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Tá russo! Fifa: ingênua ou cúmplice de graves abusos de direitos humanos?

Em quatro anos, o mundo do futebol irá para o Catar, país onde um número importante de liberdades básicas é apenas uma miragem

16 jul 2018
04h11
atualizado às 04h12
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O Rei está morto. Viva o Rei! No momento em que a Copa do Mundo de 2018 se encerra, o circo fecha sua lona em Moscou e a Fifa já começa o caminho para a primeira edição da Copa do Mundo no Oriente Médio.

De forma consecutiva, o maior evento do mundo será organizado por dois regimes que não toleram questionamentos. Dois eventos em países que reprimem sua oposição e não permitem sequer que, em silêncio, alguém faça uma reivindicação política ou social nas ruas.

Mas isso não parece ser um problema para a Fifa e seu presidente, Gianni Infantino. Ao longo das últimas semanas, era nítido o deslumbramento do suíço sempre que estava na companhia de Vladimir Putin. Para a entidade máxima do futebol, a eficiência e a censura russa a qualquer debate permitiu uma operação perfeita da Copa. Em uma das reuniões com o czar do Kremlin, Infantino chegou a dizer que se sentia como uma criança "numa loja de brinquedos".

Complicado explicar esse comportamento e mesmo essa frase às vítimas na Síria, às famílias das pessoas que estavam num avião comercial derrubado graças a mísseis russos ou aos opositores que, nas prisões, nem sequer sabem se terão o direito de serem ouvidos.

Em 30 dias de Copa, tive a oportunidade de viajar pela Rússia, a rincões que nem mesmo o chefe do Kremlin costuma visitar com regularidade. Após cada viagem, cada entrevista com ativistas de direitos humanos ou cidadãos, eu me perguntava: a Fifa não sabe que está deixando o maior evento do planeta ser manipulado para fins políticos em um regime que dificilmente poderia cumprir os critérios de uma democracia?

Existem duas opções: ou a Fifa é de uma enorme ingenuidade e não se dá conta de como é utilizada ou ela se torna simplesmente cúmplice de graves abusos de direitos humanos.

Porém, no fantástico universo da Fifa, não há nada tão ruim que não possa piorar. Em quatro anos, o mundo do futebol irá para o Catar, país onde um número importante de liberdades básicas é apenas uma miragem. Em conversas com diversos diretores da Federação e pessoas ligadas à operação do torneio, não existem dúvidas de que o Catar será impecável. Mas a qual custo?

O governo de Doha criou grupos de trabalho para fazer avançar alguns dos direitos dos trabalhadores dos estádios e mudar certas leis, depois da pressão da comunidade internacional. Medidas, porém, insuficiente diante do plano do governo local de utilizar o evento que desembarca no Oriente Médio para fortalecer seu poder autocrático e inquestionável, algo muito parecido ao que foi realizado na Rússia.

Em 2018, uma vez mais o mundo evidenciou o poder do futebol e da Copa do Mundo, capaz de interromper a rotina de bilhões de pessoas pelo planeta. Ao sediar e pagar bilhões por um evento como este, um país se transforma imediatamente no centro das atenções mundiais. Isto não é necessariamente ruim. Mas cabe aos organizadores, patrocinadores, torcedores e à imprensa exigir não apenas que as arquibancadas não tenham pontos cegos. A cegueira tampouco pode existir quando o assunto é a liberdade humana.

Quando a França levantou a taça, o papel picado de cores douradas cobriu um gramado que foi testemunha de parte da história do futebol em Moscou. Mas para que a cortina de fumaça seja dissipada, cabe a todos os atores do futebol - inclusive quem o financia - questionar e cobrar por mudanças. Caso contrário, o maior evento do planeta corre o risco de ser um mero instrumento de manipulação de regimes na contramão da história.

*JAMIL CHADE É REPÓRTER DO 'ESTADÃO'

Estadão
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