Eleições: ao lado do metro quadrado mais caro do Rio, favela da Rocinha vota por saneamento e dignidade
Do mirante da Rocinha é possível ver a praia de São Conrado, torres de apartamentos de luxo voltadas para o mar e uma sucessão de telhados simples que sobe a encosta até desaparecer na Mata Atlântica. A poucos metros uns dos outros, os dois mundos compartilham a mesma paisagem, mas certamente não a mesma conta bancária, nem as mesmas perspectivas. No dia seguinte ao 1° turno, moradores da maior favela do país conversaram com a RFI sobre desejos e esperanças para depois do 25 de outubro.
Vizinha aos bairros mais ricos do Rio, a Rocinha, maior favela do Brasil, expõe fortes desigualdades sociais. Apesar do avanço do turismo comunitário e da redução da violência armada, os moradores ainda enfrentam graves carências em mobilidade e saneamento básico. Historicamente ligada à memória de resistência negra e quilombola, a comunidade mantém expressivo apoio eleitoral à esquerda e a Lula, buscando melhorias estruturais, dignidade e cumprimento das promessas públicas.
Márcia Bechara, enviada especial da RFI ao Rio de Janeiro
Localizada entre São Conrado e a Gávea, a Rocinha se espalha pela encosta vizinha ao Leblon e a outros bairros que concentram alguns dos metros quadrados mais valorizados do Brasil. A paisagem sintetiza uma das contradições mais persistentes da urbanização brasileira. A proximidade física entre alguns dos bairros mais valorizados do país e uma comunidade popular de dezenas de milhares de habitantes torna visível uma distância exponencial. Ela pode ser medida pelo acesso desigual à infraestrutura, à mobilidade, ao saneamento, aos serviços públicos e às oportunidades.
Com 72.021 habitantes e 30.371 domicílios particulares permanentes ocupados, segundo o Censo 2022 do IBGE, a Rocinha é a favela mais populosa do Brasil. Os moradores, porém, estimam que a população real seja muito maior, possivelmente superior a 200 mil habitantes. A diferença em relação ao número oficial permanece uma estimativa local sem comprovação censitária. "Muita gente aqui na Rocinha diz que somos mais de 250 mil", afirma Antônio Xaolim, ex-presidente da Associação de Moradores da favela mais populosa do país e, por que não, um dos vários cartões postais do Rio.
Diariamente, uma multidão de turistas de todo o planeta percorre suas ruelas com a ajuda de guias locais. O turismo vem ganhando peso na economia local. Dados do Observatório do Turismo Carioca indicam que a Rocinha recebeu aproximadamente 41 mil visitantes no último ano, consolidando-se como um dos principais polos brasileiros de turismo comunitário. Além disso, os dados apontam crescimento de 37% no número de visitantes em janeiro de 2026 em comparação com janeiro de 2025, impulsionado por visitas às lajes, passeios de mototáxi e divulgação nas redes sociais.
A comunidade reúne mais de 20 bairros, com características distintas de ocupação e acesso. Percorrê-la exige tempo e familiaridade com o território. Em muitas áreas, os deslocamentos dependem exclusivamente de mototáxis e vans, que substituem os automóveis nas ruas estreitas, íngremes e sinuosas.
"Eu sou 'cria da Rocinha'. Essa expressão define o morador que nasceu, se criou e permaneceu na favela. É um tanto interessante porque indica que tem um pertencimento. E um orgulho que essas pessoas levam dentro delas", diz Xaolim, um dos responsáveis por negociar a chegada do metrô a um local onde a mobilidade faz parte de reivindicações históricas.
Segundo Xaolim, a luta pelo acesso ao metrô esteve historicamente entre as pautas centrais dos movimentos comunitários. A chegada da estação São Conrado aproximou a Rocinha da rede metroviária, mas a extensão do território e as dificuldades de circulação continuam impondo obstáculos aos moradores das áreas mais altas. Nascida e criada na comunidade, Ellen, 38, relaciona seus desejos para o futuro à mobilidade, um princípio que considera básico. "Eu gostaria muito de ajudar a comunidade, que são as pessoas mais precárias que têm nesse mundo, pessoas de classe bem baixa, que não têm o direito de ir e vir normalmente. Então o que eu sonharia [para depois do 2° turno] é devolver esse direito às pessoas".
Em áreas densamente ocupadas, coleta e tratamento de esgoto, abastecimento de água, drenagem e manutenção das redes exigem investimentos permanentes e soluções adaptadas às características locais. A insuficiência desses serviços afeta diretamente a qualidade de vida dos moradores e aumenta a vulnerabilidade da comunidade diante dos problemas. "Eu gostaria que fizessem saneamento aqui na comunidade, porque ainda não temos. Eles prometem, mas não fazem. E também que melhorassem um pouco a vida dos mais velhos, das pessoas idosas", diz o comerciante conhecido como "Dida da Rocinha", 60, veterano da favela.
Três anos sem tiroteio
"Hoje a Rocinha está há três anos sem tiroteio", afirma Antônio Xaolim, uma conquista que ele atribui ao programa das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), criado durante o primeiro governo Lula e implementado em 2008 pelo então governador Sérgio Cabral, com a proposta de substituir operações policiais esporádicas por uma presença permanente do Estado em determinadas comunidades. Na Rocinha, a UPP foi instalada em setembro de 2012, após uma operação de ocupação iniciada no ano anterior.
A comunidade se tornou recentemente um dos destinos mais conhecidos do turismo comunitário no Rio de Janeiro, recebendo visitantes interessados em cultura local, gastronomia, mirantes, mototours e atividades promovidas por moradores. Um dos exemplos mais evidentes é a Laje Cultural da Rocinha, onde Samuel, 21, e Luan,18, fazem shows diários de capoeira para plateias vindas dos quatro cantos do planeta, com explicações posteriores em espanhol, inglês e francês, dadas pelos jovens capoeiristas, antes de passar o chapéu (e o Pix).
Em uma campanha marcada pela polarização nacional, Luan expressa uma preocupação diferente. Mais do que a vitória de um candidato, ele diz desejar uma redução das divisões que passaram a fazer parte das relações cotidianas no Brasil. "Eu gostaria que acabasse com essa desunião. Cada um tem o seu lado. Acaba que as pessoas levam isso muito a sério e brigam por causa disso. Então eu gostaria que nas próximas eleições tivesse um pouco mais de paz", pontua. "De verdade mesmo, eu gostaria muito que as coisas que as pessoas que estão lá em cima prometem, que elas fossem realizadas", replica Samuel.
Morro de quilombos e memórias
Para além das imagens de 2026, Antônio Xaolim relaciona a história da Rocinha a uma memória mais antiga ligada à resistência negra. "A favela surge a partir da fuga dos escravos, dos negros vindos da África, porque aqui atrás da Barra da Tijuca, para os lados da Pedra de Guaratiba, até a Baía de Sepetiba, existia ali navios negreiros de traficantes. Os escravos do Rei vinham pela Praça XV, mas os escravos traficados diretamente da África desembarcavam nesse porto e eram levados diretamente para a Floresta da Tijuca", explica.
A interpretação encontra eco em iniciativas de pesquisa sobre a memória territorial da região. O Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância (CIESPI), por meio do projeto Percurso Quilombola, relaciona a formação histórica da Rocinha e do Horto à presença de quilombos nas matas da antiga freguesia da Gávea. O Museu Sankofa da Rocinha também registra a memória de caminhos de fuga na região do Laboriaux e sua ligação com o Quilombo das Camélias, localizado na área do atual Leblon, uma perspectiva que desloca o olhar e o imaginário para uma história mais ampla de ocupação, resistência e disputa pelo território.
A relação entre essas experiências de resistência negra e a formação da Rocinha atual é tema de debate entre pesquisadores. A ocupação urbana que deu origem à comunidade contemporânea consolidou-se principalmente ao longo do século 20, ainda que a história da região seja marcada por processos mais antigos de circulação, trabalho e resistência da população negra. A memória do imaginário e da vivência quilombola ajudaram, no entanto, a manter vivo o espelhamento da resistência na favela, lembra Xaolim.
Voto à esquerda
A política eleitoral faz parte da história recente da Rocinha. A comunidade registra há anos forte apoio a Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), cuja trajetória é associada, para parte do eleitorado local, à ampliação de políticas sociais e à inclusão econômica. No segundo turno das eleições de 2022, Lula recebeu 78,2% dos votos válidos na Rocinha, segundo levantamento do veículo RioOnWatch baseado em dados eleitorais.
Quatro anos depois, a preferência voltou a aparecer nas urnas. Uma apuração publicada pelo veículo comunitário Fala Roça, com base nos boletins de urna de 19 seções eleitorais da comunidade, contabilizou 3.299 votos para Lula e 1.421 para Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL). Lula foi o candidato mais votado em todas as seções analisadas.
O apoio ao presidente também aparece de forma explícita descendo as ruelas íngremes do bairro. "Eu sou de esquerda, assumido, óbvio, porque meu corpo é de esquerda. Não tem como. O meu ser é de esquerda. Mas eu quero que eles tenham mais amor no coração. E que eles olhem para quem realmente precisa. Eu acho que o único que faz isso pela gente é o Lula, de verdade. Então é isso: que eles tenham amor e compaixão pelas pessoas que necessitam realmente", diz Iago, 26, que volta para casa subindo o morro, enquanto a luz cai na Rocinha, com vista para a praia de São Conrado. No dia 25 de outubro, os cerca de cinco mil eleitores habilitados a votar devem decidir de novo o futuro do país, com impacto certamente direto no futuro da favela.
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