'Maior dificuldade foi a sensação de estar fora do lugar': a luta de Letícia Bufoni por espaço feminino no skate
A maior campeã da história do skate street dos X-Games concedeu entrevista exclusiva ao Terra
Letícia Bufoni já reinava no mundo do skate em uma época em que, no Brasil, a modalidade era considerada ‘mato a ser desbravado’, especialmente entre o público feminino. Hoje, a carreira da maior campeã da história do skate street dos X-Games inspira milhares de jovens na modalidade, incluindo fenômenos como Rayssa Leal.
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Em homenagem ao aniversário de 33 anos da atleta, celebrado na última segunda-feira, 13, Letícia Bufoni concedeu entrevista exclusiva ao Terra. A skatista revisitou momentos marcantes da carreira e falou sobre os desafios impostos às mulheres na modalidade.
“A maior dificuldade, sem dúvidas, foi lidar com a sensação constante de estar fora do lugar”, diz. Ao se assistir um campeonato de skate, seja masculino ou feminino, o apoio entre os atletas é singular, sejam adversários ou amigos assistindo à beira da pista.
Mas o espaço feminino na modalidade é uma questão recente, e Letícia destaca que o preconceito aumentava a pressão ao mesmo tempo em que a fortalecia como atleta.
“Em uma época em que a presença feminina no skate ainda era muito menos comum do que hoje, ouvir repetidamente que aquele espaço não me pertencia só aumentava a pressão. Ao mesmo tempo, isso acabou fortalecendo quem eu sou”, afirma.
“Em vez de tentar me encaixar em um padrão, eu escolhi continuar ali, do meu jeito, imprimindo minha visão e identidade sobre como ocupar aquele espaço. Foi assim que entendi que vencer, para mim, diz muito sobre resistir, ocupar espaço e ajudar a transformar a estrutura do esporte, e não apenas conquistas individuais”, complementa.
Dentre inúmeras conquistas, como um SLS Super Crown e cinco medalhas de ouro nos X-Games, Letícia ressalta que o ‘título’ que mais a orgulha é a consistência ao longo dos anos de carreira e o impacto que construiu junto a muitas pessoas que ajudaram a construir o skate feminino.
“Hoje vejo uma nova geração com mais liberdade, mais espaço e um nível técnico altíssimo, e saber que fiz parte desse processo, de alguma forma, é muito especial”, exalta. Sempre disposta a aceitar os desafios que lhe eram impostos, Letícia diz que seu objetivo, dentro e fora do esporte, é buscar a sensação de fazer algo novo.
Tanto é que, desde 2025, a paulistana atua como Chefe da Comissão Técnica Internacional de Skate da World Skate, federação internacional que rege a modalidade. Para ela, o desafio vai além das pistas, e tem sido uma missão que exige muita responsabilidade.
“Assim que assumi o cargo, deixei bem claro que buscaria ouvir os atletas e contribuir para decisões de forma alinhada entre o comitê e os skatistas, afinal de contas é do interesse de ambos essa união, em prol do skateboard”, explica.
E o skate não é a única paixão sobre as quatro rodas da multicampeã. Apaixonada por automobilismo, Letícia ascendeu à Porsche Cup, e refletiu sobre semelhanças e diferenças entre as modalidades.
“São esportes de pura adrenalina e é justamente isso que me atrai nos dois. No skate, a pressão é muito mais individual dependendo da minha execução, do meu tempo e da conexão da minha linha. Já no automobilismo, tudo é mais coletivo e estratégico, o resultado envolve a escuderia, a leitura da corrida e a interação com outros pilotos”, avalia.
“A tensão existe nos dois, mas se manifesta de formas diferentes, exigindo tipos distintos de foco e tomada de decisão”, conclui. Fato é que, em quase 20 anos de carreiras e explorando modalidades diferentes, Letícia Bufoni continua a inspirar uma multidão de jovens que sonham com o sucesso esportivo.
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