Script = https://s1.trrsf.com/update-1789154714/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Oferecimento Logo do patrocinador
Publicidade

Tecnologia ajuda mulheres em risco de violência a tomar decisões sobre sua segurança

Projeto Eu Decido testa aplicativo que dá apoio à decisão e planejamento de segurança para mulheres brasileiras

14 set 2026 - 11h04
(atualizado às 11h16)
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
Criado por pesquisadores da UFPR e parceiros, o projeto "Eu Decido" desenvolveu uma plataforma para ajudar mulheres em risco de violência doméstica a tomarem decisões seguras de forma autônoma. O aplicativo, que não exige download para garantir o sigilo, mapeia quase 200 mil serviços de apoio no Brasil e oferece planos de fuga e autoavaliação de risco. Em fase de testes com voluntárias de todo o país, a ferramenta busca fortalecer o suporte às vítimas e embasar futuras políticas públicas.
Com uma equipe multidisciplinar que reúne diversas instituições espalhadas pelo Brasil, o projeto Eu Decido tenta garantir segurança e ajudar mulheres em situação de violência a buscar ajuda. Ilustração: Lorena Mendonça/Projeto Eu Decido
Com uma equipe multidisciplinar que reúne diversas instituições espalhadas pelo Brasil, o projeto Eu Decido tenta garantir segurança e ajudar mulheres em situação de violência a buscar ajuda. Ilustração: Lorena Mendonça/Projeto Eu Decido
Foto: The Conversation

Os números da violência contra as mulheres têm explodido no Brasil. E o maior risco para as mulheres está dentro de casa: oito em cada dez casos de feminicídio no país são cometidos por parceiros ou ex-companheiros.

Em resposta a esses dados alarmantes, temos trabalhado, desde 2018, no projeto Eu Decido, uma plataforma de apoio contínuo à tomada de decisões e ao planejamento da segurança. A tecnologia permite às mulheres, de forma privada e segura, avaliar sua situação, acessar informações confiáveis, identificar possibilidades de apoio e refletir sobre suas opções.

O aplicativo desenvolvido pelo projeto ajuda as mulheres vítimas ou em perigo de violência a se prepararem para sair de casa emergencialmente, deixando, por exemplo, uma mochila pronta, e orientando-as sobre para onde ir, sozinhas ou com crianças. Ele também auxilia na preparação, caso elas tenham que acionar alguém no meio da noite ou ir até um equipamento público de Saúde ou Assistência Social, delegacias de polícias ou hospitais de referência em violência mais próximos dela.

A plataforma dispõe de um mapa de cada cidade brasileira com os serviços da rede de apoio, com seus contatos de telefone clicáveis. São quase 200 mil estabelecimentos marcados no aplicativo. Basta autorizar o compartilhamento da sua localização e navegar pelo mapa.

A ideia primordial do Eu Decido, como o próprio nome diz, é que a mulher decida o que fazer de forma autônoma. Deve partir dela a opção de buscar ajuda profissional.

Adaptação à realidade nacional

O Eu Decido é uma adaptação, para o contexto brasileiro, de plataformas internacionais voltadas ao apoio à tomada de decisões e ao planejamento da segurança de mulheres em situação de violência. Esse processo não se limitou à tradução literal dos conteúdos: houve um esforço cuidadoso de adaptação cultural e linguística, buscando utilizar conceitos, expressões e formas de comunicação mais familiares às mulheres brasileiras.

A escolha dos termos e a forma de apresentar as informações foram discutidas e aprimoradas a partir das contribuições das próprias mulheres e de profissionais junto ao comitê consultivo do projeto, composto por representantes de diferentes regiões do país, com perfis socioeconômicos e culturais diversos. Ao longo desse percurso, mais de 130 pessoas foram ouvidas, entre mulheres e profissionais de diferentes áreas, por meio de entrevistas e grupos focais.

Para aumentar a acessibilidade e amplitude do projeto, há audiodescrição para não videntes. E também textos — sempre numa linguagem acessível e acolhedora — em português, espanhol ou inglês, para incluir mulheres imigrantes que estejam em situação de vulnerabilidade para a violência de gênero.

E, para garantir a segurança das mulheres, não é obrigatório baixar o aplicativo. É possível acessar as informações também através da página do projeto na internet, sem deixar nada salvo no celular.

Ampla rede de profissionais

O Eu Decido vem sendo desenvolvido por uma equipe diversa, multidisciplinar e interinstitucional, que reúne pesquisadores, profissionais de saúde e especialistas nas áreas de violência de gênero, saúde, justiça e políticas públicas.

Criado por pesquisadoras e pesquisadores do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o projeto já estabeleceu parcerias com diversas instituições brasileiras, como a Casa da Mulher Brasileira, serviços de Atenção Primária à Saúde do Sistema Único de Saúde (SUS), Fiocruz Bahia, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Há ainda apoio e participação de instituições dos Estados Unidos, como a Emory University e a Florida State University.

Essa rede reúne diferentes conhecimentos e experiências, fortalecendo o desenvolvimento de uma ferramenta baseada em evidências e adaptada às diferentes realidades das mulheres no Brasil.

Aplicativo em teste

Atualmente em sua versão 2.0, o aplicativo está na fase de testes, conhecida como "avaliação da intervenção", que inclui testar sua usabilidade Nossa intenção é contar com a participação de 500 mulheres de diferentes regiões do Brasil, que serão acompanhadas ao longo de 6 meses na pesquisa.

Ainda é possível participar da pesquisa e há apenas dois requisitos para isso: ter 18 anos ou mais e morar no Brasil. A pesquisa respeita a diversidade de identidades, trajetórias e condições de vida, e é aberta a mulheres cis e trans, de diferentes idades, origens, condições sociais e econômicas e estados civis, incluindo mulheres indígenas, quilombolas e com deficiências.

A participação consiste em utilizar a plataforma por pelo menos três vezes durante seis meses. Esse acompanhamento ao longo do tempo permitirá entender como a situação das participantes pode mudar durante esse período.

A participante acessará a plataforma e responderá a alguns instrumentos de autoavaliação sobre temas como saúde mental, diferentes formas de violência e risco de feminicídio. A partir dessa autoavaliação, ela consegue definir um plano de segurança pessoal.

Além de oferecer ferramentas para o planejamento de segurança, o app foi desenvolvido com base nos princípios da autonomia, do sigilo e da confidencialidade, reduzindo barreiras como o medo do julgamento e fortalecendo o acesso à rede intersetorial de enfrentamento à violência.

Diferentemente de abordagens centradas exclusivamente na mudança de comportamento individual, o aplicativo integra estratégias de reconhecimento da violência, planejamento de segurança e fortalecimento do acesso à rede de serviços.

Além de orientar e instrumentalizar as mulheres em situação de vulnerabilidade, o aplicativo também poderá subsidiar gestores e servidores da saúde na execução de políticas públicas para enfrentar esse cenário. Com o aprimoramento científico e estratégico do projeto, a plataforma poderá, ao final da pesquisa, gerar evidências capazes de subsidiar sua incorporação às políticas públicas de enfrentamento à violência contra as mulheres.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Marcos Claudio Signorelli recebe financiamento do CNPq e é Bolsista Produtividade em Pesquisa da Fundação Araucária.

Acácia Mayra Pereira de Lima é Bolsista de Desenvolvimento Tecnológico Industrial do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) - Nível A

Aline de Oliveira Gonçalves e Silvia Calciolari não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderiam se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra