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Apesar de avanços, acordo entre UE e Mercosul consolida Brasil como grande exportador de commodities

Para o Mercosul e o Brasil, a questão central reside em saber se o ganho de mercado, reputação e diversificação compensa a consolidação de uma inserção internacional ainda regulada pelos padrões definidos em Bruxelas

13 jan 2026 - 20h03
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O Conselho da União Europeia aprovou o acordo de parceria com o Mercosul em 9 de janeiro de 2026, após mais de 25 anos de negociações entre os dois blocos. A decisão abre caminho, definitivamente, para a criação da maior área de livre comércio do mundo, com cerca de 720 milhões de pessoas e um PIB combinado em torno de U$ 22 trilhões.

A União Europeia apresenta o acordo como peça central de sua estratégia comercial em um cenário de protecionismo norte‑americano e competição com a China por mercados e insumos estratégicos. Concretamente, a Comissão Europeia projeta expansão expressiva das exportações do bloco para o Mercosul, com ganhos relevantes para automóveis e autopeças (atualmente com tarifas de 35% e 14-18%), máquinas (com tarifas de 14-20%), produtos químicos (com tarifas atuais de até 18%) e produtos farmacêuticos (com tarifas até 14%).

Para Bruxelas, o pacto funciona também como instrumento de redução da dependência em relação à China em minerais críticos, incluindo lítio e outros insumos para cadeias de energia limpa.

O tratado combina um pilar comercial e outro político, organizando em um único instrumento diálogo político, cooperação e comércio. A parte comercial admite aplicação provisória após o consentimento do Parlamento Europeu, enquanto a vigência plena requer ratificação de todos os Estados‑membros.

Eliminação gradual sobre 91% das exportações europeias e cerca de 92% do Mercosul

O desenho tarifário implica liberalização assimétrica, com eliminação gradual de tarifas sobre 91% das exportações europeias e cerca de 92% das exportações do Mercosul, em prazos que chegam a 15 anos para produtos industriais. O texto inclui salvaguardas automáticas para setores agrícolas sensíveis europeus, acionadas diante de aumentos abruptos de importações ou quedas relevantes de preços internos.

Para o Brasil, a UE já figura como segundo maior mercado do agronegócio, atrás da China e à frente dos Estados Unidos, inclusive em um contexto recente de aumento de barreiras norte‑americanas. Estudos de impacto estimam que o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia gere crescimento adicional do PIB brasileiro e elevação de investimentos produtivos.

Especialistas destacam que os maiores ganhos concentram‑se em soja e derivados, carnes, café, celulose, açúcar e etanol, segmentos em que o país detém consolidada vantagem competitiva. Análises setoriais apontam vitórias específicas para carnes bovina, aves, suínos e biocombustíveis, ainda que sob cotas e limites que reduzem o efeito imediato sobre volumes exportados.

Em sentido oposto, a indústria brasileira enfrenta maior pressão competitiva, pois o Mercosul eliminará tarifas sobre 91% das exportações europeias, incluindo automóveis e máquinas hoje altamente tarifados. Estudos de economia internacional indicam que acordos desse tipo tendem a reforçar vantagens comparativas: países como o Brasil consolidam o papel de grandes exportadores de commodities, mesmo com algum avanço pontual em manufaturas.

Europeus temem concorrência "desleal" em carne bovina e açúcar

O processo de aprovação revela divisões na UE, com forte oposição de agricultores e de governos como o francês, que enxergam risco de concorrência "desleal" em carne bovina e açúcar. Organizações rurais criticam a ausência de cláusulas espelho plenas, defendendo que produtores sul‑americanos sigam padrões ambientais e sanitários idênticos aos exigidos internamente no mercado comum europeu.

Ao mesmo tempo, autoridades europeias ressaltam que os capítulos de comércio e desenvolvimento sustentável vinculam o tratado a compromissos com o Acordo de Paris e mecanismos de monitoramento de desmatamento. No Brasil, parte do agronegócio saúda o pacto como oportunidade de ampliar exportações e atrair investimentos, enquanto outra parte enfatiza desafios de adaptação regulatória em matérias como agrotóxicos, sustenibilidade, desmatamento e rastreabilidade.

O avanço do acordo ocorre em meio a guerras tarifárias e reconfiguração das cadeias globais, contexto em que a aprovação europeia foi tratada como trunfo político pelo governo brasileiro em ano eleitoral. Análises geoeconômicas descrevem o acordo como uma tentativa de resgatar o multilateralismo comercial e reduzir a dependência de alinhamentos "exclusivos" com Estados Unidos ou China. Ao mesmo tempo, analistas destacam que o pacto reforça o interesse europeu em acesso preferencial a recursos importantíssimos: alimentos, energia e minerais críticos latino‑americanos, redesenhando cadeias de valor em benefício da indústria europeia.

Para o Mercosul, e em particular para o Brasil, a questão central reside em saber se o ganho de mercado, reputação e diversificação compensa a consolidação de uma inserção internacional ainda fortemente ancorada em commodities e regulada por padrões definidos em Bruxelas.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Armando Alvares Garcia Júnior não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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