Museu do Videogame celebra 15 anos no Tietê Plaza com mais de 500 consoles; entrevista
Em entrevista, o curador Cleidson Lima fala sobre a evolução do público e o futuro dos videogames em exposição gratuita em São Paulo.
Há 15 anos, quando o Museu do Videogame Itinerante começou a rodar o Brasil, videogame ainda era visto por muita gente como brinquedo, passatempo ou coisa de nicho. Hoje, depois de passar por 19 estados e receber milhões de visitantes ao ano, a exposição se consolidou como um espaço de memória, afeto e história cultural.
Em sua edição comemorativa no Tietê Plaza, o museu não celebra apenas consoles antigos. Ele celebra gerações. Do Atari que marcou a infância dos anos 80 ao PlayStation 4 que, para muitos jovens, já virou “relíquia”, a exposição mostra como o tempo nos videogames passa diferente, e como cada geração enxerga sua própria história ali.
Conversamos com o curador do Museu do Videogame, Cleidson Lima, para entender como o público evoluiu ao longo desses 15 anos, como funciona a curadoria de um acervo com mais de 500 consoles e por que ocupar espaços como shoppings é uma forma de democratizar a cultura gamer.
Game On - O Museu do Videogame já passou por 19 estados e recebe milhões de visitantes ao ano. Como vocês enxergam a evolução do público ao longo desses 15 anos?
Cleidson Lima - A exposição Museu do Videogame Itinerante tem uma característica interessante. Quanto mais anos ela faz, maior é o público que enxerga o videogame como história. Não parece, mas o PlayStation 4, por exemplo, um console que é ainda muito vivo no Brasil e em boa parte do mundo, já tem 13 anos de vida. Sim! A história no mundo dos videogames às vezes não parece tão antiga, mas há muitas crianças que veem esse console como uma "relíquia". E esse comportamento vale para muitas idades; para muitos, o Atari do início da década de 80 é um console antigo; para outros, um Super Nintendo de 1994 é o que traz a lembrança mais longínqua de história.
Game On - Com mais de 500 consoles em exposição, quais são os critérios para definir o que entra nessa edição comemorativa de 15 anos? Existe um recorte histórico, tecnológico ou afetivo na escolha das peças?
Cleidson Lima - Sim! O Museu do Videogame Itinerante segue uma lógica cronológica dividida em nove gerações. Nossa exposição já engloba todos os principais consoles campeões de vendas da história, desde a década de 70 até os dias atuais. No entanto, o que nos move mesmo são os que nunca vieram ao Brasil, bem como aqueles que raramente foram vistos. Consoles da Europa, Estados Unidos, Japão, Oceania e até da antiga União Soviética fazem parte do acervo. E nem sempre este itens são comprados; uma grande parte é fruto de doações de todo o Brasil e alguns lugares do mundo. Recentemente tivemos uma doação de um grande colecionador que, literalmente, encheu um caminhão. Foram cerca de 100 consoles e computadores usados para jogos nas décadas de 80 e 90, além de centenas de jogos e acessórios.
Game On - Ao levar o Museu do Videogame para o Tietê Plaza, qual é a importância de ocupar espaços como shoppings centers na democratização do acesso à cultura gamer?
Cleidson Lima - Em seus 15 anos de história, a premissa do Museu do Videogame Itinerante sempre foi levar o evento totalmente gratuito e aberto ao público. Só que há um ponto a mais: levamos a um público que provavelmente nunca sairia de casa para ir a um evento de videogames. Nossos visitantes, em sua maioria, são formados por avós, pais, filhos, netos que se deparam com uma bela memória afetiva quando estão passeando pelo shopping e ali se conectam às suas histórias por meio de lembranças com os videogames. E nosso evento não é só para ver ou contemplar.. é um evento para jogar. Não é incomum encontrarmos "tiozões" chorando jogando River Raid em frente a um Atari 2600. Não é por causa do console em si; é por todas as lembranças de pessoas que faziam parte daquele momento. E como não cobramos ingressos ou qualquer tipo de contrapartida para participar, definitivamente qualquer pessoa pode ter acesso a um grande acervo de história e diversão.
Game On - Manter consoles como Magnavox Odyssey, Telejogo Philco-Ford e Virtual Boy funcionando é um desafio técnico. Como é o trabalho de preservação e restauração desses equipamentos para garantir que ainda possam ser jogados pelo público?
Cleidson Lima - É um trabalho diário, que dura o ano inteiro. Além de controles e consoles que são diretamente utilizados para jogar no evento, há também aqueles que estão somente em exposição. Ironicamente, um videogame parado "pifa" mais do que um ligado. A observação e revisão deve ser constante. Para que isso aconteça, temos equipe técnica e muitos consoles e controles de reserva para manter a exposição sempre funcionando.
Game On - O evento mistura relíquias históricas com áreas dedicadas a PlayStation 5, Xbox Series e VR. Como vocês equilibram memória e inovação, e qual é o próximo passo do Museu do Videogame em termos de expansão ou novas experiências interativas?
Cleidson Lima - Um engano comum é que museu é algo para "coisas velhas". Na verdade, museus são para preservar ou chamar atenção para a história de algo, mesmo que ainda não existam. Nós temos no Brasil o Museu do Amanhã, por exemplo, que traz conhecimento ainda do que virá no futuro. O nosso museu é mais ou menos isso. Trazemos, em um só lugar, o antigo e o moderno para que todos tenham possibilidade de conhecer a evolução dos videogames. Os mais velhos se surpreendem com a tecnologia de realidade virtual da mesma forma que um garoto da geração Z olha para um Telejogo Philco Ford, de 1977.
As novas gerações de videogames são fantásticas. Os jogos parecem filmes. Só que, para chegar onde estão, foram 54 anos de evolução. O próximo passo é contar uma história do "fim dos consoles de videogames". Sim! Estamos caminhando para isso e este futuro não quer dizer que será algo ruim. Teremos videogames funcionando diretamente em "todo lugar". Já vemos isso nos celulares e tvs, mas teremos jogos interativos em óculos comuns, no pára-brisas do carro, nos eletrodomésticos.
Conclusão
Ao ouvir Cleidson, fica claro que o Museu do Videogame não é apenas um acervo técnico. É um espaço onde a tecnologia encontra a memória afetiva. Onde um avô revive o River Raid enquanto o neto descobre o que era jogar sem internet. Onde um console de 1977 pode surpreender tanto quanto um óculos de realidade virtual.
Talvez o ponto mais interessante seja a visão de futuro: ao mesmo tempo em que preserva cinco décadas de evolução, o museu já discute o “fim dos consoles” como os conhecemos hoje. Um cenário em que o videogame deixa de estar preso a uma caixa sob a TV e passa a existir em todo lugar, do celular ao para-brisa do carro.
Se há algo que esses 15 anos provam é que videogame não é apenas tecnologia. É história viva. E enquanto houver alguém emocionado ao ligar um Atari ou impressionado com a realidade virtual, haverá motivo para preservar essa trajetória.