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Análise: Culpamos a chuva pelos problemas que os humanos criaram

Precisamos definir outras saídas e rever o modelo de cidade de uma forma mais profunda

10 fev 2020
16h14
atualizado em 11/2/2020 às 11h06
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Quando retificaram os Rios Pinheiros e Tietê décadas atrás, se pensava que aquela água de São Paulo tinha ido embora, que não iria mais ter cheia ou transbordamento. Assim como foi com a canalização dos córregos do Leitão e do Arruda em Belo Horizonte, na década de 1960, apresentada como solução para "domar" as águas e a cidade poder crescer sem perturbação. A cidade e a sociedade da época aplaudiram, as pessoas quiseram isso. Mas a solução prometida não se cumpriu, ela é o problema de hoje.

Não é uma exclusividade de Belo Horizonte ou de São Paulo, isso vai acontecer em qualquer outro lugar se seguir esse modelo, de canalização dos cursos d'água, de impermeabilização, de enterrar cada vez mais os rios. Se fala em rio no passado em São Paulo, que a cidade tinha rios, mas eles ainda estão aqui.

Convido o leitor a ir até a janela e ver: o que tem de solo permeável? A gente aceitou o conforto, a limpeza, a ausência de barro. A solução é complexa porque é uma metrópole enorme, mas precisamos cobrar soluções mais inteligentes. Estamos culpando a chuva, que é a resposta mais bizarra: atribuir à chuva os problemas que os humanos criaram. Estamos lidando com as consequências do que a gente escolheu, precisamos repensar as nossas escolhas. Somos sapos dentro de uma panela que está esquentando.

A gente precisa definir outras saídas. É esperada essa resposta dos órgãos públicos: de que a culpa é das mudanças climáticas, do volume de chuva, dos bueiros entupidos. Achar que obras de engenharia vão resolver é reproduzir a lógica da memória velha. A gente não pode acreditar que a solução será a prefeitura enterrar mais fundo os rios, criar mais piscinões. Não caiam nessa cilada, é uma resposta fácil para um problema maior.

Precisamos rever o modelo de cidade de uma forma mais profunda. A chuva levanta um grande espelho para a gente poder se ver melhor, perceber que tomamos decisões erradas, que impactam do cara da periferia que vive em área de manancial até o rico do condomínio que não consegue tirar o carro da garagem.

O Joaquin Phoenix falou ontem, no Oscar, que estamos nos desconectando com a natureza. Precisamos incluir a natureza como elemento da cidade, não como algo a ser controlado, soterrado, enterrado, como é a lógica em São Paulo. Quando vamos recuperar os rios soterrados, ter jardins de chuva (jardins rebaixados que captam a água da chuva), calçadas menos impermeabilizadas?

É como uma pessoa que tem um infarto e começa a pensar em mudar os hábitos alimentares, a fazer esporte, a trabalhar menos. O brasileiro gosta de pensar e mudar em um momento extremo de crise, e a gente está nesse extremo. Os órgãos públicos precisam ser humildes e escutarem soluções que não estão dentro dos governos, trazer especialistas que estão lidando com redesenho da cidade, falar com biólogos, permacultores, técnicos especializados.

Precisamos analisar caso a caso, grande obras não são a solução. Dá para abrir um rio, dá. Mas, quando abrir, vai estar limpo? E os pequenos rios que jogam águas nele? Por que não tratar pequenos trechos, explorar tecnologias e fazer planejamento em pequenas áreas? Deu certo? Vamos fazer de novo. O que não pode é deixar a chuva passar, recuperar os prejuízos do que for estragado e voltar à vida normal, sem tomar novas soluções.

*Urbanista, arquiteto social e cocriador do projeto Rios e Ruas

Estadão
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