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Carro elétrico avisa antes de pegar fogo?

Baterias são monitoradas em tempo real por sistemas eletrônicos que podem reduzir potência, interromper recargas e emitir alertas ao detectar qualquer anormalidade

30 jul 2026 - 10h28
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Um dos maiores receios de quem pensa em comprar um carro elétrico é a possibilidade de um problema surgir na bateria sem qualquer aviso prévio. Afinal, se esse componente concentra boa parte da energia do veículo, existe alguma forma de o motorista perceber que algo está errado antes que a situação se torne mais grave?

BYD Dolphin pega fogo no RS e é primeiro carro elétrico a sofrer incêndio no Brasil
BYD Dolphin pega fogo no RS e é primeiro carro elétrico a sofrer incêndio no Brasil
Foto: @tumultobr/X / Estadão

Para responder a essa pergunta, o Jornal do Carro ouviu especialistas em engenharia automotiva, análise de falhas e eletromobilidade. A conclusão é tranquilizadora: diferentemente do que muitos imaginam, as baterias dos veículos elétricos são monitoradas constantemente por sistemas eletrônicos capazes de identificar anormalidades e agir antes que elas evoluam para uma falha crítica.

Para chegar a esta conclusão, entrevistamos Erbis Biscarri, que é engenheiro e perito judicial no Brasil, com atuação em engenharia elétrica, eletrônica e automotiva. Especializado na análise de falhas e incêndios em veículos, é autor do livro Fires in Conventional and Electrified Vehicles: Theory, Prevention, and Analysis, publicado pela SAE International, no qual aborda as causas, prevenção e investigação de incêndios em carros a combustão e eletrificados. Ele também é associado da Sociedade de Engenharia Automotiva (SAE Brasil).

Além dele, falamos também com Eduardo Zambelli, que é diretor de Eletromobilidade da Associação de Engenharia Automotiva.

Segundo Zambelli, praticamente todos os carros elétricos modernos contam com um sistema de gerenciamento da bateria, conhecido pela sigla BMS (Battery Management System). Esse conjunto de sensores e softwares acompanha em tempo real informações como temperatura, tensão, corrente elétrica e o comportamento individual das células, funcionando como uma espécie de central de vigilância da bateria.

Quando qualquer parâmetro sai da faixa considerada segura, o próprio veículo pode tomar medidas preventivas para proteger o sistema. Ou seja, o problema dificilmente surge sem qualquer sinal. Em muitos casos, o motorista percebe alertas no painel, perda de desempenho, redução de potência ou até limitações no processo de recarga antes que a falha avance para um estágio mais sério.

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Na prática, essas intervenções funcionam como um mecanismo de autoproteção. Se o sistema identifica aquecimento excessivo, diferenças anormais entre células ou qualquer comportamento incompatível com o funcionamento esperado da bateria, ele pode reduzir a entrega de potência do motor, limitar a velocidade do veículo ou interromper temporariamente a recarga.

Segundo os especialistas, esse tipo de reação costuma causar estranheza porque o carro aparentemente perde desempenho sem motivo aparente. No entanto, essa redução de capacidade normalmente não representa um defeito em si, mas uma tentativa do próprio sistema de evitar que uma anormalidade evolua.

Isso não significa que todo alerta relacionado à bateria indique risco iminente de incêndio. Assim como ocorre em veículos a combustão quando uma luz de injeção eletrônica acende, os avisos podem estar relacionados a diferentes níveis de gravidade. A diferença é que, em um elétrico, o monitoramento acontece de forma muito mais intensa e contínua.

Para Biscarri, a principal mensagem é que o motorista não deve ignorar os sinais emitidos pelo veículo. Embora os sistemas atuais sejam projetados para prevenir situações críticas, qualquer alerta relacionado à bateria merece avaliação especializada. Afinal, quanto mais cedo uma anormalidade é identificada, menores são as chances de que ela evolua para um problema mais sério.

Em resumo, os carros elétricos atuais não dependem apenas da reação do motorista para se proteger. Eles monitoram continuamente o estado da bateria e são capazes de tomar decisões automáticas para preservar a segurança do sistema. Por isso, na maioria dos casos, o primeiro aviso de que algo não vai bem costuma aparecer muito antes de qualquer situação de emergência.

A bateria muda tudo

Ao contrário do que o senso comum sugere, o carro elétrico não é um sistema isolado de riscos. Ele continua sujeito a causas tradicionais de incêndio: curto-circuitos em sistemas auxiliares, falhas mecânicas, vandalismo ou até fontes externas de fogo. A diferença está no componente central do sistema — a bateria de alta tensão.

"Ele continua sendo um carro. Pode pegar fogo pelos mesmos motivos de um veículo a combustão. Mas tem uma particularidade: uma bateria muito grande, com enorme quantidade de energia concentrada", explica Biscarri.

Essa bateria, instalada geralmente no assoalho, é composta por centenas ou até milhares de células. Cada uma delas armazena energia por meio de reações químicas complexas, o que transforma o conjunto em um sistema altamente eficiente — mas que exige controle rigoroso.

Três caminhos para o incêndio

Apesar da complexidade do fenômeno, os especialistas convergem para três principais origens que levam à fuga térmica.

A primeira é o dano físico. Colisões, deformações no assoalho ou perfurações podem comprometer a integridade da bateria e provocar curtos internos. "Mesmo impactos que parecem pequenos podem gerar danos que não são visíveis externamente", afirma Zambelli.

A segunda está ligada ao carregamento. O uso de equipamentos inadequados, instalações elétricas improvisadas ou carregadores não homologados pode gerar sobrecarga e aquecimento excessivo. Biscarri cita casos em que o uso incorreto de equipamentos levou a incêndios ainda durante a recarga.

A terceira envolve falhas internas, que podem ser resultado de defeitos de fabricação — hoje considerados raros — ou da degradação química natural das células ao longo do tempo. Nesse processo, podem surgir microcurtos internos que evoluem para aquecimento e, em casos extremos, incêndio.

Por que parece mais perigoso

Se os elétricos pegam menos fogo, por que a sensação de risco é maior?

A resposta está no impacto visual e na dinâmica do incêndio. Quando um carro elétrico entra em fuga térmica, as chamas tendem a ser mais intensas, com emissão de gases e possibilidade de pequenas explosões. Isso gera imagens mais dramáticas — e, consequentemente, maior repercussão.

"É mais cinematográfico. Chama mais atenção, mesmo sendo mais raro", resume Biscarri.

Além disso, o tempo de combate é maior. Enquanto um incêndio em carro a combustão pode ser controlado em minutos, casos envolvendo baterias podem levar horas.

Incêndios mais difíceis de apagar no carro elétrico

O desafio para conter um incêndio em carro elétrico está justamente na bateria. Como ela fica protegida e selada, o acesso direto às células é limitado. Além disso, o calor gerado internamente continua alimentando a reação mesmo após a contenção inicial das chamas.

"Você apaga e ele pode voltar. O problema é resfriar a bateria por dentro", explica Eduardo Zambelli.

É por isso que o combate exige uma abordagem diferente. Segundo o engenheiro e perito Erbis Biscarri, não se trata apenas de apagar o fogo visível, mas de reduzir a temperatura interna do conjunto. "Não é um incêndio convencional. Você precisa resfriar a bateria por completo para evitar a reignição", afirma.

Na prática, isso significa uso de grandes volumes de água. De acordo com o especialista, o combate pode exigir milhares de litros — em alguns casos, estimativas chegam à casa de 40 mil litros — além de monitoramento contínuo do veículo após o controle das chamas.

Calor, enchente e uso diário

Um dos mitos mais comuns é que o calor intenso de países como o Brasil aumentaria o risco de incêndio. Os especialistas descartam essa hipótese.

"As baterias são projetadas para operar em diferentes condições climáticas. Não há evidência de que o calor, por si só, cause incêndios", afirma Zambelli.

O mesmo vale para exposição à água ou enchentes, desde que não haja danos estruturais ao veículo.

Onde está o risco real da bateria do carro

Se há um ponto de atenção claro, ele está fora da engenharia do carro — e mais próximo do uso.

Intervenções fora do padrão, histórico de colisões, reparos mal executados e uso de equipamentos inadequados aparecem como fatores recorrentes nos casos analisados.

"A tecnologia é segura, mas precisa ser usada dentro das condições corretas", resume Biscarri.

Menos frequente, mais complexo — e ainda em evolução

Carros elétricos não são imunes a incêndios, mas os dados indicam que o risco é significativamente menor do que em veículos a combustão. Levantamentos citados por Erbis Biscarri apontam cerca de 25 casos a cada 100 mil veículos elétricos, contra aproximadamente 1.500 em modelos a combustão — uma diferença que pode chegar a 50 vezes.

"Quando você olha proporcionalmente, o veículo a combustão ainda pega fogo muito mais", afirma o engenheiro. "O problema é que o incêndio no elétrico chama mais atenção e gera uma percepção diferente do risco."

Mesmo em cenários mais conservadores, como o da Noruega, onde a frota elétrica já é expressiva, a incidência segue menor, ainda que em proporção reduzida, na casa de seis vezes. Ainda assim, os próprios especialistas ponderam que os números globais não são totalmente consolidados. "Faltam critérios padronizados para classificar esses incêndios. Isso dificulta comparações diretas entre tecnologias", explica Biscarri.

Esse cenário ajuda a entender por que o tema ainda gera dúvidas. O incêndio em elétricos é mais raro, mas também mais complexo. A chamada fuga térmica pode ocorrer por diferentes caminhos — elétrico, mecânico ou químico — e, uma vez iniciada, tende a se propagar rapidamente entre as células da bateria. "É uma reação que se autoalimenta. Quando começa, o controle fica muito mais difícil", diz Eduardo Zambelli.

Por outro lado, a evolução da tecnologia tem caminhado na direção oposta. Segundo os especialistas, as baterias atuais já apresentam maior durabilidade e menor taxa de falhas do que o previsto inicialmente. "Os sistemas de controle evoluíram muito. Hoje você tem monitoramento constante e mecanismos de proteção que evitam que o problema avance", afirma Zambelli.

Na prática, isso significa que o risco existe, mas está cada vez mais controlado — especialmente quando o veículo é utilizado dentro das condições recomendadas. "Na maioria dos casos mais críticos, há um fator externo envolvido, como dano estrutural, intervenção inadequada ou uso fora do padrão", aponta Biscarri.

A tendência, segundo os engenheiros, é que a eletrificação avance acompanhada de normas mais rígidas e maior padronização global. "A tecnologia ainda está evoluindo, mas a tendência é de redução desses casos ao longo do tempo", diz Zambelli.

Até lá, entender como esses incêndios acontecem — e em que situações — é essencial para colocar o tema em perspectiva. "Não é uma tecnologia mais perigosa. É uma tecnologia diferente, que exige entendimento", conclui Biscarri.

Estadão
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