‘Aquele parabéns nunca mais vou escutar’: mãe que perdeu o filho em meio aos ataques do PCC e soube da notícia pelo rádio
Débora Maria busca, desde 2006, a responsabilização do Estado pela morte de seu filho, assassinado por policiais
Na manhã do dia 15 de maio de 2006, por volta das 8h, Débora Maria da Silva, hoje com 67 anos, recebeu o telefonema de um policial, amigo da família, avisando sobre o toque de recolher. “Ele falou que era para avisar para as pessoas de bem não ficar na rua, porque quem estivesse, era inimigo da polícia”, relembra. “Ele não imaginava que a noite matariam o meu filho”.
Nem ela imaginava, apesar de ter pressentido que algo ruim aconteceria. A morte de Edson Rogério Silva dos Santos, aos 29 anos, faz parte da retaliação subsequente das forças policiais e grupos de extermínio aos ataques promovidos pela facção Primeiro Comando da Capital (PCC), entre os dias 12 e 21 daquele ano, em todo o Estado de São Paulo.
Pouco tempo antes de ser morto com cinco tiros --três na região do tórax e abdômen pela frente, dois abaixo da cintura por trás-- no Morro da Nova Cintra, em Santos, no litoral de São Paulo, Rogério, como era chamado pela família, passou na casa da mãe para buscar um antibiótico, parte do tratamento de uma cirurgia dentária, feita há poucos dias.
Antes de sair, a mãe o avisou: “Filho, cuidado com a sua vida vida, fica aqui”, lembra de ter dito ao rapaz, que negou o convite, pois não havia entregado o atestado e precisava trabalhar no dia seguinte.
Segundo o relato de Débora, o gari foi morto no intervalo entre às 22h30 e 22h45. Ele havia ficado sem gasolina na moto e parou em posto na Avenida Nossa Senhora de Fátima para abastecer, mas devido ao toque de recolher, o estabelecimento estava fechado. Então, ele atravessou a rua e ligou para um amigo, pedindo socorro.
O amigo chegou e observou de longe Rogério ser abordado por policiais. Apesar de ter cumprido pena por roubo aos 18 anos, ocasião na qual a mãe alega que ele apanhou para assinar o flagrante mesmo sendo inocente, ele disse ao policiamento que era trabalhador e estava apenas precisando abastecer sua moto. “Você viu, caras falaram que se eu morrer, eu sou ladrão”, disse o rapaz ao amigo depois que as viaturas partiram.
Em seguida, o gari pegou a moto da testemunha e seguiu para buscar um pouco de gasolina. Foi no trajeto até o próximo posto, na Rua Torquato Dias, quando ele foi alvejada cinco vezes. O rapaz chegou a ser encaminhado para o Pronto-Socorro da Zona Noroeste, mas não resistiu.
De acordo com o relatório Violência de Estado no Brasil: uma análise dos Crimes de Maio de 2006, do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), de 2019, a denúncia aponta que a ficha de antecedentes criminais do jovem foi consultada 20 vezes entre às 23h53 do dia 15 até às 17h22 do dia 16 no Sistema de Identificação Civil e Criminal da Secretaria da Segurança Pública.
“Conforme ressaltado pelo defensor Antonio Maffezoli, uma prática típica de grupos de extermínio no Brasil é assassinar pessoas com antecedentes criminais, e Rogério tinha uma condenação por roubo em 1997 inteiramente cumprida”, aponta o relatório.
Débora só soube da morte do filho pela manhã, ao ligar o rádio e ouvir em um programa policial.
"O locutor falou que houve uma matança na região e ele ia dar por região e eu fiquei olhando assim, tentando escutar, porque eu já estava com o pressentimento. Quando ele saiu de casa, eu não dormi mais. Fiquei escutando para ver se conhecia alguém. O terceiro da lista era meu filho”, relembra.
Refletindo sobre esse momento, a mãe afirma que é “uma bomba de bomba de Hiroshima” na vida de qualquer mulher que tenha filho. “Eu não acreditava naquilo que eu estava escutando”, afirma. Durante o velório, diversas viaturas policiais ficaram passando em frente ao local, cantando pneus e dirigindo em alta velocidade, numa espécie de intimidação aos presentes.
Luto virou luta
De acordo com o relatório do CAAF, em 19 de junho de 2008, o Ministério Público de São Paulo pediu o arquivamento do caso. O promotor Octavio Borba de Vasconcellos Filho definiu débora como “incansável mãe”, declarando, por fim, “não vislumbrar nenhuma outra diligência a ser empreendida para uma melhor elucidação dos fatos”. Ou seja, segundo Débora, o filho foi morto por policiais, mas o Estado nunca reconheceu.
Ao se juntar com outras mães que também perderam seus filhos no que ficou conhecido como Crimes de Maio, Débora fundou o movimento independente Mães de Maio. Foi assim que ela transformou o luto em luta e tenta até hoje, 20 anos depois, que a responsabilização pela morte de Rogério e de outras tantas vítimas. Ao todo, 59 agentes públicos e 505 civis foram mortos entre os dias 12 e 20 de maio. Deste total, grande parte deles eram jovens, negros e periféricos.
Algumas mães conseguiram uma indenização, mas não foi o caso da pesquisadora. Ela recebe uma pensão vitalícia, porque a Justiça reconheceu que o filho dela trabalhava e foi morto em meio os conflitos de 2006. No entando, o reconhecimento de que a Polícia Militou o executou ou a indenização direta de reconhecimento do Estado nunca aconteceu.
Uma ação civil pública sobre o tema tramita no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para que haja, além da responsabilização, também o reconhecimento dos Crimes de Maio como graves violações de direitos humanos.
"Aquele parabéns que meu filho cantou para mim, eu faço aniversário no dia 10 de maio, eu nunca mais vou escutar. Isso é o mais torturador. Levo a vida assim, não querendo mais comemorar anos de vida, mas anos de luta. Até a comemoração do ano de vida, o Estado tirou de mim com a vida do meu filho”, desabafa.
Com o homicidio que mudou para sempre a vida da ativista, Débora não só criou o movimento, mas se tornou pesquisadora, ajudando em vários trabalhos científicos sobre o tema, além de discutir a relativização da sociedade da violência empregada do Estado contra corpos negros e periféricos.
Na última quinta, mães e familiares de vítimas da violência estatal lançaram em São Paulo, a 2ª fase do Tribunal Popular, uma forma simbólica de julgar o Estado brasileiro pelos assassinatos ocorridos nos Crimes de Maio. Ao ser questionada se a dor amenizou um pouco nesses 20 anos, a criadora do Mães de Maio traz uma reflexão.
“Essa dor só vai amenizar quando a ciência descobrir qual o nome que se dá para a mãe que pede o filho. Essa dor pode amenizar quando a gente obtiver o pedido de desculpas do silêncio sepulcral do Estado brasileiro. Essa dor vai amenizar quando corpos humanos pararem de ser mortos e houver uma reparação de cifrão, covardemente, feita para calar a boca”, finaliza.
ATAQUES DO PCC:
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Início de rebeliões em massa e ataques a delegacias.
14 de Maio
Auge da violência no Dia das Mães sob medo absoluto.
O Custo Humano
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