'Eu vivia como um personagem': homem trans fez de prótese para experiência pessoal um negócio de sucesso
Fábrica criada em Campinas produz itens como binder e packer e envia produtos para todo o Brasil e outros 14 países
Itens que ajudam na afirmação de gênero de pessoas trans são produzidos em uma fábrica em Campinas, no interior de São Paulo, formada por homens trans. O espaço funciona há quase dez anos e fabrica acessórios como o binder, faixa usada para comprimir os seios, e o packer, dispositivo em formato de pênis que também pode permitir urinar em pé.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
Os produtos são enviados para diferentes regiões do Brasil e também para o exterior. Segundo o criador da iniciativa, o influenciador trans Stevan Queiroz, de 32 anos, a fábrica ainda atende clientes em outros 14 países. Ele afirma que o projeto está entre os primeiros no Brasil voltados especificamente ao bem-estar da população trans.
Para quem trabalha no local, no entanto, cada encomenda representa mais do que a venda de um acessório. As peças carregam experiências vividas pelos próprios funcionários, que conhecem de perto os efeitos do preconceito. A proposta é transformar essas vivências em produtos que ajudem outras pessoas trans a lidar com esse processo com mais conforto e segurança.
Stevan, inclusive, viveu essa trajetória. Ele conta que as primeiras percepções sobre sua identidade surgiram ainda na infância, por volta dos quatro anos de idade. “Eu me via como um menino, assim como os outros, e demorei para entender que quando eu crescesse eu não poderia ser igual a eles”, relembrou em entrevista ao Terra.
Conforme o corpo começou a mudar na adolescência, o conflito aumentou. Ele diz que não conseguia se reconhecer como mulher, mas também não entendia completamente o que sentia, em um período em que quase não se falava sobre pessoas trans.
Para tentar se encaixar socialmente, ele passou anos interpretando um papel. “Eu vivia como um personagem”, contou. Stevan usava cabelo longo, unhas grandes e roupas consideradas femininas, mesmo sem se sentir representado por aquela imagem. As primeiras mudanças vieram apenas no colegial, quando começou a cortar o cabelo e alterar o estilo de roupas. “Eu fui percebendo que essas mudanças me aproximavam de como eu realmente me via.”
A possibilidade de uma transição só surgiu anos depois, já na faculdade. Um amigo comentou sobre o uso de hormônios e mencionou que eles poderiam provocar mudanças físicas como barba e voz mais grossa. A partir daí, Stevan passou a pesquisar e decidiu iniciar o uso, mesmo sem encontrar muitas informações disponíveis na época.
“Era como se as peças estivessem sendo finalmente encaixadas”, disse. Mais tarde, ao descobrir comunidades de homens trans nas redes sociais, ele entendeu que a transição era possível e decidiu buscar a mamoplastia masculinizadora. Depois da cirurgia e do início do processo hormonal, veio outro marco importante: a mudança do nome. “Foi como poder nascer de novo, só que dessa vez sendo quem eu realmente sou.”
Uma solução que nasceu da própria experiência
A ideia da empresa surgiu após uma etapa importante da transição de Stevan: a mamoplastia masculinizadora, realizada em 2015. Apesar da sensação de liberdade após a cirurgia, ele ainda enfrentava um incômodo cotidiano.
“Quando eu fiz, eu não via a hora de poder nadar, ir para a praia me sentindo livre. Mas eu me sentia inseguro pela falta de volume na sunga e fui testando diversas estratégias”, enumerou.
Ele tentou diferentes alternativas --de meias a próteses já existentes--, mas nenhuma funcionava como esperava. “Ou ficava grande demais ou extremamente artificial”, lembra. A solução acabou surgindo de uma tentativa pessoal de resolver o problema.
“Eu resolvi fazer a minha própria prótese. Queria algo discreto, mas funcional também, porque além do conforto com o corpo, tinha a questão do banheiro masculino, que às vezes só tinha mictório e precisava urinar em pé”, explicou.
Depois de várias tentativas, o protótipo funcionou. “Quando eu usei pela primeira vez, fiquei muito feliz. Aquilo fez uma diferença tão grande no meu dia que pensei: 'Se mudou tanto para mim, provavelmente tem outros homens trans passando pela mesma situação'.”
A partir daí, ele decidiu compartilhar a ideia nas redes sociais e se oferecer para produzir a prótese para outras pessoas interessadas. Foi o início do que se tornaria a empresa.
De pedidos nas redes a clientes no exterior
O que começou com alguns pedidos online rapidamente ganhou escala. “Não tinha ideia da quantidade de pessoas que existiriam. Não conseguia ter dimensão disso, mas queria levar os produtos para o máximo possível de pessoas.”
Com o tempo, os pedidos continuaram chegando e revelaram a dimensão da demanda. “Hoje já entregamos produtos para mais de 30 países diferentes e é muito legal pensar que tem alguém do outro lado do mundo ficando feliz com o produto também.”
Produtos que impactam o dia a dia
Entre os itens mais procurados estão o binder e o packer, justamente por interferirem diretamente no cotidiano das pessoas trans. “O binder substitui o top e consegue reduzir o volume do peito na roupa. Para quem não se sente bem com esse volume ou quer fazer a cirurgia mas ainda não fez, é libertador vestir o binder e se olhar no espelho”, explicou.
Já o packer tem outra função importante na construção da identidade corporal. “É uma prótese que passa a fazer parte do corpo. Para muitas pessoas ele está presente ali o dia todo, fazendo volume na roupa, permitindo urinar em pé e também na hora das relações.”
Um ambiente de trabalho voltado à comunidade
Além de produzir acessórios, a empresa também se tornou um espaço de trabalho pensado para pessoas da comunidade LGBTQIA+, especialmente homens trans.
Stevan afirma que essa sempre foi uma preocupação desde o início. “Eu, como homem trans, sei como é me sentir desconfortável em ambiente de trabalho. Então eu queria criar um espaço em que eu me sentisse bem e que todos ali pudessem se sentir assim também.”
Hoje, grande parte da equipe é formada por pessoas da própria comunidade. “Naturalmente fomos formando um ambiente em que a maior parte da equipe são pessoas da comunidade LGBTQIA+, com muitos homens trans.”
Segundo ele, o impacto vai além do trabalho. Para alguns funcionários, foi a primeira vez em que puderam usar o nome social no ambiente profissional ou falar abertamente sobre sua identidade. “É um ambiente em que todos podem ser quem são, com nome e pronome sendo respeitados, rodeados de pessoas que entendem ou têm vivências semelhantes.”
Desafios e preconceito
Apesar do crescimento do negócio, o preconceito ainda aparece, principalmente nas redes sociais. Stevan conta que a equipe aprendeu a lidar com esses episódios ao longo dos anos.
“Os ataques infelizmente são constantes, porque ainda existe muito preconceito. Alguns comentários a gente responde de forma descontraída, outros a gente ignora e em alguns casos exclui para evitar que alguém da comunidade leia e se sinta mal.”
Para ele, o principal objetivo é proteger o espaço criado pela empresa. “No fim das contas, o que importa é manter o foco em quem realmente importa.”
Ao olhar para a própria trajetória, desde a infância, quando ainda não conhecia a possibilidade da transição, até a criação da empresa, Stevan diz que deseja que outras pessoas trans tenham acesso a mais informação e apoio.
Ele deixa também um conselho para quem está passando por processos semelhantes. “As pessoas trans precisam ter calma e paciência no processo, mas nunca parar de buscar formas de se sentir bem com o próprio corpo. Cada pessoa vai ter seu tempo e seu caminho", disse. “Que elas saibam que existem produtos, comunidades e espaços criados pensando nelas. E que nunca desistam de ser quem são!", acrescentou.