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As derrotas mais traumáticas do Brasil em Copas do Mundo

Derrota mais marcante foi para a Alemanha, em 2014, mas partidas contra Uruguai, França, Itália, Portugal e Hungria também são lembradas com amargor por fãs e estudiosos brasileiros de futebol.

5 jul 2026 - 19h19
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O então lateral-esquerdo do Brasil, Marcelo, reage à derrota para a Alemanha no Estádio do Mineirão, em 8 de julho de 2014, em Belo Horizonte (MG)
O então lateral-esquerdo do Brasil, Marcelo, reage à derrota para a Alemanha no Estádio do Mineirão, em 8 de julho de 2014, em Belo Horizonte (MG)
Foto: Francois Xavier Marit - Pool/Getty Images / BBC News Brasil

A eliminação da Seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026 pelo placar de 2 a 1 diante da Noruega é mais um capítulo que deve entrar para a história das derrotas mais dolorosas do escrete nacional.

Neste ano, a derrota tem ainda o sabor do jejum: a Seleção canarinho chegara à próxima Copa, em 2030, com um hiato de 28 anos sem erguer a taça — o que nunca ocorreu desde que o time brasileiro foi campeão pela primeira vez, em 1958.

Não tem como fugir dos números. Se o Brasil é o único país a participar de todas as 23 edições da Copa, além de ser o maior campeão — ergueu a taça cinco vezes —, é natural que tenha sofrido 18 dolorosas eliminações. Destas derrotas, com a ajuda de especialistas, a BBC News Brasil elencou as mais traumáticas.

2014: Gooool da Alemanha

A festa era grande, o Brasil sediava uma Copa do Mundo 64 anos depois da única vez que isso havia ocorrido, em 1950. O time comandado pelo técnico de Luiz Felipe Scolari, se não era unanimidade, tinha ingredientes o suficiente para empolgar — inclusive pela memória afetiva, já que o treinador era o mesmo que havia conquistado o penta em 2002.

Depois de uma primeira fase em que o Brasil ganhou da Croácia — 3 a 1, de virada —, empatou com o México sem gols e goleou Camarões por 4 a 1, o time venceu o Chile nos pênaltis — depois de empatar em 1 a 1 durante a partida — e a Colômbia por 2 a 1.

Na semifinal, encararia a Alemanha no Estádio do Mineirão, em Belo Horizonte. Foi uma tragédia inesquecível: 7 a 1 para o time europeu, que se sagraria campeão dias depois, vencendo a Argentina na final.

O Brasil já perdia por um a zero e tomou outros quatro gols entre os minutos 23 e 29 do primeiro tempo — provavelmente no mais catastrófico "apagão" da história do escrete canarinho. O Brasil ainda perderia para a Holanda na disputa do terceiro lugar — outra goleada, mas mais modesta: "apenas" 3 a 0.

"Foi um balde de água fria, aquele desastre tático", diz o historiador Marcel Tonini, doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador no Centro de Referência do Futebol Brasileiro, do Museu do Futebol (CRFB). "E eles tiraram o pé, senão seria ainda maior a goleada."

Para o jornalista e pesquisador Celso Unzelte, comentarista da ESPN, consultor do Museu do Futebol, membro da Academia Brasileira de Letras do Futebol e professor na Faculdade Cásper Líbero o marcante da derrota para a Alemanha não foi a derrota em si — mas sim a diferença de gols, "a maneira como o resultado aconteceu". "Perder para a Alemanha seria um resultado absolutamente normal. O placar é que não foi", pontua.

"Foi a pior derrota não apenas pelo placar, mas por tudo o que envolvia aquele jogo", diz o especialista em marketing esportivo Marcelo Paganini de Toledo, professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

"Estávamos jogando uma Copa em casa, havia uma expectativa enorme da torcida e poucos imaginavam um resultado daquela dimensão. Foi uma derrota que ultrapassou o aspecto esportivo e se transformou em um choque para o país."

Jogador alemão Thomas Mueller comemora vitória sobre o Brasil em 2014
Jogador alemão Thomas Mueller comemora vitória sobre o Brasil em 2014
Foto: Jamie McDonald/Getty Images / BBC News Brasil

Também professor de marketing esportivo na ESPM, o administrador de empresas Ivan Martinho explica o misticismo negativo em torno do 7 a 1. "A seleção brasileira é um dos raros elementos capazes de unir um país tão diverso. Durante a Copa, existe no imaginário coletivo uma expectativa quase inevitável de vitória", contextualiza.

"O 7 a 1 foi tão marcante porque representou exatamente o oposto disso: em casa, diante do próprio povo, um símbolo nacional de excelência sofreu uma derrota sem precedentes", acrescenta. "Mais do que um resultado, foi um choque cultural para o Brasil."

Como "o tempo passou, as pessoas também", Unzelte acredita que o 7 a 1 contra a Alemanha em 1954 vieram para apagar o epíteto de "maior derrota" que era dado para o Maracanaço. "Esportivamente foi pior do que o Maracanaço. Mas pelo contexto social e político, eu diria que o Maracanaço foi pior", comenta Tonini.

O Maracanaço

Era um regulamento diferente o daquela Copa de 1950. Em vez de um jogo final, o campeão seria decidido depois de partidas em um quadrangular com os finalistas. Brasil, Espanha, Suécia e Uruguai chegaram a essa fase.

Antes do derradeiro jogo, o Brasil tinha um ponto a mais que o Uruguai. A partida lotou o recém-inaugurado Maracanã, estádio que então era o maior do mundo — e que foi construído justamente para a Copa do Mundo. Havia um clima de "já ganhou" entre torcedores e imprensa esportiva brasileira.

A partida foi dura. Mas o placar foi aberto pelo Brasil, com o ponta-direita Friaça, logo no comecinho do segundo tempo. O Uruguai, aguerrido, não desitiu. Empatou em gol anotado por Schiaffino e, faltando pouco mais de 10 minutos para o apito final, sacramentou a vitória com Ghiggia. Silêncio absoluto nas arquibancadas. O time celeste se sagraria bicampeão mundial. O Brasil ainda ficaria no jejum.

Pelo contexto social, político e econômico da época, o historiador Tonini acredita que a mais traumática derrota do Brasil em Copas tenha sido esta.

"Era evidente que a Europa não iria sediar a Copa [ainda por conta dos estragos da Segunda Guerra] e o Brasil se colocava um passo à frente e consegue sediar o evento", pontua ele. "Queria se mostrar para o mundo como o país do futuro e o símbolo disso foi a construção do maior estádio do mundo, o Maracanã."

"E tinha uma grande seleção", acrescenta.

Jogador uruguaio Juan "Pepe" Schiaffino marca o segundo gol contra o Brasil durante partida decisiva no recém-criado Maracanã, no Rio de Janeiro, em 16 de julho de 1950
Jogador uruguaio Juan "Pepe" Schiaffino marca o segundo gol contra o Brasil durante partida decisiva no recém-criado Maracanã, no Rio de Janeiro, em 16 de julho de 1950
Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Ele destaca ainda um aspecto simbólico. O Brasil começou aquele campeonato com um discurso de enaltecimento do que se entendia como "país da democracia racial" — naquele contexto pós-Holocausto vivido pela Segunda Guerra. "Eles chamavam de paraíso racial", explica.

Com a derrota, a imprensa passou a culpar três jogadores de forma especial: Bigode (1922-2003), Juvenal (1923-2009) e Barbosa (1921-2000). Como observa o historiador, os três eram negros. "No final, o que era para enaltecer a democracia racial vira algo como 'não se dá para confiar em negros'", relata o historiador.

"O goleiro Barbosa foi o bode expiatório. Ele, um homem negro, pobre e estigmatizado, num país cuja herança da escravidão estruturava as desigualdades raciais e sociais", ressalta o sociólogo Rogério Baptistini, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

"Na minha ótica, a derrota de 1950 foi a pior derrota do Brasil", crava Tonini. "Acredito que esta foi a maior derrota, a que cravou na alma dos brasileiros", concorda Baptistini. "É dessas derrotas fundadoras."

O dia da convulsão

Era o atual campeão do mundo contra a seleção que jogava em casa. Embora aquele time comandado por Mário Jorge Lobo Zagallo (1931-2024) não fosse considerado um primor, era visto por muitos como o elenco a ser batido.

Pouco antes do início da partida, especulou-se que Ronaldo, o principal astro daquele time, não entraria em campo porque havia sofrido um episódio de convulsão — em seu lugar chegou a ser anunciado que jogaria Edmundo. Na hora agá, Ronaldo entrou como titular. Mas ao que parecia aquele time estava abalado psicologicamente.

Foi um show de bola sob a liderança do jogador francês Zinédine Zidane em 12 de julho de 1998. O placar final, 3 a 0, entrou para a história: marcaria o primeiro título mundial do selecionado francês.

"Foi uma decepção. Chegamos à final depois de grandes jogos. E aí aconteceu aquele episódio com o Ronaldo que até hoje a gente não entendeu", comenta Tonini. "No fim, sobrou a imagem de que poderíamos ter vencido."

"A derrota ficou marcada pela até hoje inexplicada convulsão do Ronaldo Fenômeno na véspera da final contra a França. Mas a França foi mesmo melhor, o placar final de 3 a 0 não deixa margem nenhuma de dúvida em relação a isso", afirma Unzelte.

"A convulsão, as mudanças na escalação e todas as dúvidas que surgiram acabaram dominando o noticiário e a nossa cabeça. A impressão era de que algo diferente havia acontecido antes mesmo da bola rolar, e isso fez daquela derrota certamente uma das mais enigmáticas da história da seleção", analisa Toledo.

O jogador francês Zinedine Zidane celebra o segundo gol da França contra o Brasil durante a partida final da Copa de 1998, em Saint Denis
O jogador francês Zinedine Zidane celebra o segundo gol da França contra o Brasil durante a partida final da Copa de 1998, em Saint Denis
Foto: Christian Liewig/TempSport/Corbis via Getty Images / BBC News Brasil

A Tragédia do Sarriá

Ali o pragmatismo teria sepultado o futebol-arte, avaliam especialistas e apaixonados pelo esporte. Em 1982, a seleção brasileira tinha aquela que até hoje é considerada como uma das melhores formações da história. Acabou eliminada pela Itália, do carrasco Paolo Rossi (1956-2020), artilheiro que anotou os três gols da squadra azzurra.

"Para mim, pessoalmente, a pior derrota do Brasil em Copas foi em 1982. Eu tinha 14 anos e queria ter sido tetra ali, não em 1994, já com 26 anos de idade, trabalhando com isso e cheio de responsabilidades", recorda Unzelte. "Além disso, foi um revés inesperado, talvez tão inesperado quanto a derrota de 1950, para o Uruguai."

Do lado amarelinho, o time fazia brilhar os olhos. Tinha Zico, tinha Sócrates (1954-2011), tinha Falcão, tinha Júnior. No banco, o técnico era Telê Santana (1931-2006). Caiu na segunda fase. Como dizem os comentaristas de futebol, os deuses do esporte foram injustos porque este time merecia levantar uma taça de Copa do Mundo. Acabaram caindo na segunda-fase — a Itália ergueria naquele ano seu tricampeonato.

"Era um time que encantava o mundo pela forma de jogar futebol, com talento, criatividade e um estilo que muitos consideram um dos melhores da história, mesmo sem conquistar o título. Por isso, até hoje, acho que muita gente não entende como aquele Brasil foi eliminado", comenta Toledo. "Aquela derrota para a Itália deixou a sensação de que o melhor futebol da Copa não foi campeão. Talvez por isso ela continue sendo lembrada com tanta emoção por quem viveu aquele Mundial."

"Ficou na memória um grande time que praticava o chamado futebol-arte", diz Tonini. "O conjunto originalmente era muito bom, e coletivamente era tão bom como o de 1970. Tivemos a infelicidade de perder o jogo contra a Itália. Foi uma grande decepção, o Brasil tinha um timaço."

"Era um grande time que praticava o chamado futebol-arte", pontua o historiador.

O jogador italiano Paolo Rossi dribla Toninho Cerezo no jogo da derrota do Brasil para a Itália em 5 de julho de 1982
O jogador italiano Paolo Rossi dribla Toninho Cerezo no jogo da derrota do Brasil para a Itália em 5 de julho de 1982
Foto: Mark Leech/Offside/Getty Images / BBC News Brasil

O sonho do tri foi adiado

Houve apenas duas edições de Copa do Mundo em que o Brasil não passaria da primeira fase. Na primeira realização do torneio, em 1930; e em 1966. Esta última não classificação foi a mais traumática. Por uma série de motivos.

Em primeiro lugar porque o time brasileiro tinha no seu elenco nomes da primeira grandeza. Entre eles, Pelé (1940-2022), Garrincha (1933-1983), Tostão e Jairzinho — sob o comando de Vicente Feola (1909-1975), o mesmo que havia sido o treinador no primeiro título do Brasil, em 1958.

Além disso, não há como ignorar o favoritismo do escrete canarinho, que vinha no embalo de duas conquistas, tendo vencido as duas edições anteriores. "Vinha de duas conquistas magistrais e chegava à Copa com a mesma base das edições anteriores", destaca Tonini.

Mas depois de estrear com uma vitória por 2 a 0 contra a Bulgária, o Brasil enfileiraria duas derrotas por 3 a 1, primeiro contra a Hungria, depois contra Portugal. Terminaria a primeira fase em terceiro no grupo — sendo desclassificado.

"Arrumamos a desculpa perfeita na desorganização, que nos levou a montar quatro times com 44 convocados e, na hora agá, não termos nenhum pra botar em campo", conta Unzelte.

Pelé parabeniza jogadores de Portugal após derrota que eliminou o Brasil da Copa do Mundo de 1966
Pelé parabeniza jogadores de Portugal após derrota que eliminou o Brasil da Copa do Mundo de 1966
Foto: Central Press/Getty Images / BBC News Brasil

A Batalha de Berna

O Brasil chegava à Copa de 1954, realizada na Suíça, com o objetivo de exorcizar o maracanaço ocorrido na edição anterior.

Para tanto, até a roupa mudou. A Confederação Brasileira de Desportos — antecessora da CBF — decidiu aposentar o uniforme antigo, calção azul e camisa branca, depois da derrota histórica. O Brasil passou a usar a camisa amarela porque foi esta a escolhida em um concurso, vencido pelo escritor, desenhista e jornalista gaúcho Aldyr Garcia Schlee (1934-2018).

Em campo, havia otimismo. Além de ser a atual vice-campeã mundial, a seleção, já sob o comando do técnico Zezé Moreira (1907-1998) havia vencido o Pan-Americano de 1952 — o primeiro título da seleção brasileira.

"[Mas] ainda sofríamos com o que [o escritor, jornalista e cronista] Nelson Rodrigues chamou de 'complexo de vira-lata'. Nem campeões do mundo éramos ainda, e portanto tínhamos menos a perder", diz Unzelte.

O goleiro húngaro Gyula Grosics faz uma defesa durante as quartas de final da Copa do Mundo, em que seu time derrotou o Brasil, em Berna, na Suíça, em 27 de junho de 1954
O goleiro húngaro Gyula Grosics faz uma defesa durante as quartas de final da Copa do Mundo, em que seu time derrotou o Brasil, em Berna, na Suíça, em 27 de junho de 1954
Foto: Keystone/Hulton Archive/Getty Images / BBC News Brasil

Depois de uma estreia empolgante, 5 a 0 contra o México, o Brasil empatou com a Iugoslávia em 1 a 1. Classificou-se assim para as quartas-de final. Foi quando teve à frente o time húngaro — que era a sensação do momento.

A Hungria jogava um futebol que encantava. Na primeira fase, havia vencido a Coreia do Sul por 9 a 0 e a Alemanha Ocidental por 8 a 3. Para a sorte dos canarinhos, o astro daquele time, o centroavante Ferenc Puskás (1927-2006) havia se lesionado e não enfrentaria o Brasil.

Mesmo assim não deu. Em uma partida conhecida como a Batalha de Berna — ocorreu nesta cidade suíça —, a seleção brasileira perdeu por 4 a 2 e foi eliminada. O jogo teve três expulsões, dois pênaltis assinalados e uma briga generalizada entre os atletas depois do apito final.

"O Brasil chegou à Copa com o peso da derrota em 1950", contextualiza Tonini. "Perdeu na bola e na briga que teve ao fim do jogo."

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