Até onde a licença para fabricar mísseis Patriot é útil para a Ucrânia?
Após cúpula da Otan, Kiev deve receber apoio financeiro e tecnológico, incluindo uma licença para fabricar os mísseis americanos Patriot. Mas quais seriam as condições?Durante a cúpula realizada em Ancara nesta semana, os membros da Otan concordaram com um amplo pacote de ajuda militar à Ucrânia no valor total de 140 bilhões de euros (R$ 819,29 bilhões). Além disso, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou após uma reunião com o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, que pretende conceder à Ucrânia uma licença para produzir de forma independente mísseis para o sistema de defesa aérea Patriot.
Esses mísseis são fundamentais para a defesa contra ataques balísticos vindos da Rússia. Durante um intenso bombardeio russo na última segunda-feira (06/07), as Forças Aéreas da Ucrânia não conseguiram interceptar nenhum míssil balístico. Segundo informações divulgadas na ocasião, a principal razão foi a escassez de mísseis Patriot.
De acordo com Trump, Washington pretende compartilhar a tecnologia Patriot e conceder o direito de produzir diretamente em território ucraniano as munições atualmente em falta para a defesa aérea. Os Estados Unidos estariam dispostos a fornecer o apoio necessário para viabilizar essa iniciativa.
Durante a coletiva de imprensa, Trump também declarou que pretende comprar drones ucranianos. A medida representa uma mudança de postura em relação à sua visão anteriormente mais crítica sobre a indústria de defesa da Ucrânia. Trump elogiou a ampla capacidade dos ucranianos para fabricar drones. "É impressionante que eles consigam produzir isso em condições de guerra", destacou.
A experiência ucraniana em drones também está sendo fortemente demandada em toda a Europa. Em Ancara, diversos países assinaram um acordo sobre drones com Kiev.
Decisão histórica, mas com condições?
Caso a Ucrânia receba autorização para produzir mísseis Patriot sob licença, se tornará apenas o terceiro país do mundo, depois do Japão e da Alemanha, a receber esse direito.
No entanto, o especialista militar Oleh Katkow, editor-chefe da revista da empresa ucraniana de mídia e consultoria Defense Express, avalia que o caminho entre a decisão política e o início efetivo da produção levará anos. "Isso é realmente fantástico, um momento histórico. Mas é preciso entender que um processo assim não leva apenas alguns dias ou semanas. O Japão, apesar de toda sua capacidade industrial e tecnológica, precisou de dois anos entre o acordo e o início da produção. Muito provavelmente estamos apenas na fase de um entendimento político de princípio entre os governos da Ucrânia e dos Estados Unidos."
Segundo Katkow, antes que uma cooperação entre empresas do setor de defesa possa ser estabelecida, será necessário firmar primeiro um acordo entre os governos. Somente depois disso poderão começar as negociações com as empresas americanas detentoras dos direitos dos mísseis Patriot.
"No caso dos mísseis Pac-3, os direitos pertencem à Lockheed Martin; já os Pac-2 pertencem à RTX (Raytheon). Essas empresas precisam assinar contratos com companhias ucranianas. Só então será possível falar sobre o início da produção local", explicou o especialista.
Oleksandr Chara, do Centro de Estratégias de Defesa da Ucrânia, observa que a questão não é apenas se a Ucrânia obterá a licença para produzir os mísseis Patriot, mas também se essa autorização virá acompanhada de exigências políticas por parte de Donald Trump. "Espero sinceramente que não existam condições ocultas. Que não se exija da Ucrânia concessões à Rússia antes de receber esses Patriots. Com o atual governo dos Estados Unidos, tudo é possível", afirmou Chara à DW.
Advertência simbólica à Rússia?
Ihor Rejterowytsch, da Universidade Nacional Taras Shevchenko de Kiev, alerta contra expectativas de uma implementação rápida da decisão. "Trata-se mais de uma medida simbólica. Antes de tudo, é uma mensagem para a Federação Russa: 'Vejam o que poderá acontecer em seguida'. Mas está claro que a Ucrânia precisará de muito tempo para construir efetivamente essa capacidade de produção."
Segundo ele, a principal mensagem da Casa Branca ao Kremlin é que os Estados Unidos não pretendem abandonar a Ucrânia. "É um sinal claro: 'Estamos ao lado da Ucrânia e continuaremos a apoiá-la'. Se não agora, no futuro a Ucrânia produzirá seus próprios Patriots. Isso deve servir como um alerta para a Rússia", afirmou o especialista.
Por que a adesão da Ucrânia à Otan não foi tema da cúpula?
Chamou atenção o fato de quase não ter havido discussão sobre uma eventual adesão da Ucrânia à Otan.
Oleksandr Chara atribui isso principalmente à posição do presidente dos Estados Unidos. "Mesmo antes de voltar à Casa Branca, Trump já havia deixado claro que era contra a entrada da Ucrânia na Otan. Quando o país mais importante da aliança adota essa posição, fica evidente que ninguém falará seriamente sobre adesão neste momento."
Ao mesmo tempo, o especialista considera que Kiev não deve abandonar seu objetivo estratégico de integrar a Otan. Segundo Chara, a Europa continuará contando com um sistema de segurança coletiva, e a Ucrânia deveria fazer parte dele. "Sozinha, a Ucrânia não conseguirá conter a Rússia a longo prazo."
Embora a adesão à Otan não tenha sido debatida publicamente, Rejterowytsch considera que a cúpula foi muito mais bem-sucedida para Kiev do que se esperava. Apenas o fato de a Ucrânia ter ocupado o centro das discussões entre os aliados demonstra seu papel estratégico nas questões de segurança europeia.
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