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Seleção Brasileira

'Estava disposto a ajudar a Seleção como Zagallo me pedisse', diz Piazza

No especial 'LANCE! da Copa de 1970', volante detalha a ânsia de ganhar o Mundial para dar alegria ao país e dificuldades para atuar na zaga: 'Não dou carrinho, dou carroça'

15 jun 2020
07h35
atualizado às 07h35
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A Seleção Brasileira de 1970 encontrou por linhas tortas o ajuste ideal para o seu setor defensivo. Passados 50 anos desde que atuou como quarto-zagueiro no México, Wilson Piazza ousa dizer.

- O fato de eu aceitar atuar como quarto-zagueiro carimbou o meu passaporte para o México. Por mais que corresse risco de ir mal na função, mostrei para o Zagallo que estava disposto a atuar com a camisa da Seleção da maneira como ele pensasse a equipe - afirmou, ao LANCE!.

No especial "LANCE! na Copa de 1970", o volante de origem recorda o seu desejo de dar um alento ao povo que convivia com o período mais repressivo da Ditadura Militar, as adaptações que teve de fazer ao seu estilo de jogo e os obstáculos que encarou com a Seleção Brasileira em solo mexicano.

LANCE!: Houve uma mobilização muito intensa na preparação da Seleção Brasileira desde o início de 1970. Como você sentia o clima entre os jogadores às vésperas do Mundial?

Piazza:
Era um momento muito importante para todos que estávamos lá. Sabíamos que havia uma situação complicada no país, um período de repressão, de censura (o mandato do presidente Emílio Garrastazu Médici, entre 1969 e 1974, ficou marcado como os "anos de chumbo" do ciclo dos militares). Mas decidimos nos concentrar exclusivamente no futebol, pensar que o título seria uma forma de darmos alegria ao povo brasileiro. Estávamos a serviço da pátria, como jogadores. Tivemos uma preparação física muito forte, comandada pelo Admildo Chirol, e, com o passar da convivência, vimos que tínhamos boas chances.

L!: Em março, houve a mudança de comando na Seleção Brasileira. Qual foi o impacto do João Saldanha para a sua evolução com a amarelinha?

Além de termos feito uma grande campanha que fizemos nas Eliminatórias em 1969, na qual conseguimos nos classificar vencendo todos os jogos, sou muito grato ao Saldanha. Ele entregou para mim a braçadeira de capitão da Seleção durante este período, o que é ao mesmo tempo uma responsabilidade e um privilégio. Porém, o fato de ele ser um cara de esquerda já não era bem visto e a presença dele na equipe ficou ainda mais insustentável depois da forma como reagiu ao pedido do Médici para convocar o Dario (o "João Sem Medo" rebateu com "o presidente escala o Ministério e eu escalo a Seleção"). Não dava mais.

Piazza se mostra grato tanto a João Saldanha quanto a Zagallo (Divulgação / CBF)
Piazza se mostra grato tanto a João Saldanha quanto a Zagallo (Divulgação / CBF)
Foto: Lance!


L!: Logo após o Zagallo assumir o comando da Seleção, ele deslocou você para a zaga. Como foi encarar esta nova responsabilidade?

Na verdade, antes da Copa, eu tinha jogado uma vez como quarto-zagueiro, em um Atlético-MG e Cruzeiro em 1967. A partida ficou 3 a 3. Com a expulsão do Procópio (Cardoso, defensor celeste), eu fui para a defesa. Mas na Seleção, tinham Brito, Fontana, Baldocchi e Joel. Aí, durante um treino, o Baldocchi se machucou e eu me ofereci para atuar na defesa. O Zagallo agradeceu muito o meu senso de colaboração na hora e disse que eu tinha ido bem.

L!: E como foi sua reação ao saber que ia se tornar titular justamente na zaga?

Olha, de início, todo mundo achava que a dupla da Seleção ia ser Brito e Fontana, que tinham entrosamento por terem atuado juntos por muitos anos no Vasco. Eu já tinha conseguido a vaga entre os convocados, mas ia buscar o meu espaço de qualquer jeito, naturalmente, com lealdade. Eu era um leão de treino. Aí o Zagallo foi e confirmou que eu ia ser titular da zaga. Eu pensei: "como ele me escala de quarto-zagueiro?". Porque boa impulsão eu até tinha, mas carrinho eu não sabia dar. Eu dava mesmo era carroça (risos). Aí, fui assimilando aos poucos o que tinha de fazer. Agora, imagina se eu faço tudo errado?


L!: Como foi a preocupação para se adaptar ao setor no qual não tinha o costume de jogar?

Bom, a gente tinha o maior atleta do mundo, que é o Pelé, e na frente tinha Tostão, Jairzinho, Gerson, Rivellino. Além disto, o Carlos Alberto (Torres), que tinha explosão e avançava muito. Coube ao Zagallo ajeitar taticamente a equipe. Tirou o Marco Antônio, que era um lateral mais ofensivo, e pôs o Everaldo, mais marcador. Dá para ver que só na jogada do Clodoaldo contra o Uruguai (no gol de empate brasileiro, que abriu caminho para a virada por 3 a 1 na semifinal) é que um jogador mais marcador sai de trás e balança a rede. Outra coisa: a gente não iria fazer linha de impedimento, não dava para vacilar.


L!: Logo na estreia, a Seleção saiu atrás do placar contra a Tchecoslováquia. O que foi importante para a equipe ter poder de reação?

Foi um susto grande. Mas nestas horas, temos que deixar para trás nossos erros e mostrar força. Tanto que viramos para 4 a 1, devido à qualidade do time e do fôlego que tivemos por termos treinado por um mês no México.

L!: Muitos falam que a partida contra a Inglaterra foi um divisor de águas...

Bom, era a campeã do mundo! O jogo teve a defesa do Banks, que foi inacreditável. Ele, no chão, salvou uma cabeçada de Pelé. Depois veio aquele gol do Jairzinho que teve uma jogada de gênio: Tostão cruzou mesmo sem olhar onde estava o Pelé. Ele adivinhou! Aí o "Rei" serviu o Jair, que fez o nosso gol (na vitória por 1 a 0 sobre os ingleses). Mas foi graças ao Félix, que salvou uma investida deles no limite em uma hesitação nossa, que garantimos a vitória.

L!: Como você percebeu que a Seleção tinha pinta de campeã?

O nível das seleções no Mundial era muito forte. A partida contra a Romênia (vitória brasileira por 3 a 2), a única que joguei como médio-volante (Fontana entrou na zaga), foi desafiadora. O Peru (duelo nas quartas de final, vencido por 4 a 2 pelo Brasil) tinha uma seleção de alto nível, com Cubillas, que era muito talentoso. Tivemos muito trabalho... Ao sair de campo e torcer minha camisa dos jogos, saía água. Prova de que valeu ainda mais a luta.


L!: Antes da semifinal contra o Uruguai, os jornalistas brasileiros falavam sobre o jogo ser uma "revanche ao fantasma de 50". O que vocês achavam disto?

A imprensa estava no papel dela, tinha essa história marcante. Agora, eu não tinha medo, só disse o seguinte: "em 1950, estava com sete anos, e na minha cidade (Ribeirão das Neves, interior de Minas Gerais) nem tinha luz, era só lamparina". Só vi o jogo do "Maracanazzo" no cinema, dias depois.

L!: E como foi o desafio de reagir após o gol marcado pelos uruguaios no primeiro tempo?

Para uma batalha deste porte, como uma semifinal, não dá para a gente ficar de cabeça baixa. Era a chance de irmos para a decisão! O gol do Clodoaldo no primeiro tempo nos deu força para reagir, mas teve outra coisa que contribuiu: o carinho da torcida mexicana. Além da presença dos brasileiros, os moradores do México apoiaram a gente em peso durante a campanha. Nos sentimos em casa.


L!: Como estava a ansiedade às vésperas da final contra a Itália?

Olha, a Copa do Mundo exige atenção redobrada. Um trabalho de três, quatro anos, com Eliminatórias, amistosos, pode ir embora em um piscar de olhos. Pus na minha cabeça que, se perdêssemos, poderia até verter uma lágrima, só que não faltaria luta em campo.


L!: Depois do Brasil sair na frente, veio aquele cochilo do Clodoaldo no qual você também não conseguiu parar o Boninsegna. O que acha que aconteceu?

É aquela coisa. Se fosse o Brito, ia dar um carrinho,um chutão. Como eu só dava carroça mesmo... (risos) O italiano era um jogador excelente e veio em um contra-ataque que pegou a zaga toda desarrumada. Acabei chegando atrasado, não deu... O lance serviu para a gente ficar ainda mais atento. Aquilo fez com que, mesmo quando a partida estava 3 a 1 para nós, eu alertasse: "eles podem fazer dois gols em três minutos, não é hora de relaxar!". Só naquele gol do Carlos Alberto, que era uma jogada que ele gostava muito de fazer e já tinha tentado na partida, é que a gente se tranquilizou.

L!: Como é fazer parte desta geração vitoriosa?

Sou muito agradecido por ter participado deste momento maravilhoso e por ter estas histórias bonitas para contar. Nossa Seleção ajudou a fazer os brasileiros sorrirem quando o povo mais precisava. Fomos bons soldados.

NÃO PERCA: nesta quarta-feira, entra em campo no "LANCE! na Copa de 70" uma entrevista com o volante Clodoaldo.

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