Carpocalipse das locadoras: guerra de preços chinesa põe em risco o setor no Brasil
Novos modelos com preços competitivos pressionam os valores dos seminovos, comprimem margens e obrigam locadoras a rever suas estratégias
O avanço de marcas chinesas com carros mais baratos e tecnológicos gerou no Brasil o "Carpocalypse", fenômeno que comprime margens e força a desvalorização de seminovos. O descasamento entre o custo de estoque e os novos preços pressiona concessionárias e locadoras, afetando sobretudo empresas menores. Para mitigar perdas, gigantes do setor utilizam inteligência de dados, escala e gestão ágil de frotas para prever a depreciação e acelerar a desmobilização de ativos com menor impacto financeiro.
O Brasil está passando por um fenômeno batizado pelos especialistas de Carpocalypse, que pode ter efeito direto nos preços dos usados e no mercado de locação. O nome é uma junção das palavras em inglês para carro e apocalipse. De acordo com uma pesquisa recente divulgada pelo banco Scotiabank, com dados coletados pela Indicata, as marcas chinesas são as grandes responsáveis por esse movimento.
O head de Frotas da Indicata Brasil, Rodrigo Manzan, define o Carpocalypse como "um efeito em cadeia em toda a indústria". Basicamente, trata-se da chegada de novas marcas chinesas, com modelos mais tecnológicos e baratos, que estabelecem novos patamares de preço e pressionam os demais veículos do mercado.
"Quando o preço do carro novo cai, o usado precisa se reposicionar para continuar competitivo. O problema é que existe um descasamento entre o preço de reposição e o custo histórico do estoque: uma revendedora pode ter comprado determinado veículo por um preço e, pouco tempo depois, precisar vendê-lo por menos para acompanhar a nova realidade do mercado. Isso cria uma equação bastante delicada: se o revendedor mantém o preço, o estoque demora mais para girar; se reduz o preço, comprime sua margem", explica Manzan.
O Carpocalypse vai causar uma crise no mercado automotivo brasileiro?
Apesar de o relatório do Scotiabank tomar duas grandes locadoras como base, Rodrigo Manzan afirma que o problema também se estende a outros players do setor, como concessionárias, revendedoras e todo o mercado de seminovos.
Porém, o especialista não trata o momento como uma crise generalizada, mas como um processo de forte compressão de margens e reprecificação de ativos. E muito disso passa também pela percepção do consumidor brasileiro, que está reavaliando quanto vale um carro novo.
"Quando um veículo novo, bem equipado, chega ao mercado por um preço significativamente mais competitivo, ele passa a estabelecer uma nova referência para toda a categoria. O consumidor começa a comparar não apenas usados contra usados, mas o seminovo diretamente com o zero-quilômetro. Isso aumenta a pressão para que o usado seja suficientemente mais barato para justificar a compra", explica Manzan.
No entanto, esse processo pode ser prejudicial às empresas menores: "Os players mais eficientes, capitalizados e com maior capacidade de gestão de estoque, mix e valor residual — preço estimado que o veículo terá ao final de sua vida útil contábil ou no término de um contrato de financiamento, leasing ou locação — tendem a atravessar esse processo melhor. Já as operações mais alavancadas, com estoque caro e baixa velocidade de giro, ficam muito mais expostas", afirma Manzan.
Como as locadoras podem se proteger do Carpocalypse?
Com a compressão da margem de aquisição e o aumento do risco sobre o valor residual na saída, a estratégia é focar no ciclo completo do ativo e no custo total de propriedade (TCO, em inglês).
"As locadoras que conseguirem identificar rapidamente quais novos entrantes apresentam bom TCO, confiabilidade, aceitação do consumidor e liquidez no mercado de usados poderão transformar parte dessa ameaça em vantagem competitiva. Nesse cenário, a capacidade de prever valor residual e gerir o ciclo completo do ativo passa a ser ainda mais estratégica", explica Manzan.
O especialista também aponta uma arma poderosa que as locadoras possuem e que pode ser usada estrategicamente para enfrentar esse contexto: a informação.
"Elas (as locadoras) têm dados reais de utilização, manutenção, quilometragem, sinistralidade, demanda e comportamento de revenda de grandes volumes de veículos. Em um mercado mais volátil, essa inteligência pode permitir decidir qual carro comprar, por quanto comprar, quanto tempo manter e quando vender melhor do que um player menor", afirma Manzan.
Esse é um dos principais pontos aos quais a Localiza se apega. Ao JC, a empresa informou que utiliza sua escala de negócios, tecnologia e dados para transformar as mudanças tecnológicas da indústria automobilística em vantagens competitivas.
"Parcerias de grande porte, como a aquisição de 10 mil veículos da BYD, só foram formalizadas após mais de um ano de operações de teste. Esse processo gerou dados reais sobre custo de manutenção, aceitação do cliente e comportamento do ativo, respaldando a estimativa da taxa de depreciação e garantindo uma precificação adequada para a sustentação do retorno sobre o capital investido (Riuc) em patamares adequados", explica a Localiza.
A Localiza também aponta seu sistema de ecossistema de desmobilização como um dos pilares de sua solidez. "Ao acelerar a venda no canal de seminovos, com o recorde de 92 mil carros no segundo trimestre de 2026, a companhia reduziu a idade média dos veículos vendidos para 19 meses e manteve a frota operacional do RAC com idade média de apenas 8,2 meses", informa a empresa.
O resultado é um ciclo benéfico dentro da empresa. Com a frota mais nova, a Localiza informa que há uma redução drástica nos gastos com manutenção dos veículos e uma melhora na percepção de qualidade dos clientes que, consequentemente, passam a utilizar mais o serviço de locação.
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