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"A IA precisa ser desarmada": o Papa Leão XIV vê ameaça à Humanidade na corrida tecnológica

Em sua primeira encíclica, o Papa Leão XIV pediu uma regulamentação muito mais rigorosa da tecnologia de IA, especialmente no âmbito militar

26 mai 2026 - 11h06
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Na primeira publicação marcante de seu papado, o Papa Leão XIV abordou os recentes avanços na inteligência artificial, com foco na ameaça que ela representa para os trabalhadores, a justiça social e "a dignidade das pessoas".

Ao apresentar sua primeira encíclica papal, "Magnifica Humanitas" ("Humanidade Magnífica"), no Vaticano em 25 de maio, Leão XIV declarou: "A inteligência artificial precisa ser desarmada".

No documento, o papa escreve: "Desarmar não significa rejeitar a tecnologia, mas impedir que ela domine a Humanidade".

As encíclicas são documentos papais de excepcional importância que respondem às questões sociais mais urgentes da época. Normalmente redigidas como cartas a todos os bispos e arcebispos, elas se tornaram um veículo crucial para a divulgação da teologia e dos compromissos políticos da Igreja Católica Romana em todo o mundo.

O Papa Leão XIV assinando sua primeira encíclica em 15 de maio de 2026. Vídeo: Vatican News.

Leão XIV escolheu assinar sua primeira encíclica em 15 de maio de 2026, exatamente no aniversário da encíclica do Papa Leão XIII "Rerum novarum" ("Das coisas novas"). Essa famosa encíclica, que respondeu aos avanços tecnológicos da Revolução Industrial, tornou-se o documento fundamental de toda a doutrina social católica moderna.

De fato, o atual papa provavelmente escolheu o nome Leão devido ao renomado compromisso de Leão XIII com a justiça social.

Assim como a "Rerum novarum" respondeu à Revolução Industrial enfatizando os direitos dos trabalhadores e a dignidade do trabalho humano, também Leão XIV respondeu à explosão da tecnologia de IA enfatizando a importância da inteligência humana frente à inteligência artificial.

Em 1891, Leão XIII escreveu: "Os assalariados… devem ser especialmente cuidados e protegidos pelo governo".

Leão XIV agora faz apelos semelhantes aos governos mundiais sobre a IA: "É necessário estabelecer instrumentos regulatórios adequados, capazes de defender a justiça e conter os efeitos distorcedores do poder tecnológico".

Papa Leão XIII
Papa Leão XIII
Foto: The Conversation
Papa Leão XIII.Wikimedia

O atual papa segue uma longa tradição de envolvimento católico com novas tecnologias - desde as preocupações com o impacto da imprensa no século XV até o surgimento da internet mais de 500 anos depois.

A apresentação de Leão XIV foi precedida por um curta-metragem que justapôs imagens de papas anteriores com grandes inovações tecnológicas. Torres de rádio deram lugar a imagens de centros de banda larga; os primeiros computadores, a uma multidão de pessoas segurando seus smartphones na Praça de São Pedro, na Cidade do Vaticano.

Talvez o tema crucial desse vídeo tenha sido a conexão entre tecnologia e guerra. Imagens de aeronaves da Segunda Guerra Mundial foram intercaladas com o lançamento da bomba atômica, logo seguidas por imagens dos ataques de 11 de setembro.

Na encíclica, Leão XIV adverte: "A crescente facilidade com que sistemas de armas autônomos podem ser implantados torna a guerra mais 'viável' e menos sujeita ao controle humano".

Apelo ao desarmamento

Leão XIV não é o primeiro papa a abordar a ameaça potencial representada pela tecnologia de IA. Em janeiro de 2025, seu predecessor Francisco aprovou a nota doutrinária "Antiqua et nova" ("Antiga e nova") - que exortava a tecnologia de IA a "incluir os mais pequenos de nossos irmãos e irmãs, os vulneráveis e os mais necessitados".

O novo apelo de Leão XIV pelo desarmamento da IA não é uma exigência para interromper seu desenvolvimento, mas para regulamentar a IA de forma robusta, de modo que ela sirva apenas ao bem comum.

Nesse sentido, o papa traçou uma analogia com o movimento pelo desarmamento nuclear, sugerindo que tanto as tecnologias nucleares quanto as de IA devem ser desenvolvidas apenas para o bem da Humanidade e nunca utilizadas como armas.

Vídeo: Vatican News.

Entre os convidados a compartilhar suas reflexões sobre a encíclica de Leão XIV estavam Christopher Olah, o bilionário canadense e cofundador da empresa de IA Anthropic. A participação de Olah marca a primeira vez que um palestrante totalmente alheio aos círculos clericais ou teológicos foi incluído em tal apresentação.

A Anthropic está atualmente envolvida em uma disputa judicial com o governo dos EUA a respeito da aplicação militar de seus sistemas de IA.

A encíclica de Leão XIV ressalta suas preocupações com a escalada da guerra em todo o mundo, afirmando: "É importante reafirmar que a teoria da 'guerra justa', que tem sido usada com demasiada frequência para justificar qualquer tipo de guerra, está agora ultrapassada".

Olah ecoou as exigências de Leão XIV por maior justiça social em torno do uso da IA, afirmando: "O apelo de Sua Santidade pelo desarmamento é profundamente oportuno".

Ele pediu que pessoas que trabalham fora da área de ciência da computação contribuíssem para a governança e a ética da IA - pessoas "além dos incentivos" dos mercados financeiros "que podem ver o que nós, de dentro, não conseguimos ver".

Leão XIV respondeu a Olah dizendo: "Em nome da Igreja, aceito seu convite para caminharmos juntos, para ouvir e falar - e, juntos, encontrar o caminho para a Humanidade nesta era da inteligência artificial".

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

James Lorenz não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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