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"Guru" lembra dramas de Agassi e projeta carreira longa para Federer

6 dez 2012
07h44

Henrique Moretti

Quando questionado por fãs e jornalistas se, além de preparador físico de Andre Agassi, era também o guarda-costas do tenista, Gil Reyes costumava sorrir e responder: "toque nele e veja o que acontece".

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Seis anos se passaram desde que Agassi fez a última partida da carreira, uma derrota para o alemão Benjamin Becker em 2006, no Arthur Ashe Stadium, a quadra principal do Aberto dos Estados Unidos.

Em agosto, durante a última edição do torneio, Gil caminhava exatamente em frente ao local e atendia a pedidos de fotos de fãs quando foi abordado pelo Terra. Aos 60 anos, Reyes segue com a forma física semelhante à que impressionou Agassi na primeira vez em que eles se viram, em 1989, quando tinha 1,40 m de peito para 1,80 m de altura e levantava 250 kg no supino. Os números são da autobiografia do jogador, lançada no Brasil em 2010 pela Editora Globo.

O encontro mudou a vida de Gil: até então este americano com sobrenome latino, filho de mexicanos, era o responsável pelo condicionamento físico invejável da equipe de basquete da Universidade de Nevada, em Las Vegas, e "não sabia nada de tênis", conforme relata.

Logo começou um relacionamento que levou Reyes a trocar a bola laranja pela amarela, viajando o circuito ao lado de Agassi. Mas Gil não foi só o responsável por transformar o pupilo de um "potrinho", como gosta de dizer, a uma máquina resistente que só parou de jogar aos 36 anos. Ele também era conselheiro, confidente, "guru", uma figura paterna que praticamente substituiu o verdadeiro pai do atleta, Mike, que vivia com o filho no limiar entre o amor e o ódio.

Ex-boxeador que representou o Irã nos Jogos Olímpicos de 1948 e 1952, Mike perseguiu a ideia de tornar Andre um profissional do tênis e o fazia, aos sete anos de idade, dar 2.500 rebatidas por dia em um canhão de bolas. O cenário de pressão ajudou a transformar Agassi em um jogador rebelde, que odiava o esporte, atuava com peruca e roupas extravagantes e chegou a tomar metanfetamina para aliviar a depressão.

No livro, Agassi conta essas histórias e admite que escreveu uma carta à Associação dos Tenistas Profissionais (ATP) mentindo sobre o não consumo da droga para escapar de uma punição por doping. Ele lembra também o fracasso do casamento com a atriz Brooke Shields e a queda para a 140ª posição do ranking da entidade até o reerguimento para se tornar o número 1 mais velho da história, aos 33 anos.

Se Agassi se reergueu muito disso se deve a Gil Reyes. Nesta entrevista, ele lembra a trajetória de altos e baixos do americano e compara a longeva carreira deste com a do suíço Roger Federer, 31 anos, que nesta semana está no Brasil pela primeira vez para fazer exibições do Gillette Federer Tour.

Ao ouvir o nome do País, o mesmo onde Agassi ganhou o primeiro título como profissional, em Itaparica em 1987, Reyes sorri e cita espontaneamente o brasileiro Gustavo Kuerten, o qual classifica como um dos "nossos tenistas favoritos". Ele diz exatamente "nossos", referindo-se a Andre na primeira pessoa do plural. Jeito de falar de preparador físico, de guarda-costas, de guru, de pai.

Confira a entrevista exclusiva com Gil Reyes, ex-preparador físico de Andre Agassi:

Terra - Seu trabalho com Agassi teve vários altos e baixos. Foi muito difícil?
Gil Reyes - O trabalho com Andre não apenas foi de tênis, verdade? Foi de estar ali com ele, dar apoio, força, não só no tênis, mas como ser humano. A subida era muito interessante, porém com muitas complicações, portanto ele sempre precisava de força e talvez da presença de alguém que lhe queria muito bem. E eu quero, então foi um caminho lindo, mas também muito difícil.

Terra - Agassi tinha um problema de nascença na coluna (espondilolistese lombar) que o fazia sentir dores fazendo exercícios na quadra e fora dele, e você chegou a montar aparelhos do próprio punho para que se adaptassem a ele. Você teve de pesquisar muito?
Gil Reyes - Sim (sorri). Eu os fiz a partir dessas ideias de necessidade. Eu disse: "olha, Andre, você me diz o que precisa e eu faço". Ele dizia: "você sabe fazer isso?". E eu: "não, mas tratarei de aprender". E isso nos deu bastante êxito, deu certo cumprir com esse desejo e tudo saiu muito bem com sua vida, sua história. Uma carreira muito linda.

Terra - Em sua autobiografia Agassi conta que você não tinha conhecimento nenhum de tênis quando o conheceu...
Gil Reyes - Nada, nada. Eu comecei com Andre quando ele tinha 18 anos. Era um potrinho. Quando ele me perguntou se eu o ajudaria, eu disse: "olha, Andre, eu não sei nada de tênis". Ele me disse: "não se preocupe, eu sim sei e sou bastante bom, porém não tenho força, não tenho o que preciso para ter êxito". Ele perdeu para Alberto Mancini na Itália e disse: "eu me senti muito fraco, jamais quero me sentir assim, faça-me forte, ponha-me forte". Andre era muito magrinho (tinha 67 kg para 1,78 m em 1989). E eu disse: "ok, trataremos". E começou pouco a pouco e com mais força ganhou confiança. Ele dizia: "Boris Becker, Stefan Edberg, Ivan lendl são muito bons, porem se você me faz forte, eu posso ganhar deles" (ri). Em 1989 perdeu para Mancini na final de Roma e logo depois se dedicou a ficar mais forte e sim, ficou.

Terra - Quando vocês se conheceram o seu time de basquete na Universidade de Nevada (os Runnin' Rebels) era conhecido pelo grande condicionamento físico, certo?
Gil Reyes - Minha equipe era muito forte, fortíssima, fomos campeões do país (da primeira divisão da NCAA na final contra Duke, em 1990). Ele (Agassi) gostou de como jogávamos: jogamos forte, muito feroz, ele gostava disso e me disse: "ponha-me assim como eles". Eu disse "ok" e com isso começamos.

Terra - Você é de origem latina, mas onde nasceu?
Gil Reyes - Meu pai trabalhou em Los Angeles, fomos a Los Angeles e cresci lá, mas minha família era do México e não falei inglês até que tinha 12 anos, puro espanhol (os pais de Gil Reyes eram lavradores). E eu digo sempre a Andre que até hoje eu rio em espanhol, choro em espanhol e amo em espanhol. As demais coisas digo que falo inglês, porém tudo o que sinto, sinto em espanhol.

Terra - E você ensinou algo de espanhol a Agassi?
Gil Reyes - Não, não. Algumas palavras, porém nem todas boas, verdade? (ri)

Terra - E agora você trabalha como preparador físico do programa da Adidas.
Gil Reyes - Sim. Com (Jo-Wilfried) Tsonga, com (Fernando) Verdasco, com Jack Sock, o americano novo que está vindo. Com bastante gente, Sorana Cirstea também.

Terra - Mas não é um trabalho em tempo integral, né? Você segue morando em Las Vegas?
Gil Reyes - Vivo em Las Vegas ainda, e eles vêm a Las Vegas treinar. Eu não sigo no circuito como antes, só com Andre, não? Porém estou disponível para eles.

Terra - Você já era casado e tinha três filhas quando conheceu Agassi e deixou o trabalho na universidade. Era complicada a opção de começar a viajar com ele?
Gil Reyes - Sim, muito difícil. Eu ir com ele por tanto tempo foi muito difícil, mas graças a Deus se deu tudo bem.

Terra - Sobre o livro, quando Andre teve a ideia de escrevê-lo, ele lhe pediu alguma opinião? Porque acabou contando muitas coisas, todas as histórias, inclusive as polêmicas...
Gil Reyes - No princípio ele não quis escrever o livro. Depois pensou, todo mundo lhe perguntava, lhe exigia o relato, diziam: "vamos, porque sua história não foi só de tênis: você teve muitos fracassos, porém se colocou de pé". Essa é uma história que a muita gente significa algo em suas vidas, porque todo mundo fracassamos em algo, não? Todo mundo temos dores, dificuldades, tristeza com nossos triunfos e êxitos. Eu disse a Andre: "sua carreira não foi perfeita, você caiu muito na quadra e fora, mas sempre de pé. Sempre se colocou de pé como homem de honra até quando cometeu erros e decisões terríveis resultando de suas tristezas ou inseguranças, porém as enfrentou como um guerreiro. Sim, estou de acordo com eles que exigem que você escreva seu livro". E sim, houve muita reação ao livro, verdade?

Terra - Agassi conta no livro que no fim da carreira fazia infiltrações de cortisona, convivia com duas hérnias de disco e muitas dores. Como ele estava fisicamente no último torneio, depois da vitória sobre Marcos Baghdatis no Aberto dos EUA de 2006?
Gil Reyes - Terminou a partida, ele estava aqui, no estacionamento de costas, no cimento. E eu de pé protegendo-o, cuidando dele, e ele de costas dizendo: "não posso, não posso". E ficou caído, chegou o carro para ele, levantei-o, levamo-lo, e se acabou. Porém, claro, teve de jogar outra vez com Benjamin Becker (foi derrotado pelo alemão na terceira rodada do Grand Slam), mas sim, sim - uma história muito forte, muito profunda.

Terra - Quando você assistia aos jogos de Agassi estava sempre vestido de gravata e paletó e tinha o semblante muito sério. Aqui no Aberto dos EUA você é reconhecido pelo público e sorri bastante. Os fãs sempre se lembram de Agassi?
Gil Reyes - Sim, (me reconhecem) por Agassi, para mim é uma honra. (Na quadra) nada de emoções, de reação, e todo mundo me perguntava "por que não tem emoções?" Eu dizia: "as tenho dentro de mim". Dentro de mim tenho uma emoção e todos os sentimentos, porém tratava de não mostrá-los. Os fãs de Andre me veem e me conectam com Andre pelo tanto que gostam dele. Porém para mim não sou famoso, não sou estrela, sou uma pessoa que reconhece que o potrinho com o qual estive por tanto tempo é amado pelo público. Me veem, tem recordações de Andre, (trocam) umas palavrinhas. Para mim claro é uma honra.

Terra - Agassi parou de jogar aos 36 anos. Federer tem 31 e ainda está no auge, brigando para ser número 1 do mundo. Acredita que Federer possa ter uma carreira tão ou mais longa?
Gil Reyes - Parece que sim, porque o modo como Federer joga tênis convém muito a seu corpo. Andre tinha que batalhar sempre por cada ponto, não tinha saques tremendos, somente tinha isso, não (aponta para o coração)?. E seu talento incrível. Mas teve que lutar por cada ponto, são muitas batalhas que custam muito ao corpo. Federer joga diferentemente, um jogo incrível, portanto... tomara. Porque respeito muito Federer, sou fã dele, então tomara que siga muito tempo no circuito. Andre com 33 anos foi número 1 do mundo - incrível! E depois de 29 ganhou cinco (Grand) Slams - cinco depois! Quiçá Federer possa bater (a marca), porque ele não se faz nada que se coloque no negativo. Ele não só é campeão, mas se porta como campeão: se porta como um galã, um guerreiro, e para nós é um orgulho que ele represente o jogo que tanto amamos.

Terra - Em dezembro Federer visitará pela primeira vez o Brasil. Você também teria vontade de conhecer o País? Sabemos que o primeiro título da carreira de Agassi foi em Itaparica em 1987.
Gil Reyes - Seria bom... Itaparica, sim, foi seu primeiro. Somos grandes fãs de Guga. Guga e Andre jogaram várias vezes. Ele e (Patrick) Rafter são nossos favoritos porque saíam com a personalidade tranquila. Quando o árbitro de cadeira dizia "play" eram animais, incríveis guerreiros. Guga era incrível (diz a palavra pausadamente, separando bem as sílabas), mas quando terminava a partida "ok, ok". Isso é para nós um nível de dignidade incrível e assim deve ser o esporte. Com guerreiros, tratando um de acabar com o outro na quadra, porém terminando a partida com honra e dignidade. E esses foram Guga e Rafter. Os dois mais incríveis, em inglês se diz "sportsmen" (cavalheiros), portanto tenho muito respeito por Guga.


Ex-preparador físico de Agassi, Reyes esteve em 2012 no Aberto dos EUA, palco da despedida do tenista
Ex-preparador físico de Agassi, Reyes esteve em 2012 no Aberto dos EUA, palco da despedida do tenista
Foto: Henrique Moretti / Terra
Fonte: Terra
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