4º Congresso Abramilho reforça protagonismo do milho e do sorgo em meio a pressões econômicas, geopolíticas e regulatórias
Evento em Brasília consolida cadeias produ4vas como estratégicas para segurança alimentar, bioenergia e soberania econômica do Brasil
Brasília voltou a ocupar posição central no debate sobre o futuro do agronegócio brasileiro nesta terça-feira (13), durante o 4º Congresso Abramilho, realizado no Unique Palace. Reunindo autoridades do governo federal, parlamentares, representantes internacionais, produtores rurais, lideranças setoriais e especialistas, o encontro consolidou-se como uma das mais relevantes plataformas nacionais de discussão sobre os desafios e oportunidades das cadeias de milho e sorgo.
Com o tema "Milho: o grão que revoluciona o mundo", o congresso ampliou o debate para além da produção agrícola, colocando o cereal como peça-chave em temas como segurança alimentar global, bioenergia, inovação tecnológica, crédito rural, comércio exterior, geopolítica e políticas públicas.
Na abertura, o presidente da Abramilho, Paulo Bertolini, destacou o momento decisivo vivido pelo setor, que combina potencial de expansão industrial com obstáculos crescentes relacionados a financiamento, custos elevados e barreiras comerciais internacionais. "O propósito da Abramilho sempre foi trazer todos os elos dessa cadeia para um debate profundo, deixando as portas abertas para encontrarmos caminhos e alternativas, especialmente em momentos extremamente desafiadores", afirmou Bertolini.
Crédito rural e Plano Safra expõem urgência de modernização
O painel de abertura, com participação do vice-presidente Geraldo Alckmin, do ministro da Agricultura André de Paula e de lideranças da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), revelou uma preocupação comum: o atual modelo de financiamento rural enfrenta esgotamento diante do novo cenário econômico.
Com juros elevados, endividamento crescente, retração nos preços das commodities e aumento dos custos de produção, o setor defendeu mudanças estruturais no Plano Safra. Geraldo Alckmin reconheceu entraves no acesso ao crédito e apontou novos instrumentos de garantia como alternativa. "Às vezes você tem crédito e juros razoáveis, mas não consegue tomar por falta de garantia. O fundo garantidor pode ser uma boa alternativa."
O vice-presidente também reforçou o papel crescente do milho na matriz energética nacional, especialmente no avanço do etanol de milho. "Tudo está se encaminhando para passarmos de 30% para 32% o percentual de etanol na gasolina. Etanol de milho é um sucesso. Traz ganhos ambientais e econômicos."
Já o ministro André de Paula sinalizou apoio institucional às pautas do setor. "O que posso garantir é que vou defender as pautas do setor junto ao Governo Federal. Mas essa é uma questão transversal."
"Tempestade perfeita" pressiona produtores, alerta Tereza Cristina
A senadora Tereza Cristina apresentou uma das avaliações mais contundentes do evento, classificando o cenário atual como altamente adverso para os produtores brasileiros. "Estamos em uma 'tempestade perfeita'. Estamos vivendo uma crise, só não sei se no começo ou no meio." Segundo a parlamentar, o agro enfrenta simultaneamente conflitos internacionais, juros altos, queda de rentabilidade, custos elevados com fertilizantes e defensivos, além de gargalos logísticos.
Ela também defendeu mudanças profundas nas políticas de apoio ao setor, especialmente no seguro rural. "Não dá para deixar a agricultura brasileira trabalhar sem seguro rural."
Pedro Lupion critica modelo atual e reage a pressões da União Europeia
O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, Pedro Lupion, adotou tom firme ao criticar o atual desenho do Plano Safra. "O modelo atual do Plano Safra está completamente vencido. Está fora do tempo, fora do propósito." Lupion defendeu um planejamento plurianual, inspirado em modelos internacionais como a Farm Bill dos Estados Unidos, para oferecer previsibilidade ao produtor brasileiro.
No campo internacional, criticou duramente exigências impostas pela União Europeia, classificando-as como barreiras protecionistas. "Isso é uma questão protecionista da Europa." Ao abordar a legislação ambiental e a moratória, reforçou "A produção brasileira cumpre todos os requisitos, cumpre uma legislação ambiental que ninguém no mundo cumpre."
Geopolítica e comércio internacional ampliam preocupações
As recentes pressões sanitárias e ambientais impostas por mercados internacionais, especialmente europeus, ampliaram o debate sobre soberania comercial e diversificação de destinos para exportações brasileiras. Grace Tanno, do Ministério das Relações Exteriores, resumiu a competitividade brasileira sob perspectiva estratégica: "Somos alvo porque somos muito bons. Se fôssemos ruins, ninguém se importaria."
Já Luís Rua, secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, reforçou o foco na expansão de mercados. "Onde houver espaço para colocar o milho, seja na forma de DDG, seja na forma de proteína de frango ou de suíno, vamos buscar esse espaço."
China fortalece posição como parceira estratégica
A participação do embaixador chinês Zhu Tiingqiao evidenciou o peso crescente da relação sino-brasileira para segurança alimentar, inovação e expansão comercial. "China e Brasil têm alta complementaridade no setor agrícola." A aproximação entre os países foi tratada como fundamental para acelerar biotecnologia, produtividade e competitividade global.
Biotecnologia, inovação e fertilizantes entram no centro da estratégia
Os painéis técnicos reforçaram que o futuro da competitividade brasileira dependerá da expansão de investimentos em ciência, genética, biotecnologia e soluções nacionais para reduzir a forte dependência de fertilizantes importados.
A biotecnologia foi apontada como ferramenta essencial para redução de custos; ganhos de produtividade; segurança alimentar; soberania tecnológica e menor vulnerabilidade geopolítica. Hoje, o Brasil já ocupa posição de destaque como segundo maior adotante mundial de biotecnologia agrícola.
Etanol de milho e sorgo ampliam nova fronteira econômica
A industrialização do milho, especialmente por meio da produção de etanol, foi tratada como uma das principais transformações econômicas do agro brasileiro. Paulo Bertolini destacou a mudança estrutural promovida pela bioenergia no mercado interno.
O sorgo também ganhou relevância como alternativa estratégica. "O sorgo tira risco do produtor quando ele perde a janela ideal de plantio. É mais tolerante à seca e tem custo menor." A integração entre milho, sorgo, bioenergia e proteína animal foi apresentada como uma nova fronteira de crescimento para o país.
Milho deixa de ser commodity e assume papel geopolí6co
Ao fim do congresso, a mensagem foi clara: milho e sorgo ultrapassaram o papel tradicional de commodities agrícolas para se consolidarem como ativos estratégicos da segurança alimentar, energética e econômica nacional.
Em um ambiente global marcado por protecionismo, conflitos internacionais, pressões regulatórias e transformação energética, o setor demonstrou que o futuro da agricultura brasileira exigirá previsibilidade econômica, inovação tecnológica, soberania produtiva e articulação política robusta.
Mais do que grãos, milho e sorgo passam a ocupar posição central na arquitetura do agro moderno brasileiro.
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