Ele começou com uma tesoura emprestada e se tornou o barbeiro do Mano Brown
Da periferia ao corte de ídolos, Josyas Mendes, barbeiro de Mano Brown, faz de sua barbearia um projeto de vida e resistência
“Sempre fui sonhador, é isso que me mantém vivo”, cantam os Racionais MC’s na música “A Vida é Desafio”, que marcou -- e ainda marca -- a juventude periférica. Na época em que o grupo surgia e suas letras de rap ecoavam pela periferia, um jovem negro crescia na Zona Sul de São Paulo alimentando grandes sonhos. Filho de uma família humilde, cercado por histórias de luta, Josyas Mendes fazia parte de uma geração que se reconhecia nas letras de Mano Brown. Naquele cenário, pouco poderia imaginar que, anos depois, se tornaria justamente o barbeiro de um de seus grandes ídolos.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
A história de Josyas, hoje com 48 anos, se mistura com a própria história do território onde nasceu e cresceu. Filho de nordestinos, um pai piauiense, metalúrgico e militante sindical, e uma mãe alagoana dedicada ao lar e à costura, Josyas cresceu em uma família numerosa, com seis irmãos, no Jardim Letícia. Desde cedo, aprendeu a lidar com a realidade da periferia, onde o trabalho surgiu antes mesmo da juventude.
Ainda adolescente, aos 14 anos encontrou nas ruas a primeira forma de renda, vendendo coxinhas ao lado de um dos irmãos. Pouco tempo depois, teve o primeiro emprego formal em uma fábrica de relógios de parede. Mas foi aos 16 anos que a trajetória tomaria um rumo definitivo -- quase por acaso, quase por necessidade.
Na época, a família vivia a correria dos preparativos para o casamento de uma de suas irmãs quando surgiu o primeiro corte de cabelo improvisado. Sem cabeleireira disponível, Josyas pegou uma tesoura emprestada de corte e costura de uma vizinha e cortou o cabelo do irmão mais novo. Ali, sem saber, nascia a profissão que nunca mais abandonaria.
“Com 16 anos eu comecei a cortar cabelo por necessidade. Peguei uma tesoura emprestada e cortei o primeiro cabelo do meu irmão. A partir daquele dia, nunca mais fiz outra coisa além disso”, relembrou.
O primeiro espaço veio pouco depois: um salão improvisado de dois por dois metros no próprio bairro, sem banheiro e com estrutura mínima. Ainda assim, foi ali que tudo começou. “Abri meu primeiro salão com ajuda do meu irmão mais velho. Era um espaço muito pequeno, mas foi onde começou a minha história”, disse.
A trajetória seguiu em crescimento gradual, sempre dentro da periferia. Hoje, após décadas de trabalho, o empreendimento se expandiu para um grande espaço no Jardim São Luís, com 15 cadeiras e estrutura que vai além da barbearia.
O local também abriga iniciativas culturais, como saraus, batalhas de rima e rodas de conversa realizadas mensalmente, além de uma praça de leitura. Para Josyas, o espaço ultrapassa o conceito de negócio.“É um lugar onde os jovens encontram identidade”, afirmou.
O caminho que encontrou Mano Brown
A trajetória de Josyas também se cruza com nomes conhecidos da música brasileira. O mais marcante deles é o rapper Mano Brown, com quem mantém relação há quase três décadas. O encontro aconteceu em 1997, após anos ouvindo os Racionais MC’s e acompanhando o crescimento do grupo. O primeiro corte, porém, não foi exatamente um corte.
Depois de já ter aberto seu próprio espaço, Josyas conheceu o Serginho, um DJ que também tinha relação com o Mano Brown. Serginho cortava cabelo com ele e sempre dizia que iria levar o cantor de rap para cortar o cabelo com o barbeiro. “Vou trazer o Mano Brown pra cortar cabelo com você”, ele repetia, mas Josyas conta que não acreditava muito na possibilidade naquele momento. Anos depois, com a lembrança ainda viva, ele recebeu de um amigo o disco Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC's, e pensou: “um dia eu vou cortar o cabelo desses caras”.
O encontro aconteceu de forma inesperada, em uma tarde comum de trabalho na barbearia. Josyas lembra que viu um carro estacionar em frente ao espaço e, ao olhar, percebeu que era Mano Brown. “Eu não acredito, e agora?”, recorda. O artista desceu, foi apresentado ao barbeiro, e a movimentação na rua rapidamente aumentou. Sem celulares com câmera na época, foi preciso buscar uma máquina fotográfica para registrar o momento. Nesse primeiro encontro, Brown não chegou a cortar o cabelo, mas fez apenas o pezinho e ajustou o bigode. “Eu não acreditava, achei que estava sonhando”, relembrou Josyas sobre o dia que marcou o início da relação entre os dois.
O artista gostou do trabalho do barbeiro e voltou na semana seguinte, dessa vez realmente para cortar o cabelo. Desde então, o vínculo se transformou em amizade e parceria ao longo dos anos. Para Josyas, a relação com o artista também teve impacto direto em sua trajetória profissional, ampliando visibilidade e abrindo portas para outros nomes da música e da cultura. “Hoje já fazem quase 30 anos que corto o cabelo dele. Essa relação abriu muitas portas, conheci outras pessoas da música e da arte por causa disso. Com certeza conhecer ele foi um divisor de águas na minha vida”, afirmou.
Entre as referências que passaram por sua cadeira estão nomes como Seu Jorge, Djonga, Rael e outros artistas da cena cultural brasileira. "A presença do Brown agregou demais no espaço, a barbearia deve muito a ele. Tanto que têm muitas pessoas que até acham que ele é o dono", contou Josyas, ao dar risada. "Na periferia, Racionais foram um dos maiores professores e mudaram muitas vidas. A pessoa que escuta eles e entende a letra, só vai crescer. Eles sempre cantaram nossa dor, nossas necessidades e nossos sonhos. Isso não tem preço", acrescentou.
Permanência na periferia
A permanência na periferia, mesmo com o crescimento do negócio, é uma escolha consciente. Para ele, o desenvolvimento do território depende da permanência de quem consegue crescer dentro dele. “Se todo mundo que cresce na periferia for embora, a periferia nunca vai ter nada. Tem que acreditar na quebrada, porque ela tem dinheiro, tem consumo, tem vida”, disse.
Essa visão também se reflete na forma como conduz a equipe. Todos os profissionais que trabalham com ele vieram da própria periferia e passaram pelo processo de formação dentro do espaço. “Todos que trabalham comigo são da periferia. Foram alunos nossos e aprenderam aqui dentro. Hoje nós somos 15 pessoas trabalhando”, contou.
A expansão do negócio também trouxe novos parceiros e a criação de outros empreendimentos associados, como hamburgueria e loja de roupas. Ainda assim, o foco permanece o mesmo: manter o território como centro do projeto. Além disso, a barbearia também oferece outros serviços voltados ao público feminino.
“A luta continua. Tudo o que conquistamos foi com muito trabalho. Ainda temos sonhos que não aconteceram. Trabalhar na periferia não é fácil, a gente não tem ajuda governamental, falta muito investimento dentro desses espaços”, disse.
O espaço que construiu também carrega uma dimensão simbólica de resistência. Em diferentes momentos, ele relata ter enfrentado preconceito e desconfiança por manter um negócio voltado à população negra e periférica.
“No começo diziam que não ia dar certo, que o nosso público, que é o público negro, não tinha dinheiro, e que eu deveria ir cortar o cabelo de brancos, que eram as pessoas que tinham dinheiro. Mas o nosso povo não pode ser abandonada, e a gente lutou contra esse preconceito e provou o contrário”, afirmou.
Houve também, segundo Josyas, muita repressão por parte da polícia ao longo da trajetória do espaço, especialmente pela desconfiança em relação ao agrupamento de jovens negros no local. Ele relata que, em alguns momentos, surgiam suspeitas e comentários de que o ambiente seria um ponto de drogas ou que ele próprio estaria envolvido com atividades ilícitas. "E o espaço sempre reuniu pessoas trabalhadoras, com sonhos e trajetórias diversas", disse. "Dali saíram profissionais como advogados e empresários, incluindo clientes que hoje atuam em grandes empresas", acrescentou.
Hoje, o salão é também um ponto de encontro cultural e social da região, reunindo diferentes gerações em torno de atividades que vão além da estética. Mesmo com as conquistas, Josyas resume sua trajetória como um processo em andamento, marcado por trabalho constante, superação e permanência. “Hoje, o nosso espaço é de resistência. E por isso eu me considero realizado. Mas ainda tenho sonhos. A periferia segue passando por muito preconceito, humilhação e repressão. Então a gente continua lutando todos os dias”, disse.
Comentários
As opiniões expressas nos comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Terra.