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Amigo de Bolsonaro confirma 'rachadinha', mas nega após telefonema do presidente

Waldyr 'Jacaré' disse a 'Veja' que Ana Valle, ex-mulher do presidente, comandava esquema supostamente ignorado pela família Bolsonaro; depois de revelar conversa com antigo chefe, ex-assessor afirmou ter citado apenas o que viu na imprensa

21 jan 2022 11h29
| atualizado às 19h01
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RIO - Um dos amigos mais próximos do presidente Jair Bolsonaro, o aposentado Waldyr Ferraz, conhecido como Jacaré, admitiu, segundo a revista Veja, a existência de um esquema de rachadinha (desvio de salário de assessores em favor dos parlamentares) nos gabinetes de políticos da família. Waldyr acompanha Bolsonaro desde o início da carreira política nos ano 80. Segundo ele, o esquema teria sido montado por Ana Cristina Valle, segunda ex-mulher do mandatário, sem o conhecimento dele, nem da família. O caso começou a ser investigado revelado a partir de relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Ao Estadão/Broadcast, após receber, por telefone, uma cobrança de Bolsonaro por suas declarações, Jacaré negou ter feito acusações. Afirmou ter apenas citado notícias que lera nos jornais.

Segundo Veja, Jacaré descreveu o suposto esquema que Ana operaria. Com poder para fazer uma cota de contratações dos gabinetes, nessa versão ela recolhia documentos de algumas pessoas, abria contas bancárias e lhes dava uma pequena parte do salário, ficando com o restante. Muitas vezes, os assessores seriam fantasmas. Bolsonaro, segundo essa narrativa, de nada saberia. Só teria descoberto, de acordo com Waldyr, quando o Estadão revelou a investigação aberta, em dezembro de 2018. Waldyr também não participaria do esquema.

"Ela fez nos três gabinetes", disse Waldyr, segundo a Veja. Em Brasília (na Câmara dos Deputados), aqui no Flávio (na Assembleia Legislativa do Rio) e no Carlos. O Bolsonaro deixou tudo na mão dela para ela resolver. Ela fez a festa. É isso. Ela que fazia, mas quem é que assinava? Quem assinava era ele. Ele vai dizer que não sabe? É batom na cueca. Como é que você vai explicar? Ele está administrando. Não tem muito o que fazer."

Ainda segundo a Veja, Bolsonaro, quando soube do esquema, ficou "desesperado".

"O cara foi traído", afirmou Jacaré, segundo a revista. "Ela começou tudo. Bolsonaro nunca esteve ligado em nada dessas coisas. O cara (não) tinha visão do que estava acontecendo por trás no gabinete. Às vezes o chefe de gabinete faz merda, o próprio deputado não sabe. Mesmo o deputado vagabundo não sabe, só vem a saber depois."

Waldyr afirmou à Veja que Ana Cristina exige dinheiro e outras vantagens para não contar o que sabe. Teria ido até o cercadinho do Palácio da Alvorada, para supostamente ser vista por Bolsonaro e pressioná-lo. A segunda ex-mulher do presidente mora em uma casa de luxo em Brasília. Há acusações de que seja dona oculta do imóvel. Ela nega e diz que o aluga.

Ao Estadão/Broadcast, porém, depois de ter recebido o telefonema de Bolsonaro na quinta, Waldyr negou conhecer qualquer esquema nos gabinetes da família.

"Tudo o que eu disse à jornalista da Veja eu li nos jornais, não é nada que eu tenha visto. Eu vivi lá dentro e nunca vi esses esquemas de rachadinha", afirmou. Segundo ele, Bolsonaro estava irritado e disse que ele não deveria ter falado nada. "Comigo nunca aconteceu (rachadinha) e tenho certeza que nem ele (Bolsonaro) e nem os filhos sabiam de nada. Nem sempre o que acontece nos gabinetes os deputados ou vereadores ficam sabendo".

O ex-assessor disse ter dado entrevista apenas para falar da amizade com Bolsonaro.

Ana Valle não foi localizada para se manifestar sobre a reportagem da Veja.

Em publicação nas redes sociais, Waldyr afirmou: "Informo que jamais presenciei ou soube de algo que tenha havido rachadinha em qualquer gabinete dos Bolsonaros". Em outro trecho, disse que nunca foi nomeado no gabinete de Jair Bolsonaro (PL) ou de seus filhos Flávio e Carlos. A publicação foi lida pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em vídeo gravado e divulgado nesta sexta-feira, 21. O senador, em cujo gabinete Queiroz, segundo o Ministério Público do Rio, teria operado o esquema da rachadinha, reclamou que "os ataques não param", mesmo em um "momento difícil". Na madrugada desta sexta, Olinda Bolsonaro, mãe do presidente, morreu aos 94 anos.

Estadão
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