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Acidente expõe necessidade de rever regras e analisar risco de áreas turísticas

Para experts, desastre poderia ser evitado, caso normas técnicas nacionais exigissem uma análise geológica de perigo nos cânions

10 jan 2022 12h12
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O desabamento expõe a necessidade de o Brasil rever as regras de segurança para o turismo de aventura e ecoturismo. Essa é a avaliação de diversos geólogos, que consideram que o desastre de Capitólio poderia ser evitado, caso as normas técnicas nacionais exigissem uma análise geológica de risco para áreas como a dos cânions.

Segundo o geólogo Tiago Antonelli, do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), "a cultura de análise geológica no Brasil é restrita a obras de engenharia, onde são obrigatórias". "O que ocorreu pode ser um marco nas áreas turísticas."

A responsabilidade de fiscalização e segurança da área é da prefeitura de Capitólio e da Marinha. Nas normas de segurança do município, nenhuma regra prevê o risco de desabamentos de rochas. Segundo o prefeito da cidade, Cristiano Geraldo da Silva, os critérios de segurança devem ser criados a partir da tragédia. "Precisamos de uma equipe técnica para fazer uma avaliação e a partir daí criarmos critérios de segurança, pensando em fatalidades como essa", afirmou à TV Integração.

Tiago Antonelli observa ainda que o Serviço Geológico poderia realizar uma análise do local, mas precisaria do pedido oficial do município para isso. "Nós não temos a cartografia desta área, e não recebemos o pedido para verificar as suscetibilidades até hoje."

Mapeamento

A avaliação geológica permitiria mapear as áreas de maior grau de risco de desabamento. No entanto, essa não é uma obrigação estabelecida pela norma técnica para segurança em áreas de turismo de aventura, como é o caso dos cânions de Capitólio.

Para o geólogo Daniel do Valle Lemos Santos, doutorando do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), uma análise em áreas de cânions se faz necessária pela própria natureza geológica das estruturas. Os paredões rochosos são resultado da erosão sofrida pelas rochas durante milhares de anos. "Como geólogos, sabemos quão perigoso é chegar perto dessas rochas. Fazemos muitas observações da região antes de qualquer aproximação."

Ele sugere que os turistas só voltem a visitar os cânions depois que um relatório de risco da região for feito. A Marinha abriu um inquérito para apurar as circunstâncias do tombamento. As regras de segurança da área foram estabelecidas em um decreto publicado em 2019 pela prefeitura de

Dentre elas está a permissão máxima de 40 embarcações para a navegação simultânea por no máximo 1 hora e a exigência de cadastramento das embarcações pelo município. No entanto, não há nenhuma norma que estabeleça uma distância mínima das paredes rochosas, por exemplo.

Segundo a geóloga Joana Sánchez, docente da Universidade Federal de Goiás (UFG) e integrante do grupo de pesquisadores de geossítios da Unesco, a falta de regras para a prevenção de desabamentos reflete a ausência das análises técnicas. "Há um desconhecimento do trabalho do geólogo por parte do poder público, principalmente em cidades pequenas. Muitos não sabem da existência desse estudo."

Chuva

Uma medida proposta pela professora é o estabelecimento de uma distância mínima entre as embarcações e as paredes e a proibição do turismo em épocas de chuva, que causa mais erosão no solo e nos espaços entre as rochas, chamados de 'fraturas'. Ela explica que, quando chove, a água escorre por esses espaços até chegar à base e começa a causar uma reação química que decompõe a junta que dá sustentação ao bloco rochoso. "Não tinha como conter a queda daquele bloco. O mais seguro seria interditar em épocas de chuva." Estabelecer uma quantidade de precipitação segura para a atividade turística também é uma alternativa.

Para o geólogo Flávio Silva, as chuvas podem ter sido um gatilho para o desabamento deste sábado. "Um bloco deste tamanho não perde a resistência e tomba de uma hora para outra. É preciso de eventos que aceleram esses fenômenos e as chuvas podem ter sido o gatilho", disse.

Ainda de acordo com Flávio, o mais importante é que a partir de agora o Brasil crie planos de mitigação para reduzir riscos em áreas como a dos cânions. Ele alerta que a solução não é paralisar ou dar fim ao turismo, mas melhorar as condições de segurança para os turistas. "Não se pode ser taxativo a ponto de proibir o turismo. O certo é estabelecer uma regulamentação para esse turismo", afirmou.

Era preciso delimitar uma faixa de segurança

Analise por Álvaro Rodrigues dos Santos*

Os desmoronamentos e tombamentos de rochas, em pequenos ou grandes blocos, são comuns nos cânions de todo o mundo. É o processo natural de evolução desses paredões rochosos. Só por esse fato já teria sido indicada a delimitação de uma faixa de risco que impedisse a aproximação de pessoas das bases de paredões.

Mas no caso de Capitólio (que deixou dez mortos e 32 feridos, conforme as informações oficiais da prefeitura e dos bombeiros), há fatos agravantes: a rocha tem acamamentos e fraturamentos naturais que facilitam esses desmoronamentos; com a formação do lago de Furnas, a parte baixa dos paredões rochosos que fica em contato com a água passou a sofrer os efeitos da saturação pela água e do constante embate de ondas, fatores que potencializam a possibilidade de desmoronamentos.

Os dois fatores sugerem que a gestão das atividades de turismo da região deveria já de há muito ter adotado preventivamente a delimitação de uma faixa de risco, definida a partir do pé do paredão em contato com a água, além da qual os barcos e eventuais nadadores não deveriam ultrapassar.

E também definir os canais estreitos dos cânions que não pudessem ser navegados, dado o fato de que nesses canais as embarcações ficam muito próximas dos paredões. Que a dura e trágica lição obrigue agora essa providência.

*GEÓLOGO, EX-DIRETOR DE PLANEJAMENTO E GESTÃO DO IPT , CONSULTOR EM GEOLOGIA DE ENGENHARIA, GEOTECNIA E MEIO AMBIENTE

Estadão
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