Mexicanos equilibram alegria da Copa do Mundo e preocupações com questões internas
Vários telões decoram o Paseo de Reforma, na Cidade do México, em preparação para o confronto das oitavas de final da Copa do Mundo deste domingo entre México e Inglaterra, mas entre eles há lembranças da dor que persiste nos bastidores do torneio.
Entre os telões ao longo da principal avenida da cidade, há cartazes com fotos das mais de 135 mil pessoas desaparecidas no México, um número que disparou desde 2006, quando o então presidente Felipe Calderón declarou guerra aos cartéis de drogas do país.
Também não tem sido incomum ver a Reforma fechada nas últimas semanas, não apenas para comemorações, mas também para protestos.
Enquanto os co-anfitriões da Copa do Mundo comemoram a campanha invicta de sua seleção, que chegou às oitavas de final sem sofrer nenhum gol, alguns mexicanos se debatem com o dilema de se entregar à alegria patriótica enquanto lidam com dificuldades econômicas e agitação social.
"Enquanto o México vencer, todos nós vivemos com essa onda nacional de dopamina que nos permite evitar pensar em coisas incômodas, como as acusações dos Estados Unidos de suposto conluio entre políticos do Morena (partido governista) e o tráfico de drogas", disse o podcaster e jornalista Carlos Mendoza à Reuters.
"Mas o mundo não para: quando a Copa do Mundo acabar... a realidade ainda estará lá, esperando."
Apesar de uma desaceleração da inflação no início de junho, a taxa de inflação básica do país ainda está acima da meta permanente do Banco do México, de 3%.
Quem já enfrenta dificuldades com o custo de vida não foi ajudado pelos altos preços dos ingressos para assistir às partidas, que também serão sediadas pelos EUA e pelo Canadá, que podem chegar a milhares de dólares.
"Uma das maiores injustiças deste torneio — e não apenas no México — é que os torcedores não podem mais ir ao estádio para ver sua seleção nacional. Antes, a dificuldade era conseguir ingressos. Agora, a dificuldade é pagá-los", acrescentou Mendoza.
A alegria pela vitória do México sobre o Equador nos 16 avos de final — a primeira vitória do país em um mata-mata de Copa do Mundo em 40 anos — também foi ofuscada pela morte de quatro pessoas durante as comemorações na Reforma.
VÁRIOS PROTESTOS
Paredes por toda a cidade e ao redor do Estádio Azteca ainda exibem grafites contra a Copa do Mundo, resquícios dos múltiplos protestos nos primeiros dias do torneio.
Membros do sindicato dos professores CNTE acamparam nas ruas do centro da cidade, com suas barracas bloqueando ruas inteiras.
Eles exigem que o governo cumpra uma promessa de campanha de revogar uma lei de 2007 que reformulou o sistema de aposentadoria e previdência social dos funcionários públicos e querem aumentos salariais.
Isso exige um esforço extra dos torcedores para separar o escudo da seleção nacional das ações da liderança do país.
"É possível se empolgar com 90 minutos de futebol. É possível se preocupar com o país, ficar com raiva da Fifa e detestar a política e a organização do governo da Cidade do México. A vida não é preto e branco", disse o político local Rodrigo Cordera nas redes sociais.
A popularidade da presidente mexicana Claudia Sheinbaum no país continua forte. Segundo uma pesquisa publicada pelo jornal El Financiero, seu índice de aprovação está em 69%, revertendo uma ligeira queda que começou em março. O governo afirma que localizar as pessoas desaparecidas é uma prioridade nacional.
Por enquanto, independentemente de o sonho do México na Copa do Mundo continuar ou não, a realidade nunca está longe dos pensamentos das pessoas.
"O torneio não elimina nossos problemas, mas os coloca em segundo plano na sociedade, e o governo aproveita a euforia para adiar decisões relevantes e urgentes", disse a moradora local Alejandra González à Reuters.
"Espero que sim (que as comemorações inspirem um momento nacional positivo), mas, além da atitude positiva, também precisamos pensar de forma crítica para continuar apontando as desigualdades e inconsistências do governo, das indústrias e de nós mesmos como cidadãos", acrescentou.
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