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A Independência brasileira que não chegou às favelas

6 set 2022 - 06h57
(atualizado às 07h21)
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O Brasil incorporou a silenciosa marginalização racial como sua pedra de toque, jogando para favelas filhos, netos e bisnetos de negros escravizados e insistindo que a essas favelas a Independência dificilmente chegaria."Imagina eu explicar isso na favela."

"Gostaria de ver presidenciáveis explicarem nas favelas como a política brasileira é baseada num grande pacto para manter privilégios de homens brancos e ricos", escreve a historiadora Ynaê Lopes dos Santos
"Gostaria de ver presidenciáveis explicarem nas favelas como a política brasileira é baseada num grande pacto para manter privilégios de homens brancos e ricos", escreve a historiadora Ynaê Lopes dos Santos
Foto: DW / Deutsche Welle

Essa foi mais uma das falas preconceituosas (para dizer o mínimo) do presidenciável Ciro Gomes. A frase foi proferida numa reunião com empresários - que ele mesmo chamou de "comício para gente preparada" -, ocorrida na Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), no último dia 31 de agosto.

Ainda que Ciro tenha chamado de "má-fé" a onda de críticas ao seu comentário, advogando que ama e respeita a sabedoria popular, essa não foi nem a primeira, nem a segunda vez que o político fez uso desmedido de seu privilégio de homem branco para falar sobre pessoas que ele provavelmente não enxerga de forma horizontal.

Apenas três dias antes, o mesmo Ciro Gomes disse durante o debate dos presidenciáveis na Band que "o Brasil não é o fundão da África" para justificar que aqui nós temos comida (mesmo que ela seja mal distribuída). Esse jargão - que insiste em tomar o continente africano como um bloco homogêneo - já havia sido usado pelo candidato no programa Roda Viva, da TV Cultura, no qual ele demonstrou toda sua desinformação sobre as diferentes formas como governos africanos lutaram contra a pandemia, que podem ter contribuído para o número menor de mortos por covid-19 em relação a outras partes do mundo.

Novamente, uma enxurrada de críticas foi feita ao candidato, sendo uma das mais contundentes um vídeo produzido por Vençam, um ativista Pan-africanista da Guiné Bissau, que administra perfis no Instagram e no TikTok de nome Visto África.

Mas não é exatamente sobre a postura arrogante e ignorante de Ciro Gomes que quero falar aqui. E sim, sobre o que ela representa.

O debate no qual a África foi mais uma vez tratada como um país foi o mesmo em que vimos apenas candidatos brancos à Presidência da República. É preciso pontuar que havia diferentes identidades de gênero e de classe em jogo. A história recente do país demonstra que quando um ex-operário fabril e uma mulher ocuparam a Presidência, mudanças palpáveis foram implementadas, sobretudo no que diz respeito à luta contra a desigualdade socioeconômica.

A presença de negros, negras e indígenas na política brasileira é ínfima desde o fatídico 7 de setembro de 1822. Exatos 200 anos se passaram, e mantemos uma espécie de tradição na qual gente não branca parece não ser bem-vinda nos mais altos escalões da política. E o pior é que essa repulsa acabou por naturalizar a ideia de que, no Brasil, o exercício político só é feito pelos mesmos brancos de sempre.

Insistimos numa história nacional que começa e termina com D. Pedro 1º. Não com ele, exatamente, mas com a perspectiva histórica que ele ajudou a construir e da qual foi um importante espécime. Um país cuja liberdade e soberania estiveram alicerçadas à escolha pela escravidão de gente negra, mesmo que isso representasse contrariar as leis da própria nação. Um país, cuja proclamação da República não fez uso da instituição escravista (recém-abolida), mas incorporou a silenciosa e aguda marginalização racial como sua pedra de toque, jogando para as favelas os filhos, netos e bisnetos daqueles pretos (muitos deles escravizados), e insistindo que a essas favelas a Independência do 7 de setembro de 1822 dificilmente chegaria.

As escolhas políticas que sustentam o descaso histórico dos poderes públicos brasileiros e que fizeram das favelas uma espécie de anti-herói do país são as mesmas que nos ajudam a compreender a ausência de candidato/as negro/as no debate dos presidenciáveis. Ausência que evidencia como a política brasileira foi e continua sendo organizada a partir de um grande pacto estruturado para manter os privilégios dos homens brancos e ricos, abrindo pequenas concessões.

Era isso que eu queria ver o presidenciável explicar para a favela.

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Mestre e doutora em História Social pela USP, Ynaê Lopes dos Santos é professora de História das Américas na UFF. É autora dos livros Além da Senzala. Arranjos Escravos de Moradia no Rio de Janeiro (Hucitec 2010), História da África e do Brasil Afrodescendente (Pallas, 2017) e Juliano Moreira: médico negro na fundação da psiquiatria do Brasil (EDUFF, 2020), e também responsável pelo perfil do Instagram @nossos_passos_vem_de_longe.

O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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