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A lição incômoda do Grand Challenges Brazil para o SUS

Programa financiado pela Fundação Gates conseguiu levar a pesquisa científica ao SUS. O problema é como ela conseguiu e o que isso revela sobre as falhas do nosso sistema público de fomento

24 jun 2026 - 06h32
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Um pesquisador financiado pelo Grand Challenges Brazil paga do próprio bolso a hospedagem do site que criou. Sem isso, a ferramenta sairia do ar quando o projeto acabasse. A cena, relatada em um estudo recém-publicado, resume um problema maior da ciência brasileira.

O Grand Challenges Brazil nasceu em 2013. É uma parceria entre o Ministério da Saúde e a Fundação Bill e Melinda Gates. Financia pesquisas que buscam resolver desafios do SUS e acompanha cada projeto de perto, com seminários e uma equipe que aproxima cientistas e gestores.

As chamadas já selecionaram 71 projetos. Eles trataram de prematuridade, resistência a antibióticos e combate à dengue com a bactéria Wolbachia. Em 2026, um artigo na revista Health Research Policy and Systems entrevistou 22 pessoas ligadas ao programa. O objetivo era entender o que ajuda e o que atrapalha a "tradução do conhecimento", ou seja, o processo de transformar pesquisa em ação concreta para o SUS.

Simetria reveladora

O estudo lista barreiras e facilitadores. Uma leitura possível das duas listas revela um padrão. Para cada falha do Estado, havia uma solução interna do programa.

Faltava coordenação no Ministério; o programa GC-Brasil criava espaços de encontro. Faltava dinheiro para levar a pesquisa ao serviço de saúde; o programa oferecia verba flexível. Faltava gente para comunicar ciência a quem decide; o programa contratava especialistas.

Cada nova gestão do Ministério recomeçava sem saber o que já fora feito. O programa fazia um acompanhamento contínuo para não perder o fio. Nenhuma dessas falhas é exclusiva da saúde, são travas conhecidas da administração pública brasileira.

Os facilitadores, por outro lado, são soluções internas ao GC-Brasil, que funcionaram como uma redoma protetora.

Essas travas têm origem antiga. Nos anos 1990, o Brasil criou regras rígidas para combater a corrupção. Concursos definem quem o Estado contrata; licitações definem como ele gasta.

As regras ajudaram a conter o clientelismo. Mas tornaram mais lentas as formas de recrutamento de especialistas e execução do orçamento. É dessas amarras que a redoma do programa protege.

Para contratar comunicadores e montar equipes de acompanhamento ou mesmo para liberar recurso sem esperar meses, o programa opera com recursos de fora, sob as regras flexíveis de um financiador externo. A ciência política chama isso de capacidade estatal paralela ("shadow state capacity").

O próprio programa brasileiro de AIDS, hoje modelo, nasceu assim, e o GC-Brasil é uma variante mais recente.

Por que isso não é um elogio

A proteção, porém, vale só enquanto há financiamento. Vários pesquisadores relataram projetos que se encerram junto com o recurso.

Um deles desenvolveu e validou um instrumento que pretendia levar a todo o país, mas não encontrou nenhum mecanismo público que o sustentasse depois do fim da chamada. Encerrada a parceria com a Gates, os projetos voltam a ficar expostos às vulnerabilidades de sempre.

Há uma segunda fragilidade, mais grave. Segundo as autoras, as barreiras decisivas muitas vezes não são técnicas, mas políticas. Há gestores que evitam dados inconvenientes, prioridades que mudam a cada troca de ministério, o negacionismo que se intensificou na pandemia. Contra esse tipo de obstáculo, a flexibilidade do financiamento externo nada pode, porque o problema não é falta de recursos e sim conflito de interesse e cálculo político.

Há, no entanto, um contraponto. Em outro estudo, sobre como a saúde pública resistiu aos ataques do presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia. As burocracias não se defendem apenas com recursos próprios. Elas resistem com aliados fora do Estado. Agem em três frentes complementares, a defesa política, o aporte de recursos financeiros e o ativismo social. Com esse tipo de apoio, a vacinação superou a obstrução presidencial e alcançou 81% da população imunizada, um índice comparável ao de países ricos.

Vista por essa lente, a rede que o GC-Brasil tece tem outro valor. Ela liga pesquisadores, gestores e financiadores. Essas alianças podem tornar o Estado mais resistente quando o vento político vira.

O que fazer

Nada disso é simples. Os próprios pesquisadores ouvidos no estudo descrevem essas travas como o nó do problema. E reconhecem que o programa ajuda justamente por contorná-las, não por resolvê-las.

O paradoxo é esse. O programa funciona porque conta com recursos externos, livres das amarras que travam o Estado. Mudar essas amarras seria o caminho de fundo, mas é lento e difícil.

Ainda assim, há o que fazer. O ponto é incorporar ao Estado o que hoje só existe dentro do programa. O acompanhamento próximo, por exemplo, pode virar regra das chamadas públicas, com encontros entre cientistas e gestores previstos em edital.

A fase de transição entre o piloto e a adoção, hoje um vazio que pesquisadores relatam ter de custear do próprio bolso, demandaria uma linha de financiamento dedicada. Os produtos gerados também precisam de cuidado. Plataformas e bases de dados exigem financiamento de manutenção desde o início. E a memória institucional ganharia com registros que sobrevivessem à troca de pessoas.

Nenhuma dessas medidas é inédita.

O programa de AIDS mostra que isso é possível. Seu mérito maior não esteve no dinheiro externo, o empréstimo do Banco Mundial chegava a proibir gastos com antirretrovirais.

O que sustentou a política foi uma decisão soberana. O país garantiu, por lei, o acesso universal e passou a produzir os remédios. O recurso externo ajudou a levantar a obra. Mas quem a sustentou foi o Estado.

Essa é uma das lições do Grand Challenges Brazil. Seu mérito talvez não esteja somente no que entregou. Está também em tornar visíveis a lacuna que o setor público ainda precisa preencher e a prova de que já foi capaz disso.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

A autora é financiada pela Fapesp (processo 2021/06202-0). Colabora, em caráter voluntário e não remunerado, com a iniciativa Grand Challenges Brazil e integra a equipe que produz o relatório de avaliação dos editais do programa, a convite da coordenação brasileira. As opiniões expressas neste artigo são de sua responsabilidade. Parte da literatura citada inclui trabalhos de coautoria da própria autora.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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