Após inundações, mulheres e meninas no Nepal estão em situação vulnerável
Após enchentes devastadoras no Nepal deixarem milhares de vítimas e desabrigados, mulheres e crianças enfrentam extrema vulnerabilidade em abrigos improvisados. Sem privacidade, iluminação ou saneamento básico, as famílias temem a violência sexual, o casamento infantil e o tráfico humano. Organizações como a Save the Children e o Unicef alertam para os graves impactos na saúde mental e educação de menores órfãos, enquanto o governo reforça a vigilância e a proteção legal nas áreas atingidas.
Famílias que vivem em abrigos temporários no norte do país situado no coração do Himalaia dizem faltar segurança e privacidade, enquanto crescem as preocupações com tráfico de pessoas e abusos.Um mês após as enchentes fatais no Nepal destruírem sua comunidade, no distrito de Rasuwa, Karishma Tamang ainda luta para encontrar um lugar seguro para morar.
Grávida do segundo filho, a jovem de 26 anos tem se mudado de um lugar para outro com a filha de 4 anos desde que as enchentes devastadoras atingiram o corredor dos rios Bhotekoshi-Trishuli, próximo à fronteira com a China.
"Inicialmente, fomos abrigados em um salão coberto na cidade de Bidur, no distrito de Nuwakot", disse à DW, acrescentando que centenas de pessoas compartilharam o mesmo abrigo por dias.
"Agora nos mudamos para uma pequena barraca improvisada para a família na região vizinha de Barahachaur. Ainda assim, não conseguimos dormir nas noites chuvosas porque a barraca tem goteiras quando chove." O irmão dela e os dois filhos dele continuam desaparecidos após a enchente.
Não há banheiro adequado, privacidade ou segurança. Uma pequena latrina improvisada foi instalada perto das barracas, relata Karishma.
"Seria ótimo ter um lugar estável para ficar, onde eu pudesse cozinhar minha própria comida, me sentir segura e ter algum conforto", afirmou.
Preocupações com segurança em abrigos temporários
A enchente de 26 de agosto, provocada pelo colapso de uma geleira na fronteira entre Nepal e China, matou cerca de 1.450 pessoas e deixou mais de 5.500 desaparecidas. Os custos de reconstrução são estimados em cerca de 4,8 bilhões de dólares (cerca de R$ 26,4 bilhões).
Pelo menos sete pessoas, entre meninas, mulheres e voluntários que atuam em abrigos e acampamentos temporários, falaram à DW. Embora nenhuma tenha relatado ter sofrido assédio ou abuso sexual, seus depoimentos são carregados de preocupação com segurança e vulnerabilidade após as enchentes.
Sabita Tamang, que perdeu a filha de 5 anos, um sobrinho e uma sobrinha na tragédia, também vive em uma barraca improvisada em Barahachaur. A jovem de 24 anos disse que precisa caminhar para além da torneira mais próxima para tomar banho e buscar água.
"Nos sentimos desconfortáveis tomando banho em espaço aberto entre estranhos e moradores que não conhecemos", afirmou à DW. "Muitas crianças viram familiares, amigos e vizinhos serem arrastados pelas enchentes", disse, manifestando preocupação com os impactos sobre a saúde mental e a educação delas.
Risco de tráfico e abusos
A organização Save the Children Nepal alertou que as medidas de proteção para crianças e suas famílias precisam ser reforçadas em todas as áreas afetadas pelas enchentes diante de preocupações com tráfico de pessoas, violência, exploração e casamento infantil.
Muitas famílias se mudaram para imóveis alugados. Ainda assim, centenas de pessoas permanecem em abrigos temporários e barracas improvisadas nos distritos de Nuwakot e Dhading.
A Save the Children Nepal manifestou preocupação com a privacidade e a segurança de meninas e mulheres, pois pessoas desconhecidas têm acesso irrestrito a espaços compartilhados.
Ayush Joshi, diretor de advocacy, campanhas, comunicação e mídia da Save the Children Nepal, disse à DW que o relatório da organização se baseia em avaliações qualitativas realizadas com pessoas afetadas, incluindo mulheres e crianças, além de voluntários mobilizados nas áreas atingidas.
"Muitos abrigos temporários são construídos sem planejamento. Acampamentos nas periferias das cidades têm iluminação inadequada durante a noite e carecem de banheiros separados e espaços privados", disse Joshi à DW, observando que pessoas desconhecidas podem circular livremente nesses locais.
"Situações como essa aumentam naturalmente o risco de insegurança, assédio e exploração, especialmente para meninas e crianças."
Segundo Joshi, após o desastre, muitas pessoas se separaram de suas famílias, enquanto algumas crianças morreram e irmãos mais velhos passaram a cuidar dos mais novos.
"Nessas circunstâncias, os casos de evasão escolar e casamento infantil podem aumentar", acrescentou, citando a avaliação de campo da Save the Children. "Vimos muitas crianças enfrentando problemas de saúde mental, tornando-se agressivas, assustadas e chorando intensamente. Há necessidade de recuperação socioemocional."
O que diz o governo
O governo do Nepal também avaliou os riscos de tráfico de pessoas e possíveis abusos contra crianças e passou a colaborar com organizações como a Save the Children, a polícia e autoridades locais para reforçar medidas de proteção nos locais que recebem deslocados.
Chakra Bahadur Budha, porta-voz do Ministério das Mulheres, Crianças, Gênero e Minorias Sexuais, afirmou que o governo ampliou a fiscalização e a vigilância e tem promovido campanhas de conscientização sobre violência de gênero e tráfico de pessoas.
"Mobilizamos todos os atores relevantes e os mantemos em estado de alerta máximo nos pontos de entrada e saída para proteger as pessoas afetadas contra tráfico e abusos", disse à DW.
As autoridades retiraram ao menos 78 crianças de dois mosteiros budistas em Katmandu e as transferiram para acampamentos temporários. Budha explicou que os mosteiros haviam acolhido e apoiado essas crianças, oferecendo abrigo de longo prazo, educação e oportunidades de trabalho, mas o governo desencoraja esse tipo de iniciativa fora dos procedimentos oficiais.
"Desencorajamos de forma rigorosa que organizações religiosas ou beneficentes mantenham crianças sem seguir os procedimentos legais", disse Budha à DW. "A adoção também não é incentivada neste momento, mas as crianças podem ser colocadas sob os cuidados de parentes próximos, como tios e tias, após a verificação do vínculo familiar."
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) informou que ao menos 541 crianças perderam os pais ou foram separadas de suas famílias.
Avaliações preliminares indicam que o aprendizado de mais de 14 mil crianças foi interrompido em 62 escolas e centros educacionais localizados nas áreas atingidas pelas enchentes nos distritos de Dhading, Nuwakot e Rasuwa.
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