pela Defesa Civil municipal e 27 pessoas estão desalojadas. Tanguá, na região metropolitana, também foi castigada, com 150 pessoas desabrigadas.
Aluguel social e verba federal para vítimas
O governador do Rio, Sérgio Cabral,sobrevoou de helicóptero ontem as áreas atingidas pela chuva em Duque de Caxias e Belford Roxo e garantiu que a população das duas cidades receberão um aluguel social, a ser repassado pelas prefeituras. O valor não foi divulgado. O recurso será entregue aos moradores temporariamente impedidos de voltar para suas casas.
Cabral afirmou que falou por telefone com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que este garantiu a edição de medida provisória para socorrer o Rio de Janeiro e outros três estados atingidos pelas chuvas: Espírito Santo, Minas Gerais e Paraná. O socorro será de R$ 400 milhões. Cabral disse que o estado tem investimentos de R$ 360 milhões para limpeza e dragagem nos rios Botas, Sarapuí e Iguaçu, que cortam a Baixada.
Hospital de campanha em Belford Roxo
Um hospital de campanha para o atendimento das vítimas da chuva será montado pelo governo do Estado no Clube Vale do Ipê, no bairro do Lote 15, em Belford Roxo. Segundo o governador Sérgio Cabral, o equipamento, comprado recentemente, tem capacidade para atender até 500 pessoas por dia.
A intenção é de que o hospital atenda casos como o do aposentado Sidney da Rocha, 78 anos, morador do bairro Cidade dos Meninos, em Duque de Caxias. Deficiente físico, ele permaneceu isolado em sua casa totalmente alagada. "A água subiu rápido e nós ficamos presos. Tenho medo que a saúde dele fique ainda mais debilitada", disse Maria Aparecida Souza, 62 anos, esposa do aposentado, que foi resgatado por bombeiros.