Proibidos no Brasil, galos de briga têm status de atleta na sede do Pan
O aviso na entrada impede o porte de armas de fogo e objetos cortantes. Do lado de dentro, em meio a um policiamento ostensivo, apostadores da briga de galo, alguns de chapéu e botina, se misturam com jovens de salto alto, interessadas em acompanhar o show da cantora Jenni Rivera. Na arena das "Fiestas de Octubre" de Guadalajara, sede dos Jogos Pan-Americanos, os galos de briga, proibidos no Brasil, têm status de atletas.
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A rinha é uma tradição no México e costuma integrar o programa das festas populares. Aos finais de semana, a mesma arena que recebe as brigas de galo das 20h à 0h se transforma rapidamente em palco para apresentações musicais em Guadalajara. Antes da exibição dos cantores, porém, o palco é dominado pelas aves de combate.
Os galos começam a ser treinados para a rinha com aproximadamente dois anos de idade. Para fortalecimento físico, são obrigados a voar e correr. Em seguida, com as esporas protegidas, começam os enfrentamentos entre si. Cerca de um mês de preparação é suficiente para deixar a ave pronta para o primeiro combate real, que também pode ser o último.
O espaço das Fiestas de Octubre de Guadalajara oferece comidas típicas e jogos infantis, mas o "Torneo de Gallos" é uma das principais atrações. Diariamente, dois criadores diferentes disputam uma série de melhor de nove confrontos. Para distinguir cada "equipe" e facilitar as apostas, uma ave leva uma fita vermelha amarrada na pata e a outra, uma verde.
Os galos de briga são levados à arena pelos chamados "soltadores". Responsáveis por liberar as aves para o combate, eles entram com os animais no colo, como se fossem bebês de bochechas rosadas e fraldas limpas. Enquanto senhores engravatados recolhem as apostas, em uma cena que lembra os antigos pregões da bolsa de valores, os galos são equipados com uma navalha de uma polegada na espora esquerda.
Com a proximidade da luta, os soltadores começam a atiçar as aves, que são pesadas antes de cada duelo, como os lutadores de boxe, por exemplo. Além dos animais que disputarão o combate, um terceiro galo é levado à arena com a única finalidade de enervar os outros dois. Segurados pelos rabos, eles são colocados frente à frente e tentam se engalfinhar.
Antes do começo do combate, os dois soltadores levantam os respectivos galos na altura do peito, dão alguns passos para trás e os liberam. Imediatamente, os animais partem para o duelo. As regras variam de acordo com o tipo de luta e a arma utilizada, mas, basicamente, vence o galo que sobreviver ou que fizer o adversário fugir. Se o animal tocar o solo com o bico, também perde.
Além dos dois soltadores, a única pessoa no palco é o "juiz de arena" que, assim como no boxe, abre contagem em determinadas situações. Quando os galos ficam no chão e param de lutar, o árbitro autoriza os soltadores a reposicioná-los. Eles examinam os ferimentos dos animais e, para tentar reanimá-los, assopram os bicos e dão estirões nos pescoços.
Os combates acompanhados duraram poucos minutos. No intervalo de cada luta, um dos engravatados assume o microfone e comanda um bingo com o público até o próximo duelo ser iniciado, enquanto os colegas circulam pelas arquibancadas em busca de apostas.
O dinheiro passa de mão em mão vigiado por policiais e por uma equipe de segurança particular. Um dos membros, inclusive, tentou impedir as fotos.
Apesar da tradição, a briga de galo vem sendo questionada em alguns estados mexicanos. Unidos na Seção Nacional dos Criadores de Aves de Combate (SNCAC), criada no ano de 1973, e na Comissão Mexicana de Promoção Galística (CMPG), os adeptos da atividade fazem esforços para evitar que ela seja vetada por leis de proteção aos animais.
No Estado de Querétaro, a briga de galos corre risco. No último dia 17, Gilberto Figueroa Velazquez, representante da CMPG, e Efrain Rabago Echegoyen, presidente da SNCAC, chegaram a se reunir com os deputados Marcos Aguilar e Marco Antonio Aguilera, que integram a comissão responsável por elaborar a Lei de Proteção aos Animais da região.
Em Guadalajara, apenas o galeiro Lupillio Rios, 33 anos, aceitou conceder entrevista. Com poucas palavras, ele tratou de defender a atividade, apesar de as aves sobreviverem, no máximo, a cerca de oito combates.
"Nas brigas de galo, você ganha ou perde como em tudo na vida. Quem tem dinheiro, aposta. Quem não tem, não aposta. Cada um tem seus gostos. É uma tradição no México e ninguém vai conseguir mudar isso", disse, enquanto limpava com um lenço a calça jeans suja de sangue dos animais.
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