A onda conservadora da América Latina: alternância reforçada, alinhamento condicional
O vaivém eleitoral típico da região é agora amplificado por um fator novo, a dimensão internacional. Insegurança, mal-estar econômico, corrupção e desconfiança em relação às elites explicam o giro do eleitorado
A América Latina vive sua mais ampla onda conservadora pós-redemocratização, impulsionada por insegurança, crise econômica e pressões geopolíticas. Embora haja alinhamento ideológico e cooperação em segurança com os Estados Unidos, os novos governos mantêm um pragmatismo comercial com a China, sua parceira vital. Nesse cenário fragmentado, a eleição presidencial brasileira é a chave para o equilíbrio regional, onde os interesses nacionais e econômicos se sobrepõem a blocos ideológicos rígidos.
A América Latina atravessa seu ciclo conservador mais amplo desde a redemocratização. Depois de vitórias à direita de El Salvador ao Chile, a eleição presidencial brasileira de 25 de outubro — o segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro — pode consolidar a viragem na maior economia da região. A pergunta é simples: trata-se de um novo ciclo político ou uma alternância habitual da política latinoamericana?
A resposta precisa é uma: alternância reforçada — o vaivém eleitoral típico da região é agora amplificado por um fator novo, a dimensão internacional. Insegurança, mal-estar econômico, corrupção e desconfiança em relação às elites explicam o giro do eleitorado — ingredientes clássicos da política regional.
A migração converteu-se em tema central das disputas eleitorais; a competição entre Estados Unidos e China alcança portos, telecomunicações e dados; e a corrida por minerais estratégicos transformou o subsolo da região em ativo geopolítico. Essa combinação torna o momento politicamente mais profundo que as ondas anteriores.
Chamar os novos governos de "bloco" seria um erro analítico. Eles coincidem mais do que formam um bloco: compartilham prioridades em segurança, controle migratório e proximidade com Washington, e divergem em economia, instituições, integração regional e relação com a China. Prevalecem os interesses nacionais, definidos caso a caso.
O melhor exemplo dessa ambiguidade é o Escudo das Américas, apresentado por Washington como aliança antinarcóticos. A iniciativa oferece cooperação real contra o crime organizado; reúne, porém, apenas governos afins,deixando de fora, até agora, Brasil e México. Seu alcance vai além das drogas: envolve sanções, tecnologia, infraestrutura e minerais críticos. O Escudo é, simultaneamente, uma plataforma de segurança hemisférica e um mapa de afinidades estratégicas com os Estados Unidos.
Alguns analistas falam numa "doutrina Monroe revivida", num "Corolário Trump". A ideia se apoia em três chaves:
1) A convicção: há afinidade ideológica evidente entre a nova direita e o campo republicano;
2) O cálculo: o alinhamento compra cooperação de segurança, comércio e investimento;
3) A pressão: Washington dispõe de instrumentos financeiros e sancionatórios para impor custos altos. O alinhamento durará enquanto seus benefícios superarem seus custos internos e econômicos.
Pragmatismo comercial deve prevalecer na relação com a China
Aí entra a China — e o mapa se complica. Pequim respondeu por 28,7% das exportações brasileiras em 2025 e é hoje o principal parceiro comercial de Brasil, Chile e Peru. Afastar-se desse comércio sem custo econômico é impossível. A consequência previsível: pragmatismo comercial e cautela ideológica concentrada nos setores sensíveis — portos, telecomunicações, dados, minerais críticos e infraestruturas estratégicas.
Existe ainda o risco de uma reprimarização induzida pela geopolítica. Washington e seus aliados buscam diversificar o acesso a minerais estratégicos e podem converter os países governados pela direita nos grandes fornecedores de matérias-primas do Ocidente. O desafio regional é exigir, em troca, investimento produtivo, tecnologia e processamento local. Se a América Latina continuar exportando apenas lítio, cobre ou níquel, mudará de comprador sem alterar sua dependência estrutural.
O Brasil é a peça decisiva do tabuleiro. Lula manteria uma política de autonomia e equilíbrio entre Estados Unidos, China, Europa e os BRICS. Flávio Bolsonaro aproximaria o país de Washington — e seu Partido Liberal acaba de eleger a maior bancada da Câmara em 36 anos. Quem vencer, porém, enfrentará os mesmos limites: nenhum presidente brasileiro pode ignorar o peso comercial da China nem prescindir do Mercosul.
Preocupações no plano do direito internacional
No plano do direito internacional, a nova configuração produz precedentes que merecem escrutínio. A captura de Maduro pelos Estados Unidos levanta problemas de soberania, uso da força e imunidade estatal. A classificação americana dos cartéis como organizações terroristas jamais autoriza operações ilimitadas: exige respeito à necessidade, à proporcionalidade, ao devido processo e aos direitos humanos. Quando esses limites se flexibilizam, enfraquece-se a não intervenção — e, com ela, a base jurídica da convivência regional. O caso salvadorenho reforça a cautela: exporta-se a retórica da mão dura, jamais o modelo completo, cujo custo em detenções arbitrárias já foi denunciado por organizações internacionais.
Cuba e Nicarágua, no extremo oposto do espectro, enfrentarão maior isolamento e pressão política — um cerco que tende a reforçar a narrativa de assédio e a endurecer o controle interno, prejudicando sobretudo suas populações.
As instituições regionais atravessarão o período encolhidas. A OEA terá dificuldade para gerar consensos; o sistema interamericano seguirá sendo uma garantia jurídica; e o Mercosul precisará de coesão para aproveitar seu acordo comercial com a União Europeia.
Em cinco anos, o cenário mais provável: uma região mais próxima dos Estados Unidos em segurança e estreitamente vinculada à China em comércio e investimento. Sem alinhamento exclusivo, prevalecerão o pragmatismo, a fragmentação e as decisões nacionais caso a caso. O segundo turno brasileiro definirá o equilíbrio regional — e até onde a alternância reforçada conduzirá a maior democracia da América Latina.
Armando Alvares Garcia Júnior não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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