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Bolsonaro e a ideologia

19 jan 2019
08h11
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A palavra aparece com frequência nas falas do presidente brasileiro e de integrantes do círculo mais próximo do governo. Em seu discurso, esconde-se também uma concepção de mundo. Mas afinal: o que é ideologia?Ideologia: só no discurso de posse, o presidente Jair Bolsonaro usou essa palavra - ou suas variações - quatro vezes. Ele prometeu libertar o país "da submissão ideológica" e das "amarras ideológicas", combater a "ideologia de gênero" e conduzir uma economia "sem viés ideológico".

O termo é uma das marcas no discurso não só de Bolsonaro, mas dos membros do círculo mais próximo do governo. Na maioria das vezes, numa tentativa de desclassificar projetos políticos anteriores.

Foi assim, por exemplo, na última segunda-feira (14/01). Em seu perfil no Twitter, Bolsonaro, ao falar de sua ida ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, disse que estava feliz com a oportunidade de apresentar um Brasil "livre das amarras ideológicas".

Na boca de políticos governistas e do próprio presidente, o termo ganhou uma conotação negativa, que pouco remete ao seu real significado. Nas ciências sociais, ideologia é definida com uma forma de concepção de mundo (Weltanschauung) que se diferencia de outras ideias e projetos políticos.

"Por um lado, ideologias são sistemas de ideias, que enfatizam algumas poucas características e critérios para reduzir significativamente a complexidade social e, assim, explicar a realidade de uma maneira simplificada. Por outro lado, ideologias apontam para soluções, como certos males podem ser corrigidos, e dão impulsos para o que deve ser feito na política", afirma o cientista político Klaus-Gerd Giesen.

O professor da Universidade Clermont Auvergne, na França, diz que ideologia seria algo como o "reino dos ismos" - conservadorismo, liberalismo, anarquismo, fascismo, etc. "No cotidiano político, elas são aplicadas por partidos e outras organizações políticas que respectivamente querem pôr em prática uma ideologia", exemplifica.

Já o cientista político Cristóbal Rovira Kaltwasser, da Universidade Diego Portales, no Chile, destaca que não há como conceber um mundo político sem ideologias. "Academicamente, todos os discursos são ideológicos", explica. Segundo ele, até tecnocratas, que tentam passar uma imagem de neutros, também são movidos por princípios ideológicos.

"Os tecnocratas afirmam que há uma somente uma solução técnica para um problema. Porém, não é 100% verdade, pois há diferentes mecanismos para solucionar um problema e a ideologia também tem um papel decisivo nesta escolha", acrescenta Kaltwasser.

Desta maneira, explicam os especialistas, as ideias políticas de extrema direita de Bolsonaro e sua equipe também são uma forma de ideologia. Sua estratégia de tentar desclassificar os adversários políticos como aqueles que possuem tendências ideológicas é frequentemente associada ao populismo.

Esse discurso foi construído por Bolsonaro desde o início da campanha eleitoral, na qual ele aproveitou a oportunidade para se apresentar como uma alternativa à política tradicional, alvo da insatisfação popular desde os protestos de 2013, que culminaram com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Ao estigmatizar a ideologia de seus adversários nas urnas e discursivamente ocultar, assim, a sua própria, conseguiu transmitir a uma parte do eleitorado uma imagem de neutralidade e apartidarismo, apesar de ter sido deputado federal desde 1991.

Neutralidade como disfarce

Mesmo com a eleição, os ataques a projetos ideológicos diferentes dos seus continua presente no discurso de Bolsonaro, sendo reforçado nas últimas semanas por integrantes da sua equipe. Desde que assumiu o poder, o presidente não se cansa de repetir que fará um governo livre de "amarras ideológicas" e pretende combater "ideologias nefastas".

Segundo o cientista político Markus-Michael Müller, há paralelos temporais de como a ideologia foi rejeitada na época da ditadura e agora com Bolsonaro. Essa rejeição ocorre numa retórica discursiva que associa ideologia a tudo o que seria de esquerda e apresenta a direita como um projeto livre de concepções de mundo.

"Os militares se apresentavam como apolíticos e com um projeto neutro, que combatia um projeto ideológico de esquerda que vinha de fora e deveria ser excluído por não corresponder aparentemente aos valores da sociedade brasileira", afirma Müller, do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Livre de Berlim.

No caso de Bolsonaro, essa estratégia discursiva de suposta neutralidade ganha força com a nomeação de tecnocratas para comandar ministérios, como o economista Paulo Guedes, na pasta de Economia, o ex-juiz Sérgio Moro, na Justiça, ou o general da reserva Fernando Azevedo e Silva, na Defesa. A retórica usada: nenhum outro governo buscou especialistas como ministros.

"Com essa estratégia tecnocrática, Bolsonaro tenta disfarçar para a população sua própria ideologia de extrema direita ou pelo menos fazer com que ela pareça moderada", afirma Giesen.

Para o cientista político Christoph Harig, da Universidade das Forças Armadas da Alemanha, em Hamburgo, essa luta contra inimigos imaginários e abstratos, como o muitas vezes evocado 'marxismo cultural', pode ser bastante vantajosa para o governo Bolsonaro.

"Em caso de não alcançar objetivos políticos concretos, a referência à luta contra 'o politicamente correto' ou contra a 'ideologia de gênero' pode ser suficiente para manter, pelo menos, uma parte de seus seguidores em modo de campanha e, assim, ao seu lado. Agora só resta esperar se isso será suficiente para alcançar os setores da população que votaram nele sem convicção", avalia Harig.

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