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Fóssil de novo pterossauro identificado por brasileiros pode ser na verdade de um peixe

O caso do "pterossauro suspeito" é um exemplo recente de confusão de identidade envolvendo esses extraordinários répteis voadores

21 abr 2026 - 11h49
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Ilustração de um pterossauro com um peixe na boca: ao longo da história da paleontologia fósseis de um já foram, por vezes, confundidos com os do outro, e aparentemente isso aconteceu novamente em pesquisa envolvendo cientistas brasileiros. Warpaint/Shutterstock
Ilustração de um pterossauro com um peixe na boca: ao longo da história da paleontologia fósseis de um já foram, por vezes, confundidos com os do outro, e aparentemente isso aconteceu novamente em pesquisa envolvendo cientistas brasileiros. Warpaint/Shutterstock
Foto: The Conversation

Georges Cuvier, o anatomista francês do século XIX que primeiro reconheceu os pterodáctilos como répteis voadores, escreveu que "de todos os seres cuja existência antiga nos foi revelada, [eles são] os mais extraordinários".

Hoje conhecidos como pterossauros, esse grupo extraordinariamente diversificado e de grande sucesso viveu ao lado dos dinossauros por mais de 150 milhões de anos, ocupando habitats ao redor de rios, lagos, litorais e até mesmo em oceano aberto. Enquanto algumas espécies eram bastante pequenas (não maiores do que um pombo), algumas evoluíram para se tornarem gigantes voadores com envergaduras superiores a dez metros.

O pterossauro do Jurássico Superior Rhamphorhynchus
O pterossauro do Jurássico Superior Rhamphorhynchus
Foto: The Conversation
O pterossauro do Jurássico Superior Rhamphorhynchus (Museu Bürgermeister-Müller, Eichstatt, Alemanha).David Unwin, CC BY

Os pterossauros são diferentes de qualquer outro animal, vivo ou extinto. Apesar disso, uma lista surpreendentemente longa de fósseis foi erroneamente identificada como pterossauros - incluindo um espécime mais antigo de ave, o Archaeopteryx, e um réptil aquático extinto, o Tanystropheus, que tinha vértebras cervicais extraordinariamente longas, como alguns pterossauros.

Uma das identificações errôneas mais famosas ocorreu em 1939, quando Ferdinand Broili, um paleontólogo de Munique, descreveu um novo pterossauro, o Belonochasma, com base no que pareciam ser restos de mandíbulas com centenas de dentes longos e finos.

Várias décadas depois, Franz Mayr, fundador do Museu Jura em Eichstätt, na Alemanha, reconheceu a verdadeira natureza desses restos. Os "dentes" eram, na verdade, filamentos branquiais. Fósseis mais completos, incluindo restos do corpo, mostraram inequivocamente que o Belonochasma era, na verdade, um peixe.

Na década de 1930 podiam se passar anos até que as publicações se tornassem amplamente conhecidas, e décadas até que erros fossem corrigidos. O ritmo lento da pesquisa significava que identificações errôneas geralmente tinham pouco impacto.

Compare isso com o universo digital de hoje. Agora, a maioria dos paleontólogos fica a par de pesquisas recém-publicadas em questão de dias ou até mesmo horas após a publicação - e pode começar imediatamente a baixar conjuntos de dados que as incluem.

Essa rápida disseminação e reutilização de dados - no caso da paleontologia, relacionados à idade, localização geográfica e estrutura corporal - significa que erros também podem se espalhar muito rapidamente.

Um fóssil altamente incomum

Em novembro de 2025, uma equipe de paleontólogos brasileiros liderada por Rodrigo Pêgas, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), descreveu o que consideraram ser um novo pterossauro. O Bakiribu waridza havia sido encontrado em rochas de 110 milhões de anos do Cretáceo Inferior coletadas em Araripe, no Nordeste do Brasil.

Esse fóssil altamente incomum aparentemente consistia de vários peixes pequenos além dos restos não de um, mas de dois pterossauros - cada um representado pelo que se alegava serem restos fragmentários de mandíbulas, além de centenas de dentes finos.

Restos fósseis do ‘pterossauro’ Bakiribu reinterpretados como um peixe.
Restos fósseis do ‘pterossauro’ Bakiribu reinterpretados como um peixe.
Foto: The Conversation
Restos fósseis do 'pterossauro' Bakiribu, agora sendo reinterpretado como um peixe (barra de escala 50 mm).David Unwin, CC BY

Pêgas e seus colegas especularam que esses espécimes estavam contidos no vômito fossilizado de um dinossauro (conhecido como regurgitalita) tão grande que só poderia ter sido produzido por um enorme predador - talvez um dinossauro terópode semelhante ao Spinosaurus . Promovida com entusiasmo, o recém-descoberto Bakiribu atraiu muita atenção, incluindo inúmeras representações de paleoartistas, e ganhou sua própria página na Wikipedia.

Mas um grupo que também estuda pterossauros - que além de mim inclui David Martill e Roy Smith, da Universidade de Portsmouth, e Sam Cooper, do Museu Estadual de História Natural de Stuttgart - logo identificou alguns problemas.

Bakiribu (em cima) comparado com o peixe do Jurássico Superior Belonochasma.
Bakiribu (em cima) comparado com o peixe do Jurássico Superior Belonochasma.
Foto: The Conversation
O Bakiribu (em cima) comparado com o peixe do Jurássico Superior Belonochasma (barra de escala: 10 mm).David Unwin, CC BY

Ao comparar nossa extensa coleção de fotografias digitais de alta resolução de fósseis de pterossauros com imagens publicadas do Bakiribu percebemos que seus "dentes" não se estendiam ao longo de ambos os lados da mandíbula de maneira simétrica, como ocorre com todos os pterossauros dentados. Eles também não possuíam raiz, característica onipresente nos dentes de pterossauros. Além disso, características como a dentina e os túbulos dentinários, típicas dos dentes de pterossauros, pareciam estar ausentes.

Também notamos que os fragmentos ósseos associados às supostas mandíbulas não correspondiam a nenhum elemento craniano de pterossauros, e sua textura externa áspera era diferente do acabamento liso típico dos ossos de pterossauros.

Então, o que era o Bakiribu? Martill lembrou-se do episódio do Belonochasma de 1939, o que me levou a examinar o fóssil original durante uma visita a Munique no início deste ano. Ficou imediatamente claro que o Belonochasma e o Bakiribu eram notavelmente semelhantes.

Comparando o Bakiribu com os restos fósseis de peixes-arco antigos descobertos nas mesmas rochas, e aproveitando a experiência de Cooper em peixes fossilizados, conseguimos identificar os supostos dentes do Bakiribu como filamentos de guelras e os elementos ósseos associados como branquiais (estruturas que sustentam as brânquias). Assim como o Belonochasma, o fóssil do Bakiribu era, na verdade, um arco branquial colapsado de um peixe de grande porte, preservado ao lado de dois peixes menores.

O peixe-arco Amia calva.
O peixe-arco Amia calva.
Foto: The Conversation
O peixe-arco Amia calva.Zachary Randall, CC BY

Um artigo detalhando nossas descobertas acaba de ser publicado nos Anais da Academia Brasileira de Ciências. Pêgas e colegas discordam de nossas conclusões e tiveram a oportunidade de publicar uma resposta na mesma edição da revista, mas não aceitaram o convite.

Erros de identificação são mais importantes agora

Todos os paleontólogos - inclusive eu - já identificaram erroneamente pelo menos um fóssil durante suas carreiras. A natureza fragmentária e incompleta de muitos restos fósseis significa que identificações errôneas são tão inevitáveis quanto a morte e os impostos.

Mas, no mundo atual de comunicação internacional rápida, é ainda mais importante que esses equívocos sejam destacados o mais rápido possível. Felizmente, o universo digital também pode ajudar nisso.

Cinco semanas após a primeira aparição de Bakiribu, nossa equipe sinalizou a possibilidade de uma identificação errônea ao publicar uma reinterpretação como um artigo "pré-impresso" (não revisado por pares). E apenas cinco meses depois, nosso relato totalmente revisado por pares foi publicado.

A velocidade do universo digital significa que essa suposta regurgitalita foi rapidamente regurgitada. Mas, sem dúvida, muitos outros fósseis mal identificados permanecem desconhecidos, e mais erros serão cometidos no futuro.

Uma vez identificados, no entanto, pelo menos temos as ferramentas para verificar rapidamente tais erros, a fim de restringir seu impacto no corpo de conhecimento paleontológico.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

David Unwin não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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