Jornalista de SP é ameaçado por loja do RJ e tem foto divulgada como suspeito de golpe
Dono da loja pegou o nome que estava no falso comprovante do Pix, que era parecido com o do jornalista, e supôs que ele era o golpista
O jornalista Lucas da Silva Ferreira Veloso, de 31 anos, teve sua imagem divulgada como suspeito de um crime após os donos de uma loja de Duque de Caxias (RJ) sofrerem um golpe. Ele relata ainda que foi ameaçado pela loja e garante que não foi ele quem deu o calote nos comerciantes, até porque não estava na cidade carioca quando a situação ocorreu. Dono do estabelecimento confessou que chegou ao rapaz somente pelo nome parecido do comprovante falso de pagamento e 'parcial' reconhecimento da foto dele.
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Em entrevista ao Terra, Veloso conta que, na manhã da última quinta-feira, 19, o dono do estabelecimento de venda de eletrônicos o seguiu no Instagram. Como era uma pessoa que ele não conhecia e sua conta é aberta, não estranhou. “Segui minha vida”, explica. Ela também percebeu algumas ligações, mas não deu muita bola, pois estava trabalhando.
No entanto, na parte da tarde, alguns amigos entraram em contato para falar que sua foto estava circulando em duas contas, a de Marcus Vinicius Silva e de sua esposa, Bruna Ribeiro. Foi então que percebeu do que se tratava. As postagens diziam: "Quem souber/conhecer ou ver ele em algum lugar, nos acione! Está dando golpe em Duque de Caxias", com a foto que está na CNH do jornalista (veja abaixo).
“Eles [donos da loja] mandaram entrar em contato comigo, me ligaram de manhã, dizendo que eles tinham sofrido um golpe, eles eram vítimas de uma quadrilha no Rio de Janeiro, enfim, e que meus dados estavam circulando. Eles queriam Pix. Eles falaram: ‘você está envolvido de alguma forma, então ressarce a gente’”, relembra.
Inicialmente, o jornalista até pensou que estava sendo vítima de um golpista. Enquanto perguntavam se os aqueles eram seus dados, conforme relata, foi confirmando para tentar obter mais informações de como tinham conseguido informações sobre ele. Então, ele soube que foram realizadas na loja a compra de dois iPhones, no valor total de R$ 8.172, e dois comprovantes de Pix falsos foram enviados aos comerciantes. Ele até chegou a falar que ia falar com sua tia, que seria a suposta compradora dos aparelhos.
A golpista se passou por Adriana, que se passou por tia de uma das pessoas que fez a transferência falsa: Lucas Ferreira Veloso, conforme estava nos recibos da transferência. Com esse nome, os donos chegaram aos dados dele, como CPF, nome da mãe, do pai, endereço, e ao seu nome completo, que tem o ‘da Silva’ como sobrenome ainda (veja abaixo).
Além disso, o proprietário da loja disse que o motoboy contratado por aplicativos de entrega teria confirmado pela foto que se tratava do jornalista de São Paulo. Ele chegou a ser ameaçado. Nas conversas, os donos dizem que estavam com contatos de emissoras para denunciá-lo e um com um delegado.
Em uma delas, dizem: “E aí cara, que horas você vai fazer o Pix? Já estamos no teu rastro... tua foto vai para na TV e aí vamos achar você e sua quadrilha. Sei que você deve ter feito isso com muita gente e a galera deixou para lá. Mas você mexeu com gente errada, irmão. Tu não vai querer ficar na gaiola por causa de 2 iPhones, né? Tu vai querer que a gente chegue na [nome da mãe de Veloso]. Vai querer expor tua família nisso?”.
O jornalista diz que não pensava em tomar nenhuma providência mais grave, só registrar o boletim de ocorrência, mas quando viu a proporção nas redes, ficou temeroso, já que Bruna tinha mais de 40 mil seguidores e a publicação ficou no ar por horas.
“Me pegou bastante pelo fato de que eu sou uma pessoa negra. Não sei a dimensão da internet, aonde isso podia chegar. Ela depois fez uma live dizendo que não me acusou. Nas imagens que ambos compartilharam estava um som de polícia e minhas fotos. Eles já tinham, já sabiam minhas informações, estavam nas minhas redes sociais, e [disseram] que meu cabelo estava menor e que eu estava dando o golpe em Duque de Caxias. E eu moro em São Paulo”, aponta.
Ele reforça que passou pelo Rio no carnaval, mas não em Duque de Caxias. Ele até levantou a hipótese de seus dados terem vazado na internet, já que o casal conseguiu facilmente suas informações. “Um dos prints tem meu signo chinês, quantos dias faltam para o meu próximo aniversário”, descreve com indignação.
Foi então que decidiu expôr a situação nas redes e pedir ajuda para que as publicações caíssem. Ele chegou a entrar em contato com a Meta, empresa que administra o Instagram, para obter alguma ajuda, mas foi direcionado para as diretrizes da plataforma, sem que nada fosse feito. Foram os donos que apagaram as redes sociais da loja e as publicações depois de entender do que se tratava. O Terra solicitou à empresa informações sobre o caso, mas não teve retorno até esta publicação.
O rapaz afirma ainda que para além de ter a sua imagem exposta como golpista, ainda tem a questão racial e do racismo da qual sofre desde sempre. Ele desabafa que os comerciantes pressuporam que ele era um criminoso sem confirmar e que não sabe como isso pode impactar a sua vida daqui para a frente.
“Os cara, numa irresponsabilidade, mesmo que eles fossem vítimas, eles foram vítimas supostamente, por exemplo, desse caso, me expuseram e é muito mais fácil, no país que a gente vive, que é tão racista, ser negro e não vão perguntar pra mim, se eu sou inocente”, aponta.
O outro lado
Marcus conversou com a reportagem e confirmou o contato que fez com o jornalista e também a publicação da foto, mas negou que fez ameaças. Ao ver o print no qual sua esposa ameaçava chegar até a família do rapaz, ele afirmou que ela não estava com ele no momento. “Devia estar desesperada, não sei”, pondera.
Ele explicou que o funcionário fez a venda sem confirmar se o dinheiro havia caído na conta. O dono da loja também confirmou que Veloso, no início, disse que era ele quem fez a compra e até que chegou a falar que faria os Pix, versão também relatada pelo rapaz à reportagem. Ao ser questionado como chegou ao jornalista, o comerciante afirmou que foi só pelo nome no comprovante de um dos Pix e que um amigo levantou as informações.
“Não fui nem eu que consegui fazer isso, foi um amigo. Ele falou: 'deixa eu ver. ó, cheguei nesse CPF aqui. O CPF dá nele'. No outro dia eu consegui falar com o motoboy”, explica. O entregador, segundo Marcus, foi quem disse que a pessoa que recebeu os aparelhos, que era diferente da que pediu a corrida, era a mesma da foto do jornalista de São Paulo.
"Ele falou: 'Foi esse aí mesmo. Tenho 70% de certeza que foi ele, é muito igual. Só está com o cabelo mais baixo'. E realmente, pela foto que a gente tinha, o cabelo dele hoje parece estar um pouco mais baixo”, declara.
Segundo ele, querendo resolver o problema, a esposa dele publicou em seu perfil, já que tem bastante seguidores, em uma ato de “desespero”. “Eu tenho que pagar R$ 8 mil para fornecedor, estou devendo os dois golpes que eu tomei. A gente está desesperado”, afirma.
O comerciante alega ainda que fez a publicação porque quando falou com Veloso, ele disse que faria o Pix. “Como é que alguém me acusa de algo, eu não sou culpado e falo que vou pagar e peço desculpas?”, questiona. “Na minha mente, o cara se assumiu. Ele viu que foi exposto e quer resolver o problema dele para a cara sumir."
O dono do estabelecimento também declarou está sendo acusado de racismo e que recebeu ameaças. “Ele estava achando que era um golpe ou não, e do mesmo jeito eu estou achando que ele me um golpe ou não. E até agora eu não sei se ele me deu um golpe ou não. Eu estou tentando acreditar naquilo que os outros estão falando. Só que os outros que estão falando, eu não conheço”.
Assim como Marcus registrou o caso como estelionato, Lucas registrou o caso na delegacia online do Rio de Janeiro. A reportagem pediu mais informações da Polícia Civil sobre o caso, mas não teve retorno até o momento.