Virada histórica diante do Egito deixa argentinos mais confiantes no tetracampeonato
Em menos de 14 minutos, os argentinos passaram da angústia à euforia, da eliminação inevitável ao sonho do quarto título mundial. A maré de torcedores invadiu praças e ruas de Buenos Aires, revivendo o cenário do campeonato de 2022.
Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires
A torcedora Cintia Linconao se contorce de tanta angústia. Respira fundo, rói as unhas, murmura em forma de oração, pede aos deuses do futebol, promete amor eterno à seleção. Numa mão, segura uma haste com uma bandeira argentina em cuja ponta há um rosto de Lionel Messi.
São 33'42" do segundo tempo. Contra todos os prognósticos, a Argentina sucumbe perante um rival sem hierarquia no futebol. Surpreendentemente, os atuais campeões do mundo perdem por 2 a 0 para o Egito. Os gols egípcios esfriaram ainda mais as baixas temperaturas que resistem a abandonar a cidade.
Cintia ainda não sabe, mas está a ponto de quebrar o gélido silêncio, comum às mais de 15 mil pessoas que assistem a esta partida das oitavas de final numa área dos Bosques de Palermo, em Buenos Aires.
Os torcedores parecem resignar-se à eliminação prematura da Copa do Mundo. No entanto, para delírio geral da nação, nos próximos quatro ataques, a Argentina fará três gols num dos maiores exemplos de determinação e de superação.
"Quando nos fizeram o segundo gol, tive muita vontade de chorar. De verdade, muita vontade. Senti a impotência diante de uma eliminação que aparecia no horizonte. Depois, eu pensei que somos argentinos e que conseguiríamos virar. O que veio depois foi pura emoção", desabafa Cintia, de 35 anos, à RFI.
Esta professora de educação física e árbitra de futebol destaca o exemplo de perseverança da Argentina.
"Os jogadores deram o máximo de si. Jogaram com o coração e com a alma. Mostraram que continuam sendo os melhores", agradece.
Fé e perseverança
Pela primeira vez nesta Copa do Mundo, a Argentina começou perdendo e se manteve atrás do placar. Se os dois gols do Egito (sem considerar o anulado) expuseram as falhas na zaga, a virada sobre o Egito alimenta a confiança da torcida na capacidade de a equipe se sobrepor à adversidade, mesmo quando faltam poucos minutos para o final da partida e mesmo quando Lionel Messi perdeu mais um pênalti no começo do jogo (o anterior foi contra a Áustria na fase de grupos). Em condições semelhantes às do jogo entre Brasil e Noruega, a postura argentina foi diametralmente oposta à da seleção brasileira.
"Temos de acreditar nesta seleção argentina, capaz de se adaptar às condições do jogo, de solucionar as suas falhas e de virar o placar. Temos de recordar que temos o melhor jogador, Messi", celebra Cintia.
Perto dali, o policial César Alberto, de 43 anos, aproveitou a folga para assistir à partida com o filho. César reconhece que "os dois gols sofridos pela Argentina preocupam", mas também exalta a dedicação de corpo e alma dos jogadores argentinos para reverter um placar adverso tão perto do final do jogo.
"Preocupa, mas precisamos ter fé nesses jogadores porque sempre entregam tudo em campo. Não podemos pensar que acabou. Temos de confiar. Leo (Messi) perdeu um pênalti. Sofremos, mas confiamos nele e ele respondeu. São campeões do mundo, somos campeões do mundo", destaca César, enquanto, orgulhoso, beija a camiseta da seleção argentina.
Nicolás Adi, de 32 anos, estufa o peito e sorri. Usa uma peruca com as cores da bandeira argentina, a mesma que carrega nas costas como uma capa. O rosto totalmente pintado com duas faixas azul celeste e uma branca, além do nariz amarelo, compondo novamente a bandeira argentina, agora em forma de máscara.
"Sofremos muito. Confesso que, depois do segundo gol do Egito, cheguei a pensar que não venceríamos. Pensei que, no máximo, empataríamos e, com sorte, conseguiríamos levar o jogo para a prorrogação. Mas conseguimos virar o jogo. Passamos do inferno ao céu", descreve Nicolás à RFI.
"Foi como uma redenção à base de garra e de sentimento. Sinto que estamos para coisas grandes", confia Nicolás, negando-se a mencionar a palavra "campeão" para não dar azar antes da hora.
Multidão e distúrbio
Das praças, do trabalho, das casas e dos bares, milhares de torcedores foram ao Obelisco da Avenida 9 de Julio, ponto de encontro das grandes vitórias da seleção argentina. Caravanas de carros, buzinas, cornetas, bandeiras e todo o repertório de cantigas de alento noite adentro.
De repente, um roubo de um celular gera um distúrbio de proporções. Os abraços e as cantigas se transformam em brigas. A Polícia cerca a área e faz 19 prisões. Garrafas e pedras lançadas. Seis policiais e três torcedores ficaram feridos.
O próximo duelo será contra a Suíça na noite do próximo sábado (11), mas o rival para o qual todos olham é a Inglaterra. O cruzamento nessa hipotética semifinal é mais do que apenas futebol.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.