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Nikão dribla destino trágico, depressão e desponta no Santos

15 jan 2010
15h00
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Ele é o destaque do Santos na Copa São Paulo de Futebol Júnior. Mas Maicon Vinícius da Costa, o Nikão, 17 anos, é, também, mais uma improbabilidade do nosso futebol. Órfão de pai e mãe, irmãos presos por tráfico de drogas, superou a solidão e a depressão clínica para se entregar ao que sabe fazer: jogar bola.

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Principal nome santista na Copa São Paulo, Nikão é cria das categorias de base do Mirassol, clube em que despontou na mesma competição há duas temporadas, com 15 anos, mesmo entre garotos até três anos mais velhos - mas driblar as adversidades, para Nikão, não era novidade. O jovem jogador mostrou qualidades que lhe colocaram na mira de Vanderlei Luxemburgo. Em 2008, ele pintava no Palmeiras.

Do berço aos gramados

Nascido na mineira Montes Claros, Nikão cresceu órfão, sem pai nem mãe por perto. De infância comum aos jogadores de futebol, ele também viu os irmãos se envolverem com o tráfico e serem presos. Mesmo doente, a avó Rita Fonseca da Cruz foi o ombro amigo e o braço direito do menino craque.

A história da vida de Nikão ganha um capítulo importante aos 11 anos. A bola, uma de suas distrações, passou a ser instrumento de trabalho. O empresário Carlos Roberto Carvalho o viu em ação e levou ao Mirassol, clube paulista em que virou a grande atração. Em 2005, excursionou pela Europa e virou matéria de jornais locais por conta do que fez contra PSV Eindhoven e CSKA Moscou. Maradona Negro foi o apelido que lhe deram.

Carlos Roberto, encantado com o talento de Nikão e vislubrando a ele um futuro promissor, desde então é quem cuida de tudo para o garoto. "Até a comer direito eu o ensinei", comenta. O empresário costuma viajar com o meia em férias e feriados. Custeia coisas como um curso de inglês e aparelho dentário.

Apesar de tudo, Nikão não brilhou quando chegou ao Palmeiras em 2008. Morando sozinho em São Paulo, conheceu seu lado mais introspectivo. "Teve depressão e engordou", conta um profissional do futebol mais próximo a ele. Para piorar, seu mundo ruiu quando dona Rita, a avó, morreu.

A queda se refletiu em campo: presença certa nas seleções de base, não integrou o grupo de jogadores que disputou o Sul-Americano Sub-17 nem mesmo o que foi ao Mundial da mesma categoria. Na Copa São Paulo, foi reserva. Era a senha para respirar novos ares, buscar um recomeço.

Feliz em Santos

Destaque do Santos na Copa São Paulo deste ano, Nikão vai coroando uma recuperação em sua carreira. "Como todo menino, ele tem suas travessuras, seus momentos fora de campo. Quero essa alegria dentro do campo e ele amadureceu muito. Tem a cabeça muito boa, sabe o que quer", elogia o técnico Narciso, que conhece bem o significado da palavra recuperação. Há 10 anos, vencia a leucemia e o fim da carreira profissional.

O "professor" também elogia a qualidade técnica do pupilo, que aos 15 anos foi chamado de Maradona Negro por russos e holandeses. "Tecnicamente, ele é fantástico. Bate bem na bola, tem bom drible. Com a bola faz coisas maravilhosas, a gente cobra é mais marcação".

Com sua perna esquerda, faz fintas desconcertantes e chutes potentes. Nikão segue a linha dos jogadores talentosos cujo repertório tem uma pitada de individualismo. Nada mais natural para quem já venceu na vida quase sozinho.

Nikão já defendeu Mirassol e Palmeiras até chegar ao Santos
Nikão já defendeu Mirassol e Palmeiras até chegar ao Santos
Foto: Bê Caviquioli / Futura Press
Fonte: Terra
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