A difícil busca dos Estados do Golfo por uma saída na guerra entre Irã e EUA
Após sete meses de conflito entre EUA e Irã, as tensões afetam rotas vitais como o Mar Vermelho e o Estreito de Ormuz. Pressionado por ataques dos houthis, o governo saudita pediu intervenção militar a Donald Trump, que hesita em agir. Embora os Estados do Golfo temam um confronto direto e busquem a desescalada, as exigências iranianas e a falta de consenso entre Washington, Teerã e seus vizinhos travam uma saída política negociada, mantendo o cenário regional em um impasse diplomático incerto.
Quase sete meses após o início do conflito no Oriente Médio, uma solução política está longe de ser encontrada. Washington, Teerã e os países do Golfo têm ideias diferentes sobre o fim ideal para o confronto.Quase sete meses após o início da guerra, o conflito no Irã se espalhou para duas rotas marítimas estrategicamente importantes. Além do Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% do petróleo bruto e do gás natural liquefeito (GNL) do mundo, uma segunda rota fundamental para o comércio de energia também está sob pressão: o Mar Vermelho.
Os rebeldes iemenitas houthis, apoiados pelo Irã, intensificaram seus ataques à Arábia Saudita, visando cada vez mais a infraestrutura energética e as rotas de exportação que atravessam o Mar Vermelho.
Segundo o jornal The New York Times, o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, telefonou neste domingo (20/09) para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para solicitar, mais uma vez, a intervenção urgente dos EUA e o fim do rápido avanço do grupo.
Trump teria considerado ataques aéreos contra os houthis em determinado momento, mas depois abandonou a ideia. A emissora americana Fox News noticiou neste domingo que o republicano afirmou que os houthis concordaram em não atacar alvos dos EUA. O portal de notícias americano Axios também informou que Trump já havia rejeitado um pedido da Arábia Saudita para atacar os houthis na semana passada.
Entre o militarismo e a diplomacia
Em meio ao aumento dos preços da gasolina e do diesel e à conjuntura política interna - às vésperas das eleições de meio de mandato em 3 de novembro -, Trump tenta alcançar seus objetivos declarados na guerra com o Irã.
"O presidente Trump quer encerrar a guerra com o Irã partindo de uma posição que lhe permita afirmar que as capacidades nucleares e militares do Irã foram significativamente enfraquecidas, a liberdade de navegação foi restaurada e Teerã foi forçada a retornar à mesa de negociações", disse à DW a especialista em Irã, Fatemeh Aman.
Aman, que trabalhou para organizações como o Middle East Institute e o Atlantic Council, e para as emissoras Rádio Europa Livre/Rádio Liberdade (RFE/RL) e Voz da América, enfatiza, no entanto, que ainda é difícil discernir uma estratégia coerente para alcançar esse objetivo.
Uma lacuna entre a pressão militar e uma solução política ainda persiste. Os Estados Unidos impuseram custos militares e econômicos significativos ao Irã e parecem ter obtido progresso no enfraquecimento das capacidades militares do país. No entanto, isso ainda não resultou na rendição de Teerã nem em um acordo duradouro.
Nesta quarta-feira, Trump tem um encontro marcado com o presidente chinês, Xi Jinping, em Washington. A China é, de longe, a maior compradora de petróleo iraniano e uma importante parceira política de Teerã. Washington provavelmente discutirá os laços econômicos e financeiros da China com o Irã durante o encontro e espera que Pequim use sua influência sobre Teerã - particularmente em relação à segurança da navegação no Estreito de Ormuz.
Ao mesmo tempo, Trump sinalizou sua disposição em se encontrar com o presidente iraniano Massoud Peseshkian, que está em Nova York para a Assembleia Geral das Nações Unidas. Representantes importantes dos países do Golfo também são esperados nos EUA nos próximos dias. Segundo o Axios, Trump pretende consultar representantes de vários países do Golfo sobre a guerra com o Irã à margem da Assembleia Geral da ONU.
Nações do Golfo não desejam nova escalada
Ainda não houve consenso entre o Irã e seus vizinhos árabes no Golfo. Uma reunião planejada entre o Irã, os Estados do Golfo e o Iraque foi cancelada na semana passada. O cancelamento pode estar relacionado aos recentes ataques dos houthis à Arábia Saudita.
"À primeira vista, parece haver poucos pontos em comum entre o Irã e os Estados do Golfo", disse Farzan Sabet, especialista em Oriente Médio do Instituto de Altos Estudos Internacionais e do Desenvolvimento de Genebra, à DW. "Mas, nos bastidores, existe pelo menos um interesse compartilhado em evitar uma escalada militar ainda maior."
Os Estados do Golfo reconhecem que dificilmente vencerão um confronto militar direto com o Irã. Portanto, geralmente preferem a desescalada e uma redução pragmática das tensões com Teerã.
Um acordo, no entanto, não está à vista no momento. Em particular, as exigências do Irã por maior controle sobre o Estreito de Ormuz vão longe demais na perspectiva dos Estados do Golfo.
Para piorar a situação, a guerra no Iêmen limita as possibilidades de reaproximação. A Arábia Saudita, por exemplo, dificilmente estará disposta a fazer concessões enquanto o país estiver sob pressão dos ataques dos houthis.
Abordagem dupla
Uma coalizão dos países do Golfo permanentemente hostil e apoiada pelos EUA seria estrategicamente custosa para Teerã, afirma Aman. Portanto, o Irã poderia adotar uma estratégia dupla: resistir a uma arquitetura de contenção liderada por Washington e, simultaneamente, oferecer aos Estados do Golfo um modelo alternativo de segurança regional baseado em compromisso e diálogo. Afinal, esses países não são apenas rivais, mas também vizinhos do Irã - e nenhum dos lados pode mudar essa realidade geográfica.
De acordo com o oficial de segurança iraniano Mohsen Rezai, Teerã exige que os EUA cessem os combates em todas as frentes. O Irã também exige a liberação de ativos iranianos congelados e o fim do bloqueio naval. As negociações com o Catar e Omã já estariam em andamento, enquanto Teerã aguarda uma resposta do presidente dos EUA, Donald Trump.
Contudo, ainda é incerto se esses canais diplomáticos serão capazes de pôr fim à guerra, uma vez que Washington, Teerã e os Estados do Golfo continuam a perseguir objetivos diferentes.
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