Bloqueio de Ormuz afeta pequenos e médios negócios da Índia
Bloqueio da rota marítima, vital para o fluxo de mercadorias e insumos, impacta regiões como o centro de produção de especiarias de Kerala e o polo de fabricação de cerâmica de Morbi.A paralisação da navegação pelo Estreito de Ormuz, iniciada pelo Irã e seguida por um bloqueio naval dos Estados Unidos a portos iranianos, está afetando múltiplos setores da economia indiana, expondo a dependência do país desse corredor crítico para o comércio e a energia.
A Índia mantém laços comerciais vultosos com o Oriente Médio, que responderam por cerca de 15% das exportações indianas e 20% das importações do país entre abril e dezembro de 2025, segundo dados do Ministério do Comércio indiano. Uma parcela significativa das importações de energia, exportações e remessas de recursos da Índia ainda depende do Estreito de Ormuz.
"Quando há uma interrupção, o impacto se propaga rapidamente, desde custos mais altos de combustível e inflação até a redução das receitas de exportação e pressão sobre a renda das famílias", disse à DW Lekha Chakraborty, economista sênior do Instituto Nacional de Finanças Públicas e Política.
Entre os mais afetados pelo bloqueio da passagem marítima estão os produtores de Kerala, região do sudoeste da Índia conhecida como "terra das especiarias", por sua produção de produtos como pimenta-do-reino de alta qualidade, cardamomo, cravo, canela e gengibre. O estado, historicamente conhecido como a "Costa de Malabar", atrai comerciantes há milênios.
Outra região com a economia muito exposta aos impactos da guerra é Kandla, no estado de Gujarat, no oeste do país, um grande centro de exportação de grãos e outras commodities, como petróleo.
"Operando com margens de apenas 5% a 8%, elas não conseguem absorver aumentos bruscos nos custos de frete, seguros e atrasos ligados ao Estreito de Ormuz. Muitas dependem de crédito informal, que seca quando os pagamentos atrasam, enquanto contratos com preços fixos e um conjunto restrito de compradores no Golfo deixam pouco espaço para ajustes", afirmou Chakraborty.
"O resultado é estresse imediato no fluxo de caixa, cancelamento de pedidos e demissões", disse ela.
Pequenos exportadores sentem a pressão
Exportadores no polo de especiarias de Kerala afirmam que a interrupção já é visível no dia a dia. O Oriente Médio, especialmente os Emirados Árabes Unidos, é central para o comércio indiano de especiarias, não apenas como comprador, mas também como centro de redistribuição.
Gulshan John, diretor executivo da Nedspice, uma empresa global do setor de especiarias, disse à DW que a crise atual pode desacelerar a demanda, atrasar pedidos e gerar incertezas nos pagamentos. "Para os exportadores, isso significa que o negócio não está parando, mas se tornando muito menos previsível", afirmou.
"Os números apontam para um impacto significativo, mas não catastrófico. Diante de exportações trimestrais de cerca de 1,2 bilhão de dólares (cerca de R$ 6 bilhões), o setor de especiarias pode perder entre 90 milhões de dólares (aproximadamente R$ 450 milhões) e 180 milhões de dólares (cerca de R$ 900 milhões) ao longo de três meses", disse John.
"Somente o peso adicional de frete, logística e seguros pode representar cerca de 30 milhões a 60 milhões de dólares [entre R$ 150 milhões e R$ 300 milhões]. O impacto será desigual, com pequenos e médios exportadores mais expostos, já que não têm margem para absorver choques repentinos", acrescentou.
Não há um dado oficial único, mas estimativas do setor indicam que várias centenas de exportadores em Kerala já foram afetados, especialmente em Kochi e arredores.
Abraham Thomas, exportador agrícola baseado em Kerala, disse que a interrupção já está afetando os embarques, com consignações atrasadas e crescente incerteza. "Contêineres estão retidos em centros de transbordo importantes, incluindo o porto de Khorfakkan, nos Emirados Árabes Unidos, e o porto de Sohar, em Omã, atrasando entregas para os mercados do Golfo", disse Thomas à DW.
Os navios estão fazendo rotas mais longas, as tarifas de frete dispararam, e os prêmios de seguro marítimo aumentaram devido ao risco de guerra. Em alguns casos, as embarcações estão desviando pelo Cabo da Boa Esperança - no extremo sul da África. O resultado são atrasos nas entregas e custos mais altos em todos os níveis. Para exportadores que operam com prazos apertados, especialmente em produtos perecíveis ou contratos fechados, isso pode rapidamente se transformar em prejuízos ou quebra de acordos.
Indústrias de cerâmica e têxteis atingidas
O impacto já está se espalhando por outros setores. Exportadores de arroz enfrentam dificuldades para garantir embarques, enquanto indústrias dependentes de importações, como fertilizantes, pneus, tintas e produtos químicos, se preparam para custos mais elevados e possíveis restrições de oferta.
Polos industriais de têxteis, cerâmica e materiais de construção, incluindo calcário e enxofre, também estão expostos a interrupções tanto nas importações quanto nas exportações.
"As tarifas de frete saltaram de cerca de 300 dólares para até 8 mil dólares por contêiner, eliminando as margens de lucro de polos como o de cerâmica em Morbi e o têxtil em Surat. Como muitas empresas dependem de recebíveis de exportação para capital de giro, atrasos nos embarques rapidamente se traduzem em um aperto de liquidez, à medida que os fluxos de caixa travam e as linhas de crédito se estreitam", disse à DW Rushabh Shah, banqueiro da consultoria de investimentos STIR Advisors, com sede em Ahmedabad.
Segundo Shah, o risco de longo prazo é a perda de mercados, já que compradores no Golfo e na Europa já estão buscando alternativas no Vietnã, na Turquia e em Bangladesh. "Uma vez que as cadeias de suprimento mudam, exportadores indianos podem ter dificuldade em recuperar essas relações. Em polos como Morbi, os fornos estão começando a ficar ociosos, não por falta de demanda, mas porque as exportações estão travadas e o fornecimento de insumos é incerto", acrescentou.
O que o governo indiano tem feito?
O governo, por sua vez, ofereceu alívio limitado ao flexibilizar prazos de crédito à exportação, ampliar a cobertura de seguros e apoiar parte da logística para proteger pequenos e médios exportadores do aumento dos custos de frete e dos atrasos. Ainda assim, para muitos, o apoio atual é insuficiente.
"Há poucos instrumentos para proteger contra custos de frete, cobertura de seguro limitada e nenhum respaldo rápido de crédito. O que começa como uma interrupção logística corre o risco de se tornar um retrocesso mais profundo e duradouro sem apoio de políticas públicas", disse Shah.
"A principal lição é estrutural. O sistema comercial da Índia continua vulnerável a choques em uma única região. Sem diversificar rotas, mercados e fontes de energia, além de construir amortecedores financeiros mais sólidos para exportadores menores, cada crise expõe as mesmas fragilidades", afirmou Chakraborty.
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