Uberização do transporte ultrapassa 1 milhão de trabalhadores no Brasil
Plataformas como Uber e 99, além dos aplicativos de táxi, concentram 58,9% dos trabalhadores por apps; motoristas têm jornada maior e ganham menos por hora
Dados do IBGE revelam que quase 1,2 milhão de pessoas atuam no transporte de passageiros por aplicativo no Brasil, representando a maioria dos trabalhadores de plataformas digitais no país. Apesar de terem renda média similar à dos condutores tradicionais (R$ 2.873), esses motoristas enfrentam jornadas semanais mais longas (45,9 horas), menor remuneração por hora (R$ 14,40) e baixa cobertura previdenciária (25,5%), além de forte dependência das plataformas na definição de tarifas e corridas.
Quase 1,2 milhão de trabalhadores já atuam no transporte particular de passageiros por aplicativos no Brasil. O segmento, que inclui plataformas como Uber e 99 e aplicativos de táxi, concentra 58,9% das pessoas que trabalhavam por meio de plataformas digitais de serviços no país.
Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e vem do módulo sobre trabalho por plataformas digitais da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), realizado no terceiro trimestre de 2025. O levantamento identificou, ao todo, 1,96 milhão de pessoas que utilizavam aplicativos de serviços no trabalho principal ou secundário. O número equivale a 1,9% da população ocupada.
Desse universo, 1,15 milhão atua com aplicativos de transporte de passageiros. As plataformas que não são de táxi reúnem 1,056 milhão de trabalhadores, enquanto os aplicativos destinados aos taxistas são utilizados por 232 mil pessoas. Os números não podem ser somados diretamente, pois um mesmo profissional pode trabalhar com mais de um tipo de plataforma.
Em um recorte específico sobre quem tem a condução de automóveis como trabalho principal, o IBGE identificou 905 mil motoristas que utilizavam plataformas digitais em 2025 - representando 45,9% dos quase 2 milhões de profissionais dessa ocupação. Em 2024, eram 824 mil, ou 43,8%.
Esse universo é, vale frisar, diferente do total de trabalhadores que utilizam aplicativos de transporte de passageiros, que também considera o trabalho secundário. O recorte permite comparar remuneração e jornada entre quem dirige profissionalmente com e sem o uso de plataformas.
Os motoristas por aplicativo recebiam, em média, R$ 2.873 por mês, apenas R$ 68 a mais que os R$ 2.805 dos outros condutores. Para alcançar esse rendimento, porém, tiveram de trabalhar 45,9 horas por semana, ante 40,4 horas entre os profissionais que não utilizavam plataformas.
Isso significou, portanto, 5,5 horas adicionais de trabalho por semana, uma diferença de 13,6%. Com a jornada mais extensa, o rendimento médio por hora dos motoristas por aplicativo ficava em R$ 14,40, contra R$ 16 dos demais condutores.
A contribuição previdenciária era outro ponto de distância entre os grupos. Apenas 25,5% dos motoristas de automóveis por aplicativo contribuíam para a previdência, ante 59,2% dos demais condutores. A comparação considera o trabalho principal e exclui empregados do setor público e militares.
Aplicativos concentram corridas e definição dos valores
A pesquisa também mostra a dependência que os trabalhadores têm em relação às plataformas para conseguir corridas. Entre os profissionais que utilizavam aplicativos de transporte diferentes dos de táxi, 80,2% exerciam aquele trabalho somente por meio de plataformas. Entre os usuários de aplicativos de táxi, 60,9%. Os demais também obtinham serviços por outros meios.
O uso de uma única plataforma era mais frequente entre os taxistas. 79,7% trabalhavam destes profissionais trabalhavam com apenas um aplicativo. Já no transporte de passageiros fora dessa categoria a proporção era de 59,8%.
As empresas também seguem tendo influência sobre a remuneração. Entre os trabalhadores que utilizavam aplicativos de transporte diferentes dos de táxi, 80,2% afirmaram que o valor recebido pelo serviço era totalmente determinado pela plataforma. Entre os usuários de aplicativos de táxi, o percentual era de 73,5%.
Incentivos, bônus ou promoções que alteram os preços influenciavam a jornada de 56,3% dos trabalhadores de aplicativos de transporte diferentes dos de táxi. Entre os taxistas que utilizavam plataformas, 53,7%.
Esses indicadores consideram o trabalho principal de pessoas que utilizavam um único tipo de aplicativo de serviços. Isso permite, por exemplo, trabalhar com duas ou mais plataformas de transporte da mesma categoria. Os recortes estão detalhados no levantamento do IBGE.
Em 2025, a pesquisa passou a incluir também o uso de plataformas no trabalho secundário. Por isso, o total de 1,96 milhão de trabalhadores não é diretamente comparável ao das edições anteriores. Considerando somente a ocupação principal, eram 1,8 milhão de pessoas, crescimento de 9,1% ante 2024. O IBGE classifica os resultados como estatísticas experimentais, ainda em avaliação metodológica.
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