ANÁLISE-Lula deve colher os frutos da fuga de Flávio Bolsonaro
A fuga de Flávio Bolsonaro para os EUA após descumprir ordem do STF beneficia o presidente Lula ao enfraquecer e fragmentar a oposição conservadora no Congresso. Isolado politicamente após alegar fraude eleitoral sem provas, Flávio deixa um vácuo de poder na direita, facilitando o diálogo pragmático do governo com legendas antes aliadas ao bolsonarismo. O episódio também reforça o discurso de Lula sobre interferência externa, embora adicione tensão diplomática nas relações com Washington.
Flávio Bolsonaro fez um favor ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao fugir de seus problemas com a Justiça no Brasil para se autoproclamar o líder do país a partir dos Estados Unidos, avaliam analistas políticos e autoridades brasileiras.
A viagem de Bolsonaro, que ocorreu depois que o candidato derrotado à Presidência se recusou a cumprir uma ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) para entregar seus passaportes, enfraquece uma oposição conservadora no Congresso e dá credibilidade às acusações de Lula de que os EUA estariam interferindo para ajudar a família Bolsonaro, afirmaram.
O senador, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, afirma, sem provas, ter sido vítima de uma fraude eleitoral, mesmo depois de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e de quase todos os partidos envolvidos no pleito, inclusive o seu, o PL, terem reconhecido o resultado, que deu vitória a Lula por 4,4 milhões de votos.
Embora Lula enfrente uma quantidade crescente de desafios neste que será seu último mandato presidencial -- desde controlar a dívida pública crescente até preparar um sucessor --, o presidente tem agora um Bolsonaro a menos com quem se preocupar, o que lhe permite construir uma relação mais pragmática com os oponentes no Congresso, que agora estão sem liderança, acrescentaram analistas políticos e autoridades.
"Considerando a dinâmica local, Lula se beneficia da fuga de Flávio para os EUA", disse Rodrigo Russo, sócio da consultoria Control Risks em São Paulo.
Uma fonte do Palácio do Planalto disse à Reuters que a avaliação inicial sobre a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, de reter os passaportes de Flávio foi considerada precipitada e havia um temor de que respingasse no governo, como uma perseguição ao derrotado.
A fuga de Flávio, disse essa fonte, tirou esse peso. Ao decidir deixar o país intempestivamente, explicou, Flávio se isolou dos partidos que o tinham apoiado, o que o deixa em uma posição difícil de defender.
BOLSONARISMO ENFRAQUECIDO
A vitória de Lula foi reconhecida pelo Tribunal Supeior Eleitoral (TSE), por líderes mundiais, por observadores internacionais e pelo próprio partido de Bolsonaro, que não apoiou as alegações de fraude eleitoral feitas por ele.
Seus aliados políticos procuraram se distanciar de suas alegações de ser o "líder do Brasil" na quinta-feira, um dia após Flávio viajar para os Estados Unidos.
Analistas avaliam que sua fuga pode deixar um vácuo de poder sobre quem agora irá liderar a direita brasileira, o que Lula poderá explorar.
"Geralmente, há mais disposição para dialogar com um governo que garantiu um novo mandato", disse Rafael Cortez, cientista político e sócio da Tendências Consultoria. "Surge uma abertura para o diálogo."
Nos últimos dias, partidos que apoiaram Flávio, como União Brasil, ou que estiveram neutros no segundo turno, como o PSD, liberaram seus membros para serem parte do governo Lula, se quiserem.
O pai de Flávio, Jair Bolsonaro, cumpre atualmente uma pena de 27 anos por planejar um golpe em 2022, enquanto seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, também está nos Estados Unidos e provavelmente não retornará ao Brasil.
Os outros três filhos de Jair Bolsonaro não são vistos, no momento, como legítimos herdeiros do bolsonarismo.
Michelle Bolsonaro, esposa de Jair Bolsonaro e uma proeminente evangélica que atrai milhões de fiéis no Brasil, está dando seus primeiros passos no Congresso após ser eleita senadora neste mês.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, postou uma foto na plataforma X em que aparece sorrindo ao lado dela na terça-feira, dizendo que haviam discutido "o futuro do nosso partido e os desafios que temos pela frente".
A saída de Flávio do país, diz uma fonte palaciana, foi inconsequente, mostra uma falta de compromisso com o Brasil e termina por enfraquecer o bolsonarismo, disse um assessor de Lula à Reuters.
Os partidos de direita, desvinculados do bolsonarismo, possivelmente terão uma relação mais pragmática com o governo, avalia.
"É bom para o governo, mas é bom para a direita também. Abre espaço para o surgimento de uma direita mais democrática, que já vimos que o país sente falta", diz.
RELAÇÕES ENTRE EUA E BRASIL
A fuga de Bolsonaro para os Estados Unidos dá credibilidade às alegações de Lula de que os EUA prestaram apoio indevido para fortalecer a candidatura do senador de oposição, disseram analistas, ao mesmo tempo em que complica as relações entre as duas nações.
Em julho de 2025, Washington anunciou uma série de medidas contra o Brasil, incluindo a revogação dos vistos de oito ministros do STF e a imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, alegando uma suposta "perseguição" a Jair Bolsonaro por levá-lo a julgamento.
Até o momento, o presidente dos EUA, Donald Trump, criticou a eleição no Brasil, mas evitou responder a perguntas sobre qual candidato venceu, o que especialistas interpretam como uma tentativa de manter uma relação de trabalho com o Brasil, que possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás apenas da China.
A saída de Bolsonaro "complica a relação com o governo dos EUA, que terá partes interessadas pressionando por sanções e tarifas", disse Russo.
O assessor de Lula ouvido pela Reuters disse que Trump provavelmente está mais preocupado com as pesquisas desfavoráveis às vésperas das eleições de meio de mandato nos EUA da próxima semana do que com as relações com o Brasil.
Até agora, apesar das informações de que os governos Trump e de Javier Milei, na Argentina, ajudaram na fuga de Flávio, o governo brasileiro não reagiu. Segundo essa fonte, o momento é de esperar.
"Depois de terça-feira (quando acontecem as eleições de meio de mandato norte-americanas) que vamos reavaliar como ficam essas relações", diz.
Há uma expectativa de vitória da oposição democrata a Trump tanto na Câmara quanto no Senado norte-americanos, o que pode ajudar o Brasil em negociações comerciais e até na tentativa de regulamentar a atuação das big techs, afirma.
Mario Braga, analista de América Latina da consultoria de risco Rane, considera que os EUA não vão querer pagar um preço alto por apoiar Bolsonaro, especialmente porque tentam limitar a influência chinesa na região, inclusive em questões como as terras raras.
"É uma visão pragmática, pois o Brasil é uma peça-chave no jogo de xadrez que os Estados Unidos estão jogando, enquanto buscam expandir sua influência nas Américas", disse Braga.
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