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Primeiras impressões: BYD Mako quer ser a Fiat Toro; será que consegue?

Andamos no protótipo da picape híbrida flex desenvolvida no Brasil; modelo usa componentes da família Song, convence pelo conforto, mas ainda precisa de ajustes na dinâmica

31 ago 2026 - 05h30
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Resumo
A BYD desenvolve no Brasil a Mako, picape média com estrutura monobloco derivada do Song Pro e motorização híbrida plug-in flex, projetada para rivalizar diretamente com a Fiat Toro. Fabricado na Bahia, o protótipo foca em conforto, boa aceleração inicial e dinâmica semelhante à de um SUV. Embora ainda demande ajustes finos na direção, freios e suspensão dianteira antes do lançamento oficial, o modelo surge como uma aposta promissora da marca para se consolidar no mercado nacional de picapes.

Nove de 10 dos colegas que se esbofetearam na última terça-feira (25) em Interlagos para conhecer a estrela da nossa matéria certamente começarão o texto nessa pegada. Tudo bem. O clichê faz parte. Vamos, então, ao complemento do nosso nariz de cera (preâmbulo que, no jornalismo, é usado antes da entrada no assunto principal da notícia).

Pois bem. Mako pode significar tubarão em maori e identifica, de certo modo, espécies conhecidas pela velocidade. Não à toa, o nome mantém a BYD nas águas abertas pela Shark, mas a nova picape tem uma missão bastante diferente e bem mais importante para a operação brasileira da fabricante.

No cinema, há o "Tubarão" de Steven Spielberg, responsável por transformar um predador marinho em fenômeno cultural, e há "Sharknado", franquia trash baseada em efeitos duvidosos e situações absurdas. A BYD espera que a Mako fique mais próxima do primeiro caso, um sucesso de público capaz de marcar seu segmento, e não somente outro cartilaginoso de pouca relevância comercial.

Até porque a experiência anterior não foi boa. A Shark fracassou nas concessionárias brasileiras. De janeiro a dezembro de 2025, foram apenas 1.130 emplacamentos, segundo a Fenabrave. Nos sete primeiros meses de 2026, a picape acumulou 415 registros. A Fiat Toro, de outra categoria, somou 31.698 unidades no mesmo período e chegou a vender 5.798 exemplares apenas em julho.

E é nesse oceano nada azul que a Mako pretende nadar. Menor, monobloco, híbrida plug-in flex e projetada para disputar espaço com a Toro, ela tem potencial para alcançar um público que a irmã maior jamais foi capaz de encontrar.

Ainda é cedo, contudo, para cravar qualquer coisa. A BYD ainda não divulgou dados técnicos definitivos da picape e o carro apresentado no Festival Interlagos é um protótipo, um aperitivo do produto que chegará às lojas. Demos somente duas voltas no circuito. O autódromo José Carlos Pace não é o habitat natural de um tubarão e tampouco de uma picape voltada ao uso cotidiano e ao trabalho.

Portanto, isto não é um teste. São apenas as primeiras impressões de um projeto que continua em desenvolvimento. Se alguém vendeu isso como uma avaliação para você, leitor, é melhor reconsiderar tal tipo de fonte.

Um Song com caçamba?

A Mako é o primeiro veículo da BYD desenvolvido exclusivamente fora da China. O projeto é conduzido pela engenharia brasileira, que acompanhou o contato em Interlagos e pediu aos jornalistas convidados opiniões sobre o comportamento e diferentes aspectos do modelo.

A picape será produzida em Camaçari (BA). De acordo com a fabricante, as áreas de estamparia e pintura da fábrica estão em processo de finalização. Mais do que montar conjuntos enviados do exterior, a intenção é fabricar localmente partes fundamentais da carroceria.

A origem do projeto fica evidente ao olhar para a Mako. A picape utiliza a arquitetura do Song Pro, com construção monobloco, e reaproveita componentes de outros integrantes da família Song. A dianteira é bastante inspirada na primeira fase do Song Plus vendida no Brasil, incluindo capô e portas dianteiras.

O para-choque é volumoso e incorpora a grade frontal. Aqui vou abrir, me perdoe, espaço para o ChatGPT que existe em mim: "na prática", a BYD Mako é basicamente um Song com caçamba.

O protótipo recebeu adesivo em cor muito semelhante ao Amarelo Canário exibido pela Volkswagen na Tukan, apresentada poucos dias antes em Barretos (SP). É uma provocação saudável à futura concorrente. Ponto para o time de marketing da fabricante chinesa.

A linha de cintura da Mako é conservadora, enquanto as molduras em preto das caixas de roda são discretas e evitam a aparência exageradamente aventureira adotada por algumas rivais. As rodas têm 18 polegadas e usam pneus 235/60 R18 para o asfalto. Há freios a disco nas quatro rodas.

Atrás, a inspiração vem da própria Shark. Uma barra atravessa a tampa e interliga as lanternas, enquanto o nome BYD aparece em relevo. A caçamba deverá oferecer volume próximo de 900 litros e capacidade de carga entre 700 e 800 kg. A tampa já conta com amortecedor para facilitar a abertura.

Como a fabricante ainda não revelou as dimensões, recorri a um aplicativo de medição do iPhone. O resultado apontou aproximadamente 4,93 metros de comprimento e 2,94 m de entre-eixos. São medidas extraoficiais, sujeitas à margem de erro do aparelho, mas que indicam um porte muito próximo ao da Toro.

A camuflagem, contudo, deixa a cabine como objeto de suspense à la "Tubarão" de Spielberg. Painel, portas e outros componentes estavam cobertos por tecidos e adesivos pretos. O pouco que aparecia remetia ao antigo Song Pro, incluindo um console central praticamente idêntico ao do SUV.

O espaço interno é adequado para uma picape intermediária. Não chega a impressionar, mas acomoda bem os ocupantes e atende ao que se espera da categoria.

Como anda a BYD Mako?

O protótipo utilizava, acredito eu, o mesmo sistema híbrido plug-in flex do Song Pro. O conjunto combina um motor 1.5 aspirado a um propulsor elétrico dianteiro. No SUV, são 219 cv de potência combinada e 30,6 kgfm de torque.

A BYD ainda não confirmou se esses números serão mantidos na picape. Também não informou qual será a capacidade da bateria. Como referência, o Song Pro utiliza um pacote de 13,1 kWh na versão GL e outro de 18,3 kWh na GS.

A expectativa é que a Mako seja oferecida em duas configurações. Uma versão mais cara poderá até adotar o conjunto híbrido do Song Plus Premium, formado por um motor 1.5 turbo flex de 130 cv e dois propulsores elétricos. Nesse caso, a potência combinada é de 324 cv, com tração integral.

No breve contato em Interlagos, não houve sobra nem falta de força. A resposta inicial ao acelerador é ágil, suave e favorecida pela atuação do motor elétrico. Em velocidades mais elevadas, porém, o 1.5 aspirado sobe bastante as rotações e começa a se esgoelar para manter o ganho de velocidade.

O conforto acústico, ainda assim, mostrou-se mais do que adequado, especialmente para um protótipo. Vibrações e ruídos de acabamento também ficaram dentro do aceitável para um veículo que ainda não representa o produto definitivo.

No início do nosso teste o painel indicava 964 km de autonomia, embora a carga da bateria estivesse próxima de 70%. A própria engenharia alertou que as informações exibidas ainda não têm precisão. Tentei, por exemplo, mudar o modo de condução de Sport para Normal, mas o comportamento da picape permaneceu exatamente o mesmo.

A Mako utiliza suspensão independente nas quatro rodas, com sistema McPherson na dianteira e multilink na traseira. Seu comportamento lembra mais o de um SUV do que o de uma picape tradicional. Para usar a referência mais óbvia, lembra mais uma Toro com acerto um pouco mais macio.

A suspensão prioriza o conforto e agrada no asfalto quando a caminhonete é conduzida em ritmo tranquilo. O primeiro movimento é um tanto molenga, mas a carroceria não se inclina em excesso nas curvas mais acentuadas. A traseira permaneceu firme e bem apoiada durante as duas voltas.

A dianteira ainda precisa evoluir. Ela perde a trajetória com alguma facilidade e mergulha demais nas frenagens mais fortes. Os freios têm resposta borrachuda e sensibilidade parecida com a dos antigos Song Pro. Já a direção é pouco comunicativa e pesada além do necessário.

São, evidentemente, características que precisam ser colocadas em contexto. Trata-se de um protótipo, e a engenharia ainda tem tempo para recalibrar esses componentes. Mesmo com as ressalvas, o conjunto mostrou firmeza e um nível de maturidade bastante aceitável para esta etapa do desenvolvimento.

A dúvida maior está no uso profissional, no labor. Não conduzimos a Mako carregada, fora do asfalto ou em uma situação real de trabalho. O acerto confortável funciona bem com a caçamba vazia, mas poderá se tornar um problema na lida diária caso a engenharia não encontre um equilíbrio entre maciez e capacidade de suportar peso.

A Fiat Toro finalmente terá uma rival à altura?

É possível perceber que a engenharia da BYD esmiuçou as entranhas da Fiat Toro como um predador que estuda sua presa. Dimensões, posição de dirigir, conforto e comportamento indicam que a Mako tenta reproduzir a fórmula da rival, mas com respostas mais rápidas nas acelerações e retomadas.

A estratégia faz, claro, total sentido. Muita gente se esquece que a Renault foi pioneira no conceito de intermediárias com tocada de SUV no Brasil (alô, Oroch). Isso porque a Fiat Toro domina o segmento. Ou seja, em vez de tentar vencer o modelo da Stellantis com uma proposta mais rústica ou com a imagem tradicional das caminhonetes a diesel, a BYD aposta em eletrificação, conforto, pacote tecnológico e motorização híbrida flex.

Conclusão

Gostei do contato com a BYD Mako. Muito. Não acreditei que fosse para tanto. Nem a assessoria da fabricante, que acha que este repórter tem uma pinima com ela, irá acreditar.

Já dirigi mulas/protótipos muito inferiores. Ah. E deixa te contar um segredo: guiei até versões de produção de picapes que apresentavam comportamento inferior. Há ajustes importantes a fazer, sobretudo na direção, nos freios e no controle da dianteira, mas o ponto de partida é bom.

A BYD ainda não tem força de marca no universo das picapes. A Shark comprovou que equipamentos e ficha técnica chamativa não bastam para conquistar um público que costuma valorizar tradição, robustez, capacidade de trabalho e valor de revenda.

Por outro lado, a fabricante já conhece o consumidor brasileiro muito bem e tem uma equipe de marketing agressiva (no melhor dos sentidos) e muito competente para apresentar a Mako ao mercado.

Tanto é que nem vou terminar este texto com um questionamento. Vou de afirmação. Se a BYD Mako combinar preço competitivo, comunicação eficiente e uma calibração final bem resolvida, a Toro poderá encontrar uma rival à altura. E a fabricante chinesa, enfim, deixará de ter um "Sharknado" para ostentar um "Tubarão" de verdade. Um predador. Com trilha sonora do John Williams e tudo.

E a ofensiva talvez não termine aí. A BYD ainda trabalha em um projeto de picape menor, capaz de disputar futuramente o território da Fiat Strada.

A Mako ainda não está pronta e as duas voltas em Interlagos não permitem antecipar o desfecho. Mas o aperitivo é promissor. Por enquanto, este tubarão parece mais próximo de uma produção de Spielberg do que de mais um Sharknado. Falta descobrir se o público também comprará ingresso.

Estadão
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