Brasil vive janela de oportunidade que pode mudar o papel da filantropia na ciência e impulsionar desenvolvimento
Nos últimos anos, cresceram os apoios a universidades e à pesquisa via fundos patrimoniais e doações diretas. Nova Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação pode marcar o início de um novo ciclo histórico
A origem da palavra filantropia vem do grego (phílos: amor, amizade e ánthropos: ser humano) e pode ser entendida como "amor à humanidade". Se a prática de ajudar outras pessoas faz parte da história humana desde as primeiras civilizações, com o passar do tempo a filantropia passou a ser entendida como a busca por resolver as causas estruturais dos problemas.
Nesse sentido, é pertinente pensar no alinhamento com políticas públicas e no desenvolvimento de soluções em escala, como investimentos em educação, saúde pública e financiamento de pesquisas, entre outros. Por este motivo, a filantropia tem uma relação histórica e estratégica com as universidades em diferentes partes do mundo, especialmente no que diz respeito à independência financeira e à autonomia intelectual (ou ideológica) em relação aos governos. Essa relação não é absoluta, mas tem sido decisiva para a liberdade acadêmica, como em episódios recentes de universidades norte-americanas.
Mecanismos de apoio e exemplos concretos
O recurso filantrópico pode financiar uma ciência mais disruptiva e inovadora, mas não substitui o papel e a relevância do financiamento público: a ciência deve ser vista como investimento estratégico para desenvolvimento do país, competitividade, soberania e redução de desigualdades.
No Brasil, estamos acompanhando nos últimos anos a emergência de exemplos concretos de apoio a universidades e à pesquisa, inclusive via fundos patrimoniais (endowments) e doações diretas, e ainda há muito espaço para a iniciativa privada e os investimentos sociais privados (ISP) apoiarem as ciências, especialmente com a criação de incentivos fiscais e o fortalecimento da cultura de doação no país.
Dados divulgados recentemente pelo GIFE — Grupo de Institutos, Fundações e Empresas, mostram que o volume total de recursos privados mobilizados pelas organizações associadas alcançou o maior patamar da série histórica dos últimos 13 anos: R$ 5,8 bilhões. Contudo, apenas 16% dos respondentes indicam "ciência e tecnologia" como uma de suas áreas temáticas de atuação, o que demonstra que há oportunidade para novos investimentos.
O reconhecimento, em caráter nacional, da necessidade de promover a aproximação entre ciência e filantropia foi evidenciado com os recém-criados GEMA Filantropia — Grupo de Estudos de Modelos de Apoio à Ciência, no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, e o Grupo de Trabalho sobre o tema na SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Ambas as iniciativas têm incentivado de maneira interdisciplinar os pontos de conexão entre ciência e filantropia no Brasil.
Em novembro, o GEMA Filantropia realizou seu segundo Seminário Internacional na USP, quando foi proposta a criação de uma "Aliança Brasileira de Filantropia Científica", análoga à Science Philanthropy Alliance, criada em 2014 para reunir, inspirar e aumentar o investimento filantrópico norte-americano na ciência. O Brasil já reúne iniciativas exemplares — como a Fundação José Luiz Setúbal, o Instituto Serrapilheira e o Instituto Ciência Pioneira — que têm dado uma valiosa contribuição para o desenvolvimento de pesquisas disruptivas e apoio a jovens cientistas.
A articulação necessária entre filantropia, governo e ciência
Em 2025, o Brasil avançou significativamente na formulação da nova Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI) 2024 - 2034, que estabelece diretrizes para a política científica e tecnológica da próxima década, e recomenda outras fontes de recursos não exclusivamente públicas, como "estimular a filantropia científica e fundos patrimoniais para universidades e centros de pesquisa".
O processo resultou de intensos debates ao longo do ano e da realização de consulta pública, ampliando a participação social e qualificando tecnicamente a elaboração da Estratégia. Contudo, é preciso assegurar que o financiamento seja plurianual, estável e protegido de contingenciamentos, tratando a ciência como investimento produtivo, não como gasto comum, e dando espaço e segurança para recursos complementares, como a filantropia.
O país vive uma janela de oportunidade estratégica para que filantropia, governo e comunidade científica atuem de forma articulada, contribuindo para que o Brasil alcance o patamar de desenvolvimento que demanda. A estratégia nacional (ENCTI) pode marcar o início de um novo ciclo histórico, com a entrada de novos recursos destinados ao fortalecimento da ciência brasileira. Mas, sem financiamento contínuo e previsível, não há formação de cientistas, inovação nem resposta aos desafios nacionais. A articulação emergente entre filantropia, governo e ciência pode inaugurar uma nova etapa para o desenvolvimento científico do Brasil.
Andréa Martini Pineda é pesquisadora de pós-doutorado no IEA/USP. Recebe financiamento da FUSP.
Guilherme Ary Plonski não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.