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AP: 4 meses após acidente com píer, 2 continuam desaparecidos

26 jul 2013 - 16h26
(atualizado às 16h31)
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Área do desmoronamento de terra no porto da mineradora Anglo American, em Santana (AP), que deixou seis funcionários desaparecidos nesta quinta-feira
Área do desmoronamento de terra no porto da mineradora Anglo American, em Santana (AP), que deixou seis funcionários desaparecidos nesta quinta-feira
Foto: Odenislon Silva / Futura Press

Quase quatro meses após o acidente que matou pelo menos quatro trabalhadores de um terminal do Porto de Santana, a cerca de 20 quilômetros de Macapá, dois funcionários continuam desaparecidos e as autoridades seguem tentando identificar as causas do acidente.

O deslizamento de parte do terreno onde a empresa multinacional Anglo American armazena milhares de toneladas de minério de ferro ocorreu na madrugada de 28 de março. O material caiu sobre o píer flutuante onde atracavam os navios que transportam o minério vendido a países do Oriente Médio, Ásia e Europa.

Os entulhos atingiram caminhões, guindastes, parte do escritório da empresa e arrastaram para o fundo do rio Amazonas seis trabalhadores que carregavam uma embarcação com destino a China.

Após o acidente, todo o empreendimento foi interditado por órgãos como o Ministério do Trabalho e Emprego, que avaliou que o local oferecia risco aos trabalhadores. O Instituto do Meio Ambiente e de Ordenamento Territorial do Estado do Amapá (Imap) multou a empresa em R$ 20 milhões, alegando que houve alterações graves na natureza.

Enquanto a mineradora, uma das maiores do mundo, remove os destroços e tenta localizar os dois trabalhadores desaparecidos, as autoridades continuam investigando as possíveis causas do acidente. Em um relatório apresentado esta semana, o auditor fiscal do trabalho, Franklin Rabelo, deslocado do Ceará especialmente para analisar o caso, aponta, entre outras coisas, que a empresa não fez um estudo geotécnico para comprovar se a área seria adequada ao armazenamento de minério.

Segundo o relatório do auditor, a empresa tem um laudo sobre análise de risco, de 2007, e após essa data a mineradora passou a armazenar todo o material mais perto da margem do rio para facilitar o carregamento dos navios, sem, contudo, realizar novos estudos quanto à estabilidade do talude e a consistência do solo.

No acidente, foi justamente o talude, uma contenção inclinada em forma de barranco de cerca de 7 metros de altura, feita no próprio terreno, que desmoronou. O auditor também descarta a hipótese que fenômenos naturais, como uma onda, tenham provocado o acidente, assinalando que a onda que atingiu o píer decorreu do grande volume de terra e minério que atingiu o rio Amazonas.

Embora o píer continue interditado, impedindo a empresa de recuperar as instalações destruídas e normalizar suas atividades, o local onde o minério é descarregado, a chamada moega, já foi liberado. Com isso, a empresa pôde voltar a receber o minério, parcialmente transportado e embarcado em navios que passaram a usar o porto público administrado pela Companhia Docas de Santana.

Segundo o chefe do núcleo de segurança da superintendência do Ministério do Trabalho, Omar Molina, a liberação total da área, por enquanto, está descartada. "Ainda faltam algumas providências e documentos que comprovem a estabilidade do local e a segurança dos trabalhadores", adiantou Molina.

Na terça-feira (23), a empresa solicitou autorização para construir uma esteira ligando a moega ao píer fixo, da década de 1950, que existe no interior da área interditada. O pedido ainda está sob análise.

Molina também confirmou que, em 2012, auditores fiscais do Grupo Especial de Fiscalização Móvel do Trabalho Portuário e Aquaviário já haviam identificado problemas com o empreendimento. Como não participou da operação, ele evitou comentar se os 19 autos de infração lavrados à época eram graves o bastante para justificar a interdição da área, evitando assim o acidente fatal. A empresa recorreu dos autos, que estão sob análise.

Por quase um mês após o acidente, homens do Corpo de Bombeiros buscaram os seis trabalhadores desaparecidos. Apenas três corpos foram resgatados quando a corporação encerrou as buscas, deixadas sob a responsabilidade da Anglo American.

"Não poderíamos ficar muito mais tempo por lá, atendendo exclusivamente à empresa, que contratou mergulhadores e todo o equipamento necessário, como guindastes e aeronaves, para continuar as buscas e remover os destroços. Durante algum tempo continuamos só orientando os trabalhos", disse o chefe da assessoria do Corpo de Bombeiros, tenente-coronel Rogério André Ramos.

No começo de junho, mergulhadores contratados pela mineradora encontraram uma ossada que, no final do mês passado, a Polícia Técnico-Científica do Amapá (Politec) identificou como sendo de Pedro Coelho Ribeiro, 35 anos. "A identificação foi bastante trabalhosa devido ao estado em que estava a ossada. Só foi possível identificá-la por meio de exames comparativos com o DNA do material fornecido pela filha da vítima", comentou à Agência Brasil o diretor da Politec, Odair Pereira Monteiro.

Mulher de Ribeiro, a professora Roseane dos Santos Quintela disse à Agência Brasil que espera que os responsáveis pela morte de seu marido sejam identificados e punidos. "Meu marido saiu de casa para trabalhar e foi encontrado meses depois, morto. Eu, minha família, as viúvas dos outros trabalhadores, estamos todos sofrendo à espera de respostas. O que eu quero é que alguém seja preso", comentou Roseane, sugerindo que órgãos responsáveis por fiscalizar o empreendimento podem ter sido omissos.

Procurada ontem, a Anglo American ainda não se manifestou sobre o assunto.

Agência Brasil Agência Brasil
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