O novo efeito das mortes por anabolizantes: mais pessoas querem parar
Morte de atleta de fisiculturismo na Bahia reacende riscos. Médico Guthyerres Carvalho alerta que cresce a procura por tratamento entre usuários preocupados com os riscos ao coração e ao equilíbrio hormonal
A morte do atleta fisiculturista baiano Mailson Araújo, de 35 anos, após sofrer uma parada cardíaca, reacendeu o debate sobre os riscos do uso de anabolizantes. Embora a causa da morte ainda não tenha sido divulgada, a repercussão do caso levou a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) a reforçar o alerta sobre os perigos do uso dessas substâncias para fins estéticos e de desempenho esportivo.
O impacto dessas mortes vai além da comoção. Nos consultórios, médicos observam um aumento na procura por pacientes que desejam abandonar os esteroides e recuperar o funcionamento do organismo. Segundo o médico Guthyerres Carvalho, muitos só percebem a gravidade da situação quando surgem alterações hormonais, cardiovasculares ou psicológicas.
Para o especialista, os casos que ganham repercussão nacional acabam funcionando como um alerta para usuários que, até então, acreditavam estar imunes às consequências do uso prolongado dessas substâncias.
"Percebemos um crescimento na procura por pacientes que querem interromper o uso dos anabolizantes. Muitos chegam assustados após acompanharem notícias de complicações graves ou mortes, enquanto outros procuram ajuda depois de receberem alterações importantes em exames ou começarem a sentir sintomas que antes ignoravam", explica.
De acordo com o médico, um dos maiores desafios é que os efeitos nocivos dos anabolizantes costumam evoluir de forma silenciosa.
"Nem sempre o organismo dá sinais imediatos. A pessoa continua treinando, ganha massa muscular e acredita que está saudável. No entanto, podem estar acontecendo alterações no coração, na pressão arterial, no perfil lipídico e no sistema hormonal que só serão percebidas quando o quadro já estiver mais avançado."
Outro fator que preocupa o especialista é que abandonar os anabolizantes não significa que o organismo voltará automaticamente ao normal.
"Depois de anos recebendo hormônios de forma externa, o corpo reduz ou até interrompe a produção natural de testosterona. Durante esse período de recuperação, muitos pacientes enfrentam queda de libido, fadiga intensa, perda de força, alterações de humor, ansiedade e sintomas depressivos. Por isso, a interrupção precisa acontecer com acompanhamento médico."
Além das consequências físicas, o Dr. Guthyerres Carvalho destaca que muitos usuários desenvolvem uma relação de dependência com a própria imagem.
"Existe um componente psicológico muito forte. Alguns pacientes passam a acreditar que só serão admirados ou respeitados se mantiverem determinado físico. Essa preocupação faz com que muitos prolonguem o uso mesmo sabendo dos riscos ou voltem aos ciclos após tentarem parar."
Segundo o médico, o aumento da procura por tratamento representa uma oportunidade para conscientizar a população sobre um problema que vai além da estética.
"É importante entender que anabolizantes não são apenas uma ferramenta para ganhar músculos mais rápido. Quando utilizados sem indicação e sem acompanhamento adequado, eles podem comprometer o funcionamento de diversos órgãos e aumentar significativamente o risco de doenças cardiovasculares. Quanto mais cedo a pessoa procura ajuda, maiores são as chances de recuperar a saúde e evitar danos permanentes."
Para o especialista, a principal mudança observada nos consultórios é que muitos pacientes já não chegam perguntando qual hormônio usar para acelerar os resultados, mas sim como recuperar a qualidade de vida depois de anos de uso.
"O objetivo deixa de ser apenas construir músculos e passa a ser preservar a saúde. Esse é um movimento positivo e mostra que a informação tem um papel fundamental para prevenir novos casos e salvar vidas."
*Por Yuri Donegate
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