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ATP

Ex-baixinho, Simon dribla desconfiança e se opõe ao tênis-força

25 fev 2012 - 09h16
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Henrique Moretti

Se Gilles Simon tivesse levado em consideração o que muitas pessoas lhe diziam quando mais jovem, não teria se tornado um dos melhores tenistas do mundo. Muito menor que os colegas de sua idade até então, o francês ouvia que não poderia ser um jogador profissional enquanto se espelhava em um americano baixinho que surpreendeu o mundo ao vencer Roland Garros em 1989: Michael Chang.

Simon conta sobre a admiração por Chang, 40 anos, que conquistou 34 títulos na carreira e foi o número dois do planeta em 1996, em entrevista exclusiva ao Terra, concedida na semana passada, durante o Aberto do Brasil.

O francês cresceu bastante desde a época na qual driblava a própria desconfiança usando o exemplo do americano. Ainda assim, um desentendido pode observar Simon de perto e duvidar que ele seja o 12º colocado do ranking mundial e tenha sido o sexto em 2009.

Com 1,83 m e 70 kg, o atleta nascido em Nice é um dos mais franzinos do circuito e não tem o jogo baseado na potência, e sim na velocidade de pernas e nos contra-ataques. Entre os 50 melhores da lista da Associação dos Tenistas Profissionais (ATP), apenas o japonês Kei Nishikori, o 17º, de 1,78 m e 68 kg, é mais leve que o francês - o alemão Philipp Kohlschreiber, o 30º, e o russo Nikolay Davydenko, o 40º, também têm 70 kg, mas são mais baixos, com 1,78 m.

A média de altura e de peso dos top 10 do ranking atual é de 1,87 m e 85 kg. Os melhores tenistas do mundo são mais altos e mais fortes do que na era de Chang, o qual compensava o 1,75 m com uma raquete mais longa. Simon lamenta o novo cenário dizendo que costumava amar o tênis porque todo mundo podia jogar: "os muito grandes, os normais, os pequenos".

Atletas como o espanhol David Ferrer, número cinco do mundo com 1,75 m e 73 kg, são exceções nessa terra de gigantes, e também é o próprio francês. Este confessa ainda usar truques que aprendeu quando era muito baixo e observava o rápido jogo de pernas de Chang.

Simon tem sucesso na tática, tanto que é um dos três únicos top 20 do ranking, junto ao francês Jo-Wilfried Tsonga e ao argentino Juan Martín del Potro, que já bateu pelo menos uma vez na carreira todos os quatro mais bem posicionados da lista: o sérvio Novak Djokovic, o espanhol Rafael Nadal, o suíço Roger Federer e o britânico Andy Murray.

O francês, 27 anos, também é um dos poucos tenistas de ponta, ao lado de Federer, a ter tido um filho e a ter se casado antes da aposentadoria. Ao Brasil, por exemplo, viajou sem a família, o que admite ser "difícil". Mas ele não faz drama: desde bem pequeno, Simon se acostumou a driblar a desconfiança.

Confira a entrevista exclusiva com o francês Gilles Simon:

Terra: Você diz em seu perfil no site da ATP que quando juvenil admirava Michael Chang porque ele "mostrava que não era preciso ser alto para ser um ótimo jogador". Você poderia falar mais sobre isso?

Gilles Simon: Quando eu era mais jovem eu era muito, muito pequeno em comparação a outros jogadores de minha idade. Era difícil porque era já uma época em que diziam que se deveria ser grande, que se deveria ser forte para jogar bem tênis, que o tênis moderno era formado por jogadores muito grandes e vigorosos. Na época havia jogadores como (o sueco Thomas) Enqvist (de 1,90 m e 88 kg, número quatro do mundo em 1999). Então quando eu era pequeno me diziam sempre que seria difícil. É verdade que cresci ao mesmo tempo em que Michael Chang jogava na televisão, e isso me ajudou a ver que ele, que era muito baixo também, quando jogava com (o alemão Boris) Becker (de 1,90 m e 85 kg, número um do mundo em 1991), quando ele chegou, ganhou um título de Grand Slam. Ele era mais "malandro" que os outros, isso me ajudou bastante.

Terra: Você cresceu, mas não é o tenista mais alto nem o mais forte da atualidade. Você acredita que é importante haver jogadores como você no circuito? Isso mostra que no tênis vale mais a técnica do que a força?
Gilles Simon: Uma coisa que eu adorava no tênis era que todo mundo podia jogar: os muito grandes, os normais, os pequenos, e eu achava isso bom. Nós podíamos olhar um jogo e ver, como eu disse, Becker e Chang - e não sabíamos quem iria ganhar. Havia muitos jogadores de físicos diferentes. E hoje não é mais o caso, o maior tem vantagem, é mais importante ser forte. É por isso que não há um só jogador que fica abaixo de 1,80 m. Eu acho isso uma pena.

Terra: Ainda sobre Michael Chang. Ele ganhou Roland Garros e lembro que quando atuou lá pela última vez, em 2003, contra Fabrice Santoro, os parisienses o adoravam e o aplaudiam. É raro um americano ser adorado pelos franceses, não?
Gilles Simon: É o que eu digo: ele tinha alguma coisa de particular. Já em 2003 ele tinha um físico impressionante, um jogador baixo como ele, muito veloz, que corria muito rapidamente. Eu creio que na França sempre amamos isso. As pessoas gostavam de Fabrice Santoro quando ele ganhava de Marat Safin porque de um lado havia Safin, que batia forte, e do outro um jogador menor, mais engenhoso, que jogava com as duas mãos.

Chang se despediu de Roland Garros em 2003 perdendo na primeira rodada para Santoro por 7/5, 6/1 e 6/1. O francês abusava de slices, deixadinhas e voleios e batia com as duas mãos na raquete em ambos os lados. Ele sempre complicou a vida de Safin e encerrou a carreira com sete vitórias em nove confrontos realizados com o russo. Santoro, de 1,78 m e 74 kg, somou seis títulos na carreira e foi o 17º colocado do ranking em 2001; Safin, de 1,93 m e 88 kg, levantou 15 troféus, incluindo dois de Grand Slams, e liderou a lista em 2000.

Terra: E você é um pouco assim agora, não? Mais "malandro"
Gilles Simon: Quando eu era mais jovem, sim. Quando eu era mais jovem era realmente muito pequeno e eu tinha que jogar e ganhar as minhas partidas assim. Então eu aprendi a fazer isso.

Terra: Chang atuava com uma raquete mais longa que as convencionais (chamada de long body). Você já experimentou uma dessas?
Gilles Simon: Sim, eu sei. Mas não, eu não gosto, eu prefiro a minha raquete (sorri).

Terra: Mesmo sem tanta potência nos golpes você venceu todos os quatro melhores tenistas do mundo: Djokovic, Nadal, Federer e Murray. O que você tem de especial?
Gilles Simon: Quando eu os bati, foi muito duro cada vez. Certamente essas são as coisas pelas quais mais me orgulho no tênis. Eu ganhei torneios (nove no total), também me orgulho disso, mas foi realmente alguma coisa de particular, de muito forte. Penso que eu estava em uma boa progressão, eu cheguei bem e eu acreditava que poderia ganhar - se a gente não acredita que pode ganhar, não pode ganhar. Eu acreditava realmente que poderia ganhar a cada vez que joguei. Contra Federer eu tinha ganhado um torneio pouco antes, sentia que jogava bem e disse a mim mesmo: "quero ganhar, posso ganhar a partida". E aconteceu tudo bem porque eu acreditava. E espero que ainda tenha condições de batê-los novamente.

Simon, que enquanto falava sobre o assunto mostrava entusiasmo e gesticulava muito, fazia referência à vitória sobre Federer na segunda rodada do Masters 1000 do Canadá, em julho de 2008. O francês havia ganhado o título em Indianápolis na semana anterior e superou o suíço, então número um do mundo, por 2/6, 7/5 e 6/4. Simon tem retrospecto de duas vitórias e duas derrotas contra Federer. Ele perde nas disputas com Djokovic (6 a 1), Nadal (4 a 1) e Murray (8 a 1).

Terra: Você é um dos poucos tenistas que têm um filho e é casado. Como é viajar o circuito tendo uma família?

Gilles Simon: Difícil. Eu tento levá-los (a mulher, Carine, e o filho, Timothé) aos torneios quando eu posso. Não é sempre possível, porque São Paulo é longe de Paris, então é difícil de trazê-los. Mas eles vão mais tarde, por exemplo, aos Estados Unidos. Dentro de um mês (o Masters 1000 de Indian Wells começa em 8 de março e na sequência ocorre o de Miami).

Terra: Eu me lembro de quando você enfrentou Nadal no Aberto dos Estados Unidos em 2010. Seu filho tinha acabado de nascer. Eu percebi que nessa partida você talvez não estivesse com a vontade de ganhar como em outras ocasiões. Você compreendeu ali que o tênis não é a coisa mais importante em sua vida?
Gilles Simon: Eu não tinha pressão. Se eu ganhasse, era contra Rafa - seria incrível bater Rafa porque naquele ano ele ganhava tudo, jogava extraordinariamente bem, ele ganhou aquele US Open. Então se eu conseguisse batê-lo, seria fantástico. Mas meu filho acabara de nascer, então eu entrei na quadra pensando que se eu perdesse não estaria triste também. Então nos dois casos eu ficaria contente (risos).

Simon foi derrotado por Nadal por 6/4, 6/4 e 6/2 na terceira rodada daquele torneio. O francês entrou em quadra três dias depois do nascimento do filho e ainda não havia conhecido a criança por estar nos EUA.

Terra: E você pensa em ganhar Roland Garros como Michael Chang fez?

Cabeça-de-chave número dois do Aberto do Brasil, o francês Gilles Simon não teve vida longa no torneio. Foi eliminado logo na estreia pelo argentino David Nalbandian por 6/3 e 6/2, mas saiu com uma boa impressão do País: "os brasileiros são muito gentis"
Cabeça-de-chave número dois do Aberto do Brasil, o francês Gilles Simon não teve vida longa no torneio. Foi eliminado logo na estreia pelo argentino David Nalbandian por 6/3 e 6/2, mas saiu com uma boa impressão do País: "os brasileiros são muito gentis"
Foto: Edson Lopes Jr. / Terra

Gilles Simon:

Eu tento. Mas, justamente, com Rafa é difícil (sorri).

Fonte: Terra
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