Teste: Leapmotor B10 é SUV elétrico chinês que sabe falar o "português das ruas"
Com uma mãozinha da engenharia da Stellantis, B10 ganha suspensão e direção recalibradas para encarar o asfalto brasileiro com uma maturidade que surpreende
Betim entende o Brasil como ninguém. A engenharia da Stellantis no país, concentrada no município mineiro, no polo automotivo do grupo, talvez seja a mais capaz em compreender as idiossincrasias das nossas vias e pormenores do nosso mercado.
Claro que o departamento por vezes falha, mas tem índice de acerto elevado. Com astúcia, tira leite de pedra e entrega ao consumidor local produtos que, ao menos no quesito dirigibilidade, se enquadram nos mais variados perfis de condutores.
Não à toa, a engenharia da Stellantis disse ter trabalhado a fim de dar uma tropicalizada no chinês Leapmotor B10. O modelo chega às lojas por R$ 182.990 tentando ocupar um espaço que anda cada vez mais congestionado: o do SUV médio elétrico que precisa ser tecnológico sem emular o espírito de um eletrodoméstico sobre rodas.
Ao volante do Leapmotor B10
Graças à Betim, o B10 tem como principal trunfo justamente a condução, ponto onde muito rival chinês ainda tropeça. A primeira impressão ao volante é de um SUV mais assentado do que espalhafatoso e um conjunto que prima por fluidez.
O B10 não tem uma calibração molenga, que vende conforto na apresentação de powerpoint e devolve flutuação no uso real. A condução lembra bastante a do C10, mas com suspensão um pouco mais firme.
O SUV médio usa McPherson e multilink, traz arquitetura de tração traseira e distribuição de peso de 50:50 entre os eixos, receita que costuma soar promissora em apresentação de produto e, às vezes, desaparece no asfalto. Aqui, ao menos na primeira tocada, o B10 passa a sensação de carro bem apoiado, mais centrado nas mudanças de direção e com reações previsíveis, sem aquela dianteira saturada.
A Stellantis diz ter retrabalhado molas, amortecedores, buchas traseiras e o sistema de direção, além de ter feito uma validação global com testes virtuais em outros países. E olha que dá para dizer que alguém de fato sentou para acertar o carro, e não apenas para localizar o menu da multimídia.
Isso não significa esportividade. E nem precisa. Com 218 cv de potência e 24,5 kgfm de torque, e aceleração de 0 a 100 km/h em 8 segundos, o B10 entrega desempenho suficiente para parecer esperto sem apelar para a brutalidade elétrica.
O conjunto responde bem, com boas acelerações e retomadas vigorosas, mas o foco aqui claramente está mais na fluidez do que no susto. É um carro que tenta ser civilizado e a suspensão mais firme ajuda justamente nisso, pois segura melhor a carroceria e dá um pouco mais de leitura ao volante.
E aqui mora um dos maiores conflitos do B10. O interior até conversa com o repertório esperado de um elétrico, mas passa um pouco do ponto. Faltam elementos e um pouco mais de identidade. Em vez de sofisticação, fica a impressão de simplificação.
O banco, por exemplo, tem maciez adequada e agrada no primeiro contato, mas o assento não é tão longo quanto deveria. A ausência de ajuste elétrico só reforça a sensação de corte de custo em um carro que quer se vender como tecnológico.
Essa lógica se repete na interface. O painel de instrumentos é muito pequeno e poderia ser melhor resolvido. A leitura fica comprimida, pouco intuitiva, como se fosse um componente secundário.
Já a central multimídia assume protagonismo total, mas nem sempre isso é positivo. O ajuste dos retrovisores externos, por exemplo, depende dela. O redator, um ancião, admite a modernidade, mas sente falta de redundância para este tipo de operação.
O B10, todavia, tem conteúdo para sustentar o discurso tecnológico. Dispõe, por exemplo, de Android Auto e Apple CarPlay (algo que o C10 ainda não tem), atualizações remotas, comandos pelo smartphone, programação de recarga e climatização à distância.
Tem também pacote de assistências à condução recheado, ainda que com um monitoramento de faixa altamente intrusivo. Em suma, o pacote está todo ali, mas fica a dúvida de quantos desses recursos entram de fato na rotina do consumidor.
É como se tivesse sido calibrado por engenheiros atentos à condução, mas finalizado por uma lógica de produto que ainda confunde minimalismo com ausência e tecnologia com centralização excessiva. O B10 é um carro que sabe falar o "português das ruas", mas ainda perde pontos em características intrínsecas a um produto de origem chinesa.
Só que no frigir dos ovos o B10 deixa impressão mais do que positiva. É um SUV com substância no acerto dinâmico. E este talvez seja o melhor elogio possível para um lançamento do tipo.