'Eu não posso dizer que estou bem': as lacunas no apoio a mulheres após violência doméstica
Roberta* sofreu uma tentativa de feminícidio após tentar se separar de marido
"Eu fiquei muito mal, porque a gente não teve nenhum amparo psicológico, nenhum amparo social, nenhum amparo jurídico, nada. Só me deram medida protetiva e pronto". O relato é de uma mulher de 43 anos que sobreviveu a uma tentativa de feminicídio junto com os dois filhos. Depois de denunciar o agressor e deixar a casa onde vivia com ele, ela recebeu medida protetiva, mas afirma que precisou reconstruir a própria vida praticamente sozinha.
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"Eu tive que sair da cidade, porque não tinha como eu ficar lá. Vim para cá e não tive apoio de nada".
"Passei dois anos sem falar com minha mãe"
O relacionamento durou cerca de seis anos. Segundo a vítima, os primeiros sinais de violência surgiram gradualmente. "Eu estava havia mais ou menos seis anos nesse relacionamento. Ele não é pai das crianças. Quando fui morar com ele, meu filho tinha dois anos e minha filha cerca de cinco ou seis meses. Eles eram muito pequenos".
O ex-casal se conheceu por meio do trabalho da Roberta Silva*. Dona de pet shop, ela tinha o ex-marido como cliente e, após mais de ano de convívio platônico, iniciaram um namoro. Não demorou para que decidissem morar juntos em um sítio no interior de São Paulo.
"No início ele tratava as crianças bem. Logo nos primeiros meses ensinou eles a chamá-lo de pai". Com o passar do tempo, porém, o controle e o isolamento começaram a se intensificar.
"Com o tempo ele começou a ter muito ciúme". Primeiro, ele pedia para que ela não saísse da casa quando algum trabalhador fosse até o sítio. Depois, reclamava sempre que ela ia até o salão, por ser "ambiente de fofoca". Então, começou a violência contra os animais, quando o homem matou um galo por achar que a vítima dedicava atenção "demais".
"A gente morava em um sítio e os ciúmes dele eram sufocantes. Eu não podia sair nem para levar as crianças à escola. Era praticamente 24 horas junto, ele não me deixava respirar". A violência chegou, então, às crianças. "Ele trancava as crianças no quarto e apagava a luz, deixando eles no escuro. Pegava um facão e ficava andando com ele na mão, ameaçando". Era apenas uma das demonstrações que ocorriam quando Roberta o desafiava.
O isolamento também atingiu o contato com familiares, que passaram a criticar os abusos contra as crianças. "Ele não permitia nem que eu falasse com a minha mãe".
"Eu achava que violência era quando o homem batia. No meu primeiro casamento, eu sofri agressão física. Como ele nunca me bateu e nem gritava comigo, eu não entendia aquilo como violência. Hoje eu vejo que era tortura psicológica".
Diante dos abusos, ela decidiu se separar. No entanto, o homem não aceitou. A situação chegou ao limite no aniversário da mãe da vítima. "Eu queria assar um pernil e fazer um bolo para as crianças cantarem parabéns para ela pelo telefone".
O agressor era contra a comemoração, mas ela decidiu seguir com a ideia. "Minha filha provou primeiro e disse que estava com gosto ruim. Eu experimentei e percebi que o gosto estava estranho. Quando fui verificar os ingredientes, senti um cheiro muito forte no pote de bicarbonato. Era cheiro de amônia".
Segundo ela, o homem admitiu ter colocado o produto no recipiente. "Meu filho começou a vomitar e sentir dor de cabeça. Mesmo assim ele dizia que não fazia mal e queria que minha filha continuasse comendo".
A gravidade da situação ficou clara quando ela tentou descartar o bolo. "Quando fui colocar no quintal, ele disse para não deixar no chão porque se os cachorros comessem morreriam. Foi quando percebi a gravidade".
Roberta pegou a chave do carro escondida e correu para o hospital antes do homem perceber. No atendimento, a denúncia foi feita de forma automática. "Depois que tivemos alta, quase meia-noite, a polícia foi comigo até o sítio. Quando chegamos, buzinei. Ele saiu para abrir o portão e a polícia deu voz de prisão.”
O homem foi preso por tentativa de feminicídio, tentativa de homicídio contra as crianças e porte ilegal de arma. O caso ainda aguarda julgamento.
Medida protetiva, mas sem apoio
Roberta nunca mais voltou à casa. Lá, ficaram todos os pertences dela e das crianças. O pai das crianças chegou a recebê-la, mas pediu que ela saísse dentro de uma semana. Após dois anos sem contato, ela reatou a relação com a mãe.
Hoje, Roberta vive com os filhos em Itanhaém, no quarto dos fundos da mãe, e tenta recomeçar com trabalhos informais. "Não tem muito emprego. Só tem trabalho na época de temporada. Então eu fui pegando alguns biquinhos, tentando me manter com as crianças".
A experiência dela revela um problema que ainda persiste no enfrentamento à violência doméstica: embora o acesso à denúncia e às medidas protetivas tenha aumentado nos últimos anos, o acolhimento psicológico e social após a saída do relacionamento abusivo ainda é limitado.
Em 2025, o Estado de São Paulo registrou 118,6 mil pedidos de medidas protetivas de urgência, um aumento de 17,5% em relação ao ano anterior, segundo dados do governo estadual. O número maior de solicitações é atribuído à ampliação da rede de proteção e dos canais de denúncia disponíveis para as vítimas.
Nos últimos anos, também houve expansão da estrutura policial especializada. Desde 2023, o número de Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs) cresceu 54%, chegando a 142 unidades no Estado.
Para a delegada Cristine Costa, titular de uma Delegacia de Defesa da Mulher há cinco anos e com 13 anos de atuação na área, o aumento das denúncias mostra uma mudança importante no comportamento das vítimas.
"Hoje a gente vê que as mulheres nos procuram ainda nos primeiros sinais da violência, nos primeiros sinais da agressão. Então, eu faço muitos registros de ocorrência de ameaça, de perseguição, de injúria, de ofensas verbais", contou ao Terra.
Ela afirma que as medidas protetivas são fundamentais para interromper o ciclo de violência. Mesmo assim, a delegada destaca que o momento da denúncia é um dos mais difíceis para as vítimas.
Segundo ela, romper com o agressor costuma envolver impactos financeiros, familiares e emocionais. "Ela vai passar por um período de turbulência, não vou dizer que serão flores, porque não vão ser. Mas depois disso vem a calmaria".
"Quando eu vi que tinha toda a questão do processo, eu comecei a ficar muito ansiosa, meio paranoica, sem saber o que fazer", relatou Roberta. Sem encontrar apoio imediato, ela buscou ajuda na inteligência artificial. Foi a IA que indicou grupos de apoio. "Foi assim que eu entrei em contato com o grupo das Justiceiras".
"No mesmo dia em que eu preenchi o formulário, à tarde, a doutora Lara Bergamini, advogada, entrou em contato comigo perguntando sobre os fatos". Apesar do suporte, as consequências emocionais ainda fazem parte da rotina.
"Psicologicamente falando, a gente ficou muito abalada. As crianças já têm quase um ano que não falam muito sobre o assunto, mas eu sei que elas ficaram muito abaladas.
"E eu não posso dizer para você que eu estou bem".
Hoje, Roberta cursa psicologia após conquistar uma bolsa de estudos pelo ProUni. "Depois de 24 anos sem estudar, eu pontuei muito bem no Enem. Hoje, estudando psicologia, eu percebo que a terapia que eu não fiz é o que ainda me machuca muito".
"Sabe quando você fala 'vou deitar e dormir'? Eu não sei mais o que é isso. Meu sono é todo quebrado. Eu não tenho mais aquela paz para dormir. Às vezes acordo de madrugada chorando".
Ela também relata dificuldades para encontrar atendimento psicológico público. "Eu procurei psicólogo aqui no postinho perto de casa, mas não tem".
"Teve momentos em que eu pensei: por que o plano dele não deu certo? Porque às vezes parece que seria mais fácil se a gente não estivesse vivendo tudo isso".
A reportagem buscou a Prefeitura de Itanhaém e aguarda posicionamento.
Como denunciar
As medidas protetivas de urgência permitem que a Justiça determine providências imediatas para proteger a vítima, como o afastamento do agressor da residência, a proibição de contato e a suspensão do porte de armas. A própria mulher pode solicitar a medida, sem necessidade de advogado. Uma vez concedida, o agressor fica proibido de se aproximar da vítima, de familiares e de testemunhas, geralmente mantendo uma distância definida pela Justiça entre 200 e 300 metros.
Segundo o governo estadual, as medidas fazem parte dos instrumentos previstos na Lei Maria da Penha para interromper situações de violência e evitar novos episódios. A concessão das solicitações é feita pelo Poder Judiciário, após o pedido ser registrado pelos canais disponíveis.
Além de órgãos como a Defensoria Pública, o Ministério Público e outras instâncias do Judiciário, vítimas também podem fazer solicitações em delegacias físicas, na Delegacia Eletrônica ou por meio do aplicativo SP Mulher Segura. Caso o pedido seja negado ou a medida protetiva seja descumprida, a orientação é que a vítima procure a Defensoria Pública do Estado de São Paulo para recorrer ou comunicar a violação.
*Nome fictício a pedido da vítima
