‘A comunidade LGBT ensina o Brasil a amar’, diz o escritor e pioneiro do movimento LGBT+ João Silvério Trevisan
O livro do autor 'Meu irmão, eu mesmo' é tema do Clube de Leituras do CCBB neste mês de setembro
"Não se pode negar a dor. Ninguém gosta do que dói, ninguém gosta da morte, mas ninguém pode negar a experiência da dor e ninguém pode negar a experiência da morte", diz João Silvério Trevisan, de 82 anos, sobre a motivação que o tem levado há uma década a se dedicar à escrita autobiográfica. Com dois livros já publicados, o escritor, referência no movimento LGBT+, recorda a relação conturbada com o pai, marcada pela rejeição e pelas agressões por ser homossexual, a perda do irmão e reflete sobre como a comunidade, marcada historicamente pela violência e pela exclusão, tem uma lição a oferecer ao país: “A comunidade LGBT ensina o Brasil a amar”.
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Essa relação com a dor e com a perda ganha contornos mais pessoais com Meu irmão, eu mesmo (2023) é o livro do mês no Clube de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo (CCBB), que promove também um encontro presencial com o autor nesta quarta-feira, 9. Na obra, o escritor revisita a relação com o irmão, Cláudio, em um romance sobre amizade, amor e perda, e narra o luto que ainda carrega desde a morte dele, decorrente de complicações de um câncer linfático descoberto no fim dos anos 1990. Foi também nessa época que Trevisan recebeu o diagnóstico de HIV, em meio à pandemia de Aids e ao estigma de que o vírus representava uma sentença de morte.
Em entrevista ao Terra, o autor diz que sentia uma urgência emocional de falar do irmão, um dos três grandes amores de sua vida. "É um privilégio ter tido esse irmão", inicia.
"Descobri ser HIV positivo ao mesmo tempo em que o meu irmão, que nunca tinha ido para um hospital, aparece com um câncer linfático totalmente inesperado. Um câncer linfático com 80% de chance de tratamento. Um câncer linfático benigno. E ele ficou nos 20%... Naquele momento, quem devia morrer era eu por conta do HIV. Não havia tratamento, eu estava ali condenado à morte", explica o autor, ao relembrar a inversão de destinos que marcou aquele momento de sua vida.
Trevisan era o primogênito de quatro irmãos. Ainda assim, era em Cláudio que encontrava uma espécie de figura paterna, embora muito diferente do pai que ele e os outros três irmãos tiveram. A relação com o pai foi o tema central de seu primeiro livro autobiográfico, Pai, Pai (2017).
"Meu pai foi o cara que me rejeitou por ser homossexual, por ser o filho maricas, que não gostava de futebol, que gostava de escrever, de brincar de cirquinho, de brincar com as primas. Ele achava um absurdo, porque tinha muita vergonha de mostrar esse filho mais velho para os irmãos dele, que eram todos muito machistas", pontua.
Se a relação com o pai foi marcada pela rejeição, Claudio, em contraste, foi de acolhimento. "Quando eu contei da minha homossexualidade para esse irmão, ele me abraçou comovidíssimo e me disse: 'Se já te amava, agora amo ainda mais, porque eu sei a barra que você encontra pela frente e como você é um vencedor, como você é um lutador'", recorda.
Força-motriz de sua relação com a literatura, a dor é algo que João Silvério Trevisan identifica como presente desde a infância, em grande parte por conta da relação de agressividade e rejeição que tinha com o pai. “Era um menino com fantasias suicidas. A vida não tinha o menor sentido para mim. Eu levava surras, tapas e pontapés do meu pai, não tinha a menor ideia do porquê. Não foi brincadeira. É como se eu tivesse sido jogado num compartimento em que a dor estava lá presente e eu tinha que encará-la. Acho que sou, por exemplo, um depressivo crônico.”
A comunidade LGBT
Com os livros autobiográficos, o último ainda a ser publicado, e as novas edições de Devassos no Paraíso, obra que resgata a história da comunidade LGBT no Brasil, a literatura de João Silvério Trevisan tem alcançado novos leitores. Ainda assim, o autor sente falta de um reconhecimento maior por sua produção ao longo de décadas, sobretudo por seus trabalhos de ficção.
Vencedor do Prêmio Jabuti, considerado um dos principais da literatura brasileira, um dos fundadores do primeiro coletivo do Brasil para os direitos LGBTs e do Lampião da Esquina, jornal alternativo voltado à comunidade LGBT durante a ditadura militar, Trevisan diz ser mais apreciado por gerações mais jovens do que por seus contemporâneos.
"Fui muito ignorado e apagado nesse país. Várias vezes por semana, nos mais diferentes lugares, me aparecem pessoas que são LGBTs e vêm me falar: 'Você salvou a minha adolescência. Se não fosse você, eu não estaria aqui'. Você não pode imaginar o que significa ouvir isso depois de ter sido ignorado pela academia, pela mídia e pela minha sociedade."
O escritor e ativista também enxerga uma evolução na própria comunidade LGBT. “Nunca vi a comunidade tão consciente politicamente. Isso, para mim, é um grande consolo. Aconselho as pessoas que, se não acreditam nisso, vão a uma Parada para ver qual é a intensidade da presença daquelas pessoas. É uma conquista que tem a ver com o amor das pessoas. Nós somos a única comunidade, o único segmento brasileiro a lutar pelo direito de amar. A Parada é uma grande manifestação que ensina e está ensinando o Brasil a amar.
Trevisan vivenciou momentos conturbados para a comunidade LGBT no Brasil, como a pandemia de Aids e a ditadura militar, período em que se exilou no exterior após ter seu filme, Orgia ou o homem que deu cria, censurado. Hoje, o escritor reconhece que há um discurso conservador em voga, mas vê o cenário de maneira diferente de como era no passado e considera a comunidade mais fortalecida para continuar lutando pelo que já conquistou. “Tem uma guerra cultural, mas acho isso saudável. Nós não estamos brincando. Os direitos que conquistamos não foram para brincar, porque são direitos que têm a ver com a nossa existência”, analisa.
"A comunidade está muito mais consciente politicamente. Ela tem medo, continua insegura, porque está sempre vivendo num estado de exílio. É uma sociedade que não nos aceita e deixa o tempo todo claro isso. Para que a gente tenha algum tipo de presença nessa sociedade, temos que dar murro na porta, temos que chutar a porta para que se abra”, conclui Trevisan.”
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