Caê Vasconcelos superou medo de morrer cedo e se tornou primeiro jornalista trans de emissora
Em entrevista ao Terra, ele conta como foi o processo de compreender a própria identidade de gênero e agradece o apoio da avó
Caê Vasconcelos tinha o medo de não conseguir envelhecer, uma vez que a expectativa de vida para pessoas trans é menor que 35 anos, segundo dados divulgados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Hoje, com 34 anos, o jornalista está prestes a ultrapassar essa barreira e tem o desejo de sonhar cada vez mais alto.
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Essa reportagem faz parte da série Nós Somos Potência, em que pessoas trans de destaque em diversos setores da sociedade contam suas histórias, vivências, dificuldades e conquistas
"Não sabia se eu iria envelhecer. Antes, eram coisas ruins que a gente ouvia na imprensa: morte e violência", relembra em entrevista exclusiva ao Terra.
Caê conta que nunca se identificou com os padrões de gênero, mas por 12 anos se apresentou para a sociedade como "sapatão". Em 2017, quando estava na reta final da faculdade de Jornalismo, decidiu escrever um livro sobre pessoas trans no mercado de trabalho como trabalho de conclusão de curso e, neste período, começou a questionar a própria identidade de gênero.
Entretanto, foi só dois anos depois, após assistir ao documentário Bixa Travesty, de Linn da Quebrada, que se entendeu como homem trans e passou a aceitar a própria transexualidade. "A transição sempre esteve ali. Achava muito que era sexualidade. Durante 12 anos, me identifiquei enquanto sapatão para a sociedade. A masculinidade que crio hoje vem da sapatão que fui um dia."
Para Caê, o apoio da avó foi fundamental na transição e em todo o caminho que percorreu.
"Se consegui chegar a 34 anos sendo o Caê com esse orgulho é por conta da minha avó. Dona Raimunda, agora ela está com 82 anos, ela é aquele exemplo de pessoa mais velha que não tem acesso à informação. Ela não teve nada disso, mas o afeto sempre fez a gente conseguir lidar com tudo" -- Caê Vasconcelos em entrevista ao Terra
"Ela foi a única pessoa que me acolheu. Não me chamava nem de Caê, nem no masculino, mas me chamava de 'meu bem', 'meu amor'. Tem coisa mais neutra que meu bem e meu amor? Ela mostrava que me via, me enxergava e me acolhia, mas não estava pronta para me chamar no masculino. Hoje, chego e ela pode me ver dez vezes na semana que vai gritar: 'Meu neto chegou'", completa.
"O fato de eu ter vindo da minha quebrada faz muito sentido para eu ser quem sou. Se não tivesse vindo da minha quebrada, talvez a minha identidade enquanto homem trans seria completamente diferente."
Com uma carreira de quase dez anos no jornalismo, Caê enxerga a profissão como "a maior ferramenta de transformação social" e cita como exemplo matérias que escreveu e que ajudaram a tirar pessoas de prisões injustas.
Além disso, acumulou conquistas, como ser o primeiro homem trans a estar na bancada do Roda Viva, da TV Cultura, e o primeiro trans também na ESPN, onde atua na cobertura do futebol feminino. "Não estou falando da minha vivência. Muitas vezes, a gente é colocado para falar só sobre identidade. Eu estava lá, a primeira vez que um homem trans estava na bancada de uma TV tão tradicional que é a ESPN."
"Lembro que um dos maiores medos que tinha na transição era perder o afeto. Dá para sonhar e realizar sonhos. Agora, estou tentando sonhar mais alto. Quero envelhecer e chegar nos meus 90 anos e com uma carreira no jornalismo ainda mais incrível e construir uma família que, como bom romântico incurável, não vou desistir", conclui Caê.