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Atrás nas pesquisas, Orbán apela à ultradireita europeia

26 mar 2026 - 16h20
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Geert Wilders, Marine Le Pen e Matteo Salvini são alguns dos que foram à Budapeste para dar um empurrão na campanha eleitoral do premiê húngaro, envolvido em escândalos de corrupção e há quase 16 anos no poder.O evento se chamava Primeira Grande Assembleia Patriótica na Hungria, mas de grande ela não teve nada. Estimativas generosas indicam que, na tarde desta segunda-feira (23/03), cerca de duas mil pessoas se reuniram no Parque da Cidade de Budapeste - principalmente idosos.

Geert Wilders, Marine Le Pen e Matteo Salvini participaram de evento de campanha de Viktor Orbán
Geert Wilders, Marine Le Pen e Matteo Salvini participaram de evento de campanha de Viktor Orbán
Foto: DW / Deutsche Welle

E isso que não faltaram estrelas do primeiro escalão do populismo europeu. O anfitrião, o primeiro-ministro Viktor Orbán, convocou várias figuras de destaque da ultradireita europeia como oradores - entre eles Geert Wilders, Marine Le Pen, Matteo Salvini e Santiago Abascal. Ainda assim, o que mais se via eram aposentados que simpatizam com partido Fidesz, de Orbán.

Uma das idosas presentes, que viveu muitos anos nos EUA e agora está de volta à Hungria, disse à DW: "Quero que o Fidesz e a paz vençam." Outra relatou que estava ali "porque sou húngara, amante da paz, cristã e porque defendo valores conservadores".

Os convidados ilustres de Orbán não pouparam nos elogios ao premiê. Wilders o chamou de um "leão", Matteo Salvini o exaltou como um "verdadeiro herói", e Herbert Kickl afirmou por videomensagem que Orbán seria "o único que enxerga entre os cegos de Bruxelas".

O próprio Orbán, que comanda a Hungria desde 2010, fez um discurso sem inspiração, cheio de clichês já conhecidos há anos. Ele prometeu, mais uma vez, que as "forças patrióticas tomarão Bruxelas". Disse ao público que os países da UE liderados por liberais progressistas estariam afundando cada vez mais econômica e socialmente, enquanto a Hungria sob sua liderança seria bem-sucedida e estaria vivendo um período de crescimento.

Tudo soava um pouco como os discursos daqueles antigos ditadores comunistas, que anunciavam uma vitória após a outra sobre o capitalismo enquanto seus países afundavam cada vez mais na desesperança e na miséria - exatamente como ocorre hoje em muitas regiões do interior húngaro.

Mobilização máxima

"Eventos desse tipo são ofensivas de comunicação para o período pré-eleitoral", diz o cientista político Bulcsu Hunyadi, do instituto Political Capital, de Budapeste. "Eles buscam demonstrar quantos aliados internacionais Orbán tem e que ele também é um ator importante na política mundial. Mas, olhando de perto, o público é aquele que já é simpático a Orbán."

No sábado anterior, Orbán teve uma participação semelhante na versão húngara da Conferência da Ação Política Conservadora (CPAC). Assim como nos dois eventos, o premiê já há algum tempo transmite a imagem de um autocrata envelhecido, sem novas ideias, que se agarra obstinadamente ao poder apesar de todos os problemas.

A verdade é que Orbán enfrenta grandes dificuldades antes das eleições parlamentares de 12 de abril. Embora seu partido, o Fidesz, esteja mobilizado ao máximo e o governo húngaro esteja usado recursos financeiros estatais e até funcionários do aparato estatal na campanha - o que é ilegal - o Fidesz aparece atrás do partido oposicionista Tisza nas pesquisas eleitorais.

A escova de vaso sanitário dourada

Orbán estruturou a campanha em torno dos inimigos Ucrânia e União Europeia e no tema "guerra ou paz". Mas, internamente, dois fatores o prejudicam: escândalos de corrupção e ambientais, e a questão de até que ponto ele, o "soberanista", estaria preso à coleira do Kremlin.

O escândalo de corrupção mais recente envolve o ex-chefe do Banco Nacional da Hungria György Matolcsy. Anos atrás, ele mandou reformar luxuosamente o prédio do Banco Nacional (MNB) em Budapeste, ao custo de cerca de 275 milhões de euros. Matolcsy transformou o banheiro numa suíte de ouro e mármore preto, na qual as escovas de vaso sanitário e os suportes de papel higiênico são dourados.

Há anos que a família Matolcsy e o Banco Nacional geram manchetes. O ex-presidente do MNB havia transferido dinheiro do Estado para uma complexa estrutura de fundações, e com isso o filho dele e seu círculo de amigos financiavam um estilo de vida luxuoso.

O escândalo mais recente, o da reforma do prédio, só veio à tona porque o portal independente 444.hu conseguiu, após longa batalha judicial, divulgar os documentos. A escova sanitária dourada tornou-se na Hungria um símbolo da decadência, desfaçatez e arrogância da elite ligada a Orbán.

Violação de normas ambientais pela Samsung

Ao mesmo tempo, o escândalo em torno de uma fábrica de baterias em Göd, ao norte de Budapeste, continua abalando a opinião pública. No local a empresa Samsung violou por anos padrões ambientais na produção de baterias e expôs trabalhadores a pó tóxico de metais pesados.

O governo estava informado dos problemas, mas nada fez. O ministro do Exterior, Peter Szijjártó, teria até impedido que a fábrica fosse sancionada. Para muitos húngaros, isso reforça a imagem de uma elite que se enriquece sem limites e ao mesmo tempo pouco se importa com a saúde da população e os amplos danos ambientais no país.

Marionete do Kremlin?

Como se já não bastasse, o escândalo da influência russa na campanha eleitoral e na política governamental se torna cada vez maior. O jornalista investigativo Szabolcs Panyi publicou a transcrição de uma conversa de 2020 entre Szijjártó e seu colega russo, Serguei Lavrov, na qual Szijjártó, de forma subserviente, pede ajuda eleitoral para partidos populistas e nacionalistas na vizinha Eslováquia.

Dias antes já havia sido revelado que Szijjártó, quando participava de reuniões do Conselho Europeu em Bruxelas, fazia ligações frequentes para Moscou para informar a liderança do Kremlin. Ele admitiu os contatos, mas os classificou de prática diplomática normal.

Mesmo assim, o contraste com a "política de soberania" de Orbán é gritante, afinal o governo húngaro não perde uma chance de acusar adversários políticos de serem marionetes pagas por potências estrangeiras que ameaçam a soberania da Hungria.

Esse contraste também incomoda alguns moradores de Budapeste após a Primeira Grande Assembleia Patriótica. Na Praça Széll Kálmán, não muito longe do Parque da Cidade de Budapeste, muitas pessoas nem mesmo tinham ouvido falar do encontro. Mas outras estavam indignadas. Dani, um jovem de cerca de 25 anos, chamou o evento de "patético". "Depois de todos os escândalos dos últimos tempos, acharem que ainda funciona posar como os grandes defensores da Hungria é constrangedor", disse.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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