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'Fiz muitos amigos': jovem com Down conheceu namorada no teatro e comemora autonomia

Há 14 anos, o Projeto UP reúne jovens e adultos com síndrome de Down em aulas de teatro musical que ajudam em seu desenvolvimento

8 jun 2026 - 04h59
(atualizado às 11h39)
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Caio Camargo, hoje com 30 anos, é aluno do projeto desde a primeira edição
Caio Camargo, hoje com 30 anos, é aluno do projeto desde a primeira edição
Foto: Arquivo Pessoal

Há 14 anos, Caio Camargo, hoje com 30 anos, sobe ao palco para interpretar personagens, cantar, dançar e contar histórias. Mas o teatro lhe deu algo que vai muito além dos espetáculos: amigos, mais autonomia e até um relacionamento amoroso.

Foi durante uma das edições do Projeto UP, iniciativa voltada para jovens e adultos com síndrome de Down, que ele conheceu a namorada. Desde então, os dois dividem não apenas os ensaios, mas também cenas criadas especialmente para que possam atuar juntos.

"Na 11ª edição do UP, entrou uma menina nova e se tornou minha namorada. Já namoramos há três anos", contou ao Terra

Caio participa da iniciativa desde a primeira edição e não esconde o carinho pelo projeto. "Eu comecei no primeiro UP. Fiz bastante amigos e muitos espetáculos. Cada ano que eu fiz mais amigos. O UP, para mim, é fazer um monte de amigos novos."

Caio e a namorada se conheceram durante o Projeto UP
Caio e a namorada se conheceram durante o Projeto UP
Foto: Arquivo Pessoal

A ligação é tão forte que, quando as atividades entram em recesso, a saudade aparece rapidamente. "Eles ficam tristes quando entram de férias", conta a mãe dele, Sandra Mara Antônio, professora aposentada de 64 anos. "Eles gostam muito dos ensaios, das amizades. O Deto e a Evelyn [à frente do projeto] têm um jeito tão especial de conversar com eles que ficam mandando mensagem perguntando quando as aulas vão voltar."

Para Sandra, o palco se tornou um espaço de desenvolvimento, convivência e expressão. "O fato de eles estarem no palco faz com que se soltem e mostrem quem realmente são. Além disso, aprendem a respeitar regras, horários, ensaios e constroem amizades que levam para a vida."

Quando o teatro ultrapassa os limites do palco

Histórias como a de Caio se repetem entre os participantes do Projeto UP, criado em 2009 pela Oficina dos Menestréis, em São Paulo. Gabriel Facchini, de 28 anos, ingressou na iniciativa em 2012. Na época, buscava ampliar o convívio com outras pessoas com síndrome de Down. O que encontrou foi uma experiência que, segundo ele, ajudou a desenvolver habilidades que hoje fazem parte da sua rotina.

Gabriel conta que passou a ter mais autonomia com o projeto
Gabriel conta que passou a ter mais autonomia com o projeto
Foto: Arquivo Pessoal

"O que mais me incentivou a estar no projeto foi me enturmar com outras pessoas que têm síndrome de Down iguais a mim", afirma. Durante os treinamentos, Gabriel participou de exercícios voltados para improvisação, percepção, reflexo e trabalho em grupo. Com o tempo, percebeu mudanças fora do teatro.

"Eu tive mais autonomia. Comecei a sair mais, a fazer as coisas sozinho. Hoje vou para o trabalho sozinho, pego metrô, ônibus e vou a pé para o teatro". Atualmente, ele trabalha na Prefeitura de São Paulo, onde atua na área de acessibilidade para pessoas com deficiência. Também faz palestras, participa de cerimônias institucionais e desenvolve trabalhos ligados à fotografia.

"O mais essencial para mim no Projeto UP é que ele promove autonomia", afirma.

O projeto que transformou o palco em espaço de inclusão

O Projeto UP nasceu da vontade de ampliar o acesso às atividades artísticas para públicos que historicamente encontravam poucas oportunidades dentro do teatro. A iniciativa foi criada pelo diretor teatral Deto Montenegro em 2009, após experiências anteriores da Oficina dos Menestréis com outros grupos, como pessoas usuárias de cadeira de rodas.

"Eu sempre sonhei em trabalhar com todo tipo de perfil de aluno. Nunca pensei muito em deficiência. Penso em tipos humanos, em pessoas com características diferentes", afirma.

Projeto UP já teve mais de 200 alunos
Projeto UP já teve mais de 200 alunos
Foto: Divulgação/Projeto UP

A proposta adapta o método de treinamento artístico desenvolvido pelos Menestréis para jovens e adultos com deficiência intelectual, especialmente pessoas com síndrome de Down. Atualmente, a iniciativa está em sua 14ª edição e já atendeu mais de 200 participantes.

Segundo Montenegro, a ideia nunca foi formar artistas profissionais, mas oferecer uma atividade artística capaz de desenvolver sensibilidade, convivência e trabalho coletivo. "Todo mundo pode ter uma atividade artística na semana. Você trabalha a escuta, a sensibilidade, aprende a olhar para o outro e a conviver com as diferenças."

Uma comunidade que nasceu do encontro

Ao longo dos anos, o projeto acabou produzindo impactos que extrapolaram o palco. Segundo Evelyn Klein, que divide a coordenação da iniciativa, famílias passaram a criar laços, trocar experiências e desenvolver novas ações voltadas para inclusão.

"O teatro é a arte do encontro. O projeto virou um lugar onde as mães trocam experiências, falam sobre autonomia, educação e desafios do dia a dia. Foi se criando uma grande comunidade."

Dessa rede surgiram outras iniciativas nas áreas de fotografia, cinema, esportes e mercado de trabalho. Atualmente, a Oficina dos Menestréis mantém projetos voltados para diferentes públicos, incluindo pessoas com deficiência, idosos e jovens em situação de vulnerabilidade. Para Evelyn, a força do teatro está justamente na capacidade de aproximar pessoas.

"Promover o encontro é a melhor coisa que existe. É a partir daí que a gente evolui como ser humano. E a arte, especialmente o teatro, é um veículo sensacional para isso", diz ela. Atualmente, o projeto é mantido por meio de parcerias com empresas patrocinadoras viabilizadas pela Lei Rouanet.

Enquanto os idealizadores celebram mais de uma década de trabalho, Caio já pensa no futuro. "Eu quero fazer até o UP 100. Quero mais 100 edições do projeto", diz, arrancando risadas da mãe.

Fonte: Portal Terra
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